A seleção natural também existe no útero

Estudo publicado na “Cell Reports”

10 dezembro 2018
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As condições da vida intrauterina, quando o embrião possui apenas cerca de 100 células, poderão ter um impacto vitalício sobre a saúde do mesmo, concluiu um estudo recente.
 
Anteriormente, assumia-se que este impacto era devido ao facto de os embriões reagirem a condições adversas através da programação da expressão genética.  
 
O estudo, conduzido por uma equipa internacional de investigadores, vem propor uma explicação radicalmente diferente: em vez de serem programados pelo meio-ambiente onde se inserem, a vantagem na sobrevivência dos embriões é determinada por diferenças aleatórias na expressão genética, especialmente quando se encontram com condições hostis.
 
Com efeito, os investigadores estudaram a metilação do ADN, que constitui um mecanismo importante para controlar a atividade genética, e descobriram que uma parte específica do padrão de metilação do ADN se encontrava em falta em pessoas expostas à fome.
 
A ideia do estudo surgiu após ter sido observado que as pessoas concebidas durante o Inverno da Fome na Holanda (1944-1945) apresentavam uma má saúde cardiovascular com 60 e mais anos de idade. Isto pode ser atribuído a alterações persistentes na forma de expressão genética, através da chamada alteração epigenética do ADN.
 
“Sabemos que a falta de nutrição diminui a possibilidade de o embrião sobreviver. O nosso novo estudo indica que a sobrevivência à fome no interior do útero dependeu de um padrão de metilação do ADN que permitiu que o embrião continuasse a crescer apesar dos limitados recursos”, esclareceu Bas Heijmans, investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Leiden, Holanda. 
 
O investigador acrescentou que, contudo, “esses mesmos padrões de metilação poderão exercer efeitos adversos sobre a saúde muito mais tarde na vida”. 
 
A equipa inspirou-se na biologia evolutiva para perceber a dinâmica entre fatores epigenéticos e a sobrevivência do embrião. Na evolução, a variação genética aleatória é filtrada através da seleção natural, o que resulta na acumulação de variantes que melhor se adaptam ao meio-ambiente onde se inserem. Um modelo computacional demonstrou que a variação epigenética aleatória entre os embriões é inevitável, tal como as mutações genéticas.
 
Algumas das variantes aleatórias da metilação do ADN poderão aumentar a possibilidade de sobrevivência do embrião face a uma nutrição escassa. Consequentemente, estas variantes epigenéticas tornar-se-ão mais comuns em coortes em que os embriões tenham sido expostos à fome.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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