Abuso no uso de medicamentos nas crianças pode ter consequências graves

Estudo publicado na Ata Médica Pediátrica

23 fevereiro 2012
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Um estudo inédito em Portugal identificou um “elevado” consumo de medicamentos nas crianças e casos em que os cuidadores administraram fármacos que foram vendidos sem a obrigatória receita médica e cujos efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves.

 

Da responsabilidade de profissionais dos hospitais Dona Estefânia, em Lisboa, e Fernando Fonseca, no concelho da Amadora, o estudo sobre o “Uso (ou abuso) de fármacos na idade pediátrica” foi publicado na Ata Médica Pediátrica.

 

A pediatra Maria João Brito, uma das responsáveis da investigação, reconheceu que esperava que a utilização de fármacos “fosse mais criteriosa” nas crianças, “dadas as suas particularidades orgânicas”.

 

De acordo com o estudo, que incluiu 189 crianças com idade média de 5,8 anos, a maioria dos inquiridos (63,5%) tinha tomado pelo menos um fármaco nos três meses anteriores

 

Os medicamentos mais usados foram os analgésicos/antipiréticos e anti-inflamatórios não esteroides (41,1%), com utilização quase exclusiva do paracetamol e ibuprofeno.

 

"Apesar da utilização elevada destes fármacos ser expectável devido à frequência da patologia viral nesta faixa etária, os resultados alertam para a necessidade de uma maior monitorização”, revelou Maria João Brito à agência Lusa.

 

A especialista adverte que, “pelo facto de serem medicamentos de uso comum e não estarem sujeitos a receita médica, o seu consumo pode ser banalizado, condicionando riscos acrescidos”.

 

Foram igualmente identificados antibióticos sistémicos (25,8%), anti-histamínicos (6,9%), broncodilatadores (3,5%) e antitússicos/expetorantes (6,9%).

 

Maria João Brito sublinha que “em nenhuma idade se deve medicar desnecessariamente, mas em grupos etários mais jovens os efeitos secundários podem manifestar-se mais frequentemente”.

 

"A utilização de fármacos não adequados em grupos etários específicos deveria ser vigiada e regulamentada por entidades superiores”, defende a pediatra, para quem “o conhecimento do padrão de consumo de medicamentos é fundamental para melhorar a qualidade da prescrição”.

 

Sobre o consumo de antibióticos, a médica lembra que existem estudos que apontam para “uma utilização excessiva de antibióticos nas infeções respiratórias potencialmente autolimitadas em possível relação com um diagnóstico incorreto, receio do médico de não medicar uma infeção bacteriana grave e dificuldade no seguimento”.

 

Maria João Brito reconhece que “os médicos são muitas vezes pressionados para prescreverem antibióticos em doenças que estes fármacos não têm qualquer interferência, como nas doenças virais, muito frequentes na idade pediátrica”, embora se tenha vindo a assistir a “uma menor cedência por parte do médico e a um maior reforço junto dos pais sobre as indicações dos antibióticos”.

 

A investigação apurou automedicações (pais, próprio e ama) em 19,1% dos casos e quatro medicamentos (2,3%) recomendados na farmácia.
Estas automedicações ocorreram quase exclusivamente com antipiréticos e analgésicos não sujeitos a receita médica, mas em nove casos foram usados fármacos sujeitos a receita médica.

 

Maria João Brito realça nas automedicações casos em que foram usados fármacos sujeitos a receita médica, mas que “os pais tiveram acesso a medicação sem prescrição e os efeitos secundários poderiam ter consequências mais graves”.

 

Ainda assim, foram relatados possíveis efeitos secundários em seis crianças, maioritariamente gastrointestinais e em associação com consumo de antibióticos, que conduziram à suspensão da terapêutica por parte dos pais, lê-se no estudo.

 

A médica chama a atenção para os riscos do uso indevido de fármacos: podem ocorrer efeitos secundários ligeiros a graves, além de que o quadro clínico pode ser mascarado com o uso indevido de fármacos que podem dificultar e atrasar o diagnóstico.

 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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