ADN mostra que não há raças

Perfil genético de brancos e negros brasileiros é semelhante

18 dezembro 2002
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Independentemente de terem traços «europeus» ou «africanos», de um modo geral, os brasileiros apresentam perfis genéticos que derivam de populações de ambas as regiões geográficas.
 

 

Segundo um estudo brasileiro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as conclusões deste trabalho aplicam-se apenas ao Brasil e não devem ser extrapoladas de maneira ingénua para outros países.
 

 

A investigação, que teve a colaboração de cientistas da Universidade do Porto demonstra que ter a pele escura não indica com segurança que a pessoa teve a maioria de seus genes herdada de ascendentes africanos. «Os dados sugerem que no Brasil, no plano individual, a cor determinada por avaliação física é um fraco factor de predição de ancestralidade genómica africana estimada por marcadores moleculares», dizem os autores no artigo, em linguagem cautelosa.
 

 

Os marcadores genéticos usados no estudo foram propostos por Esteban Parra na revista especializada "American Journal of Human Genetics" em 1998. Estes marcadores foram escolhidos porque têm uma alta correlação com a origem africana ou europeia da população (pelo menos 48 por cento mais comuns numa das populações) e reunidos estatisticamente num «Índice de Ancestralidade Africana» (AAI).
 

 

No trabalho, os investigadores constataram haver uma dissociação significativa entre a ancestralidade geográfica genómica (africana versus europeia) e a raça social, avaliada a partir de múltiplos atributos físicos, como a pigmentação da pele, a cor e a textura dos cabelos, a cor dos olhos e o formato do nariz e dos lábios. «Por outras palavras, o perfil genómico dos brasileiros negros ou brancos difere muito pouco», afirmou Pena, que é investigador da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
 

 

O cientista explicou que, nos últimos anos, tem vindo a usar sistematicamente ferramentas genómicas com o objectivo de obter o que chama de «retrato molecular» dos brasileiros.
 

 

A fase inicial do projecto envolveu o uso de indicadores herdados apenas de um dos pais: o DNA mitocondrial (mtDNA), proveniente da mãe, e o cromossoma Y, que os pais transmitem aos filhos do sexo masculino. Esses marcadores oferecem informações de linhagem muito distantes e de origens geográficas bastante específicas, explicou Pena.
 

 

«Nas investigações sobre a linhagem materna encontramos uma quantidade surpreendentemente elevada de contribuição de material genético de indígenas (33 por cento) e de africanos (28 por cento) para o mtDNA total dos brancos brasileiros», disse Pena.
 

 

Depois desta fase, os cientistas avaliaram as linhagens paternas e descobriram que, na maioria dos casos, a origem dos cromossomas Y dos homens brasileiros é europeia, independente da procedência desses homens. E, devido à história do Brasil, em 1500 os colonizadores europeus cruzaram-se com indígenas brasileiras e africanas.
 

 

Pena afirmou ainda que «tanto leigos quanto cientistas confundem o conceito de cor ou “raça” com o de ascendência geográfica e empregam termos intercambiáveis, como branco, caucasiano e europeu, por um lado, e negros ou africanos, por outro».
 

 

Este estudo, por outro lado, aponta o quanto essa prática é nociva, ao mostrar claramente que a ascendência geográfica e a “raça social” - esta última, avaliada pelo critério físico - são atributos bem diferentes e que, ao menos no caso dos brasileiros, estão em grande parte dissociados, afirmou o investigador.
 

 

Tanto antropólogos como os geneticistas concordam: do ponto de vista biológico, as raças humanas não existem. O conceito de raça é uma construção social que muda ao longo do tempo, de acordo com contextos sociais, e que só se sustenta por uma ideologia racial, observou Pena.
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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