A narcolepsia pode ser uma doença auto-imune

Imunossupressores reduzem a severidade dos sintomas e atrasa a manifestação da doença

31 dezembro 2001
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A narcolepsia é uma doença do foro neurológico para a qual ainda não existe cura. Esta desordem envolve a disfunção em determinados mecanismos cerebrais que provocam uma paralisia total enquanto a pessoa sonha. Assim, os doentes são acometidos por «ataques» súbitos de sono, em qualquer altura do dia, durante os quais o seu corpo paralisa completamente durante qualquer actividade que esteja a fazer: uma reunião de trabalho, uma espera numa fila numa qualquer repartição pública, um encontro de amigos ou até mesmo durante a condução de um veículo. É, portanto, uma doença que afecta a vida pessoal, profissional e familiar destes doentes e que pode mesmo, em determinadas situações, por em perigo a própria vida.
 

 

É possível que o sistema imunológico destrua células do hipotálamo
 

 

Jerry Siegel, investigador na Universidade da Califórnia, Los Angeles (EUA), e a sua equipa realizaram um trabalho de que resultaram revelações surpreendentes. Estes cientistas administraram substâncias imunossupressoras a cães portadores da mutação genética relacionada, nos cães, com o desenvolvimento de narcolepsia e verificaram que o aparecimento da doença foi significativamente atrasado e, mais, que a severidade dos sintomas foi significativamente reduzida.
 

 

Destes resultados, Siegel e seus colaboradores colocam a possibilidade desta doença resultar da acção do sistema imunológico sobre determinadas células cerebrais e, portanto, a narcolepsia constituir uma doença auto-imune.
 

 

Numa entrevista à Newscientist, Siegel explicou que «os a redução dos sintomas nos cães, induzida pelos imunossupressores, foi admirável.» E avança mesmo afirmando que «é bem possível que um tratamento semelhante seja igualmente eficaz em humanos mas, para isso, teríamos de detectar os sintomas ainda numa fase inicial do desenvolvimento da doença.»
 

 

Apesar desta doença ser conhecida há cerca de 120 anos, só nos últimos dois anos é que alguns trabalhos de investigação revelaram a sua causa. Pensa-se, actualmente, que a narcolepsia resulta da perda de um tipo específico de células do hipotálamo, células essas que serão responsáveis pela produção de uma proteína designada hipocretina.
 

 

Siegel e os colaboradores pensam, de acordo com os resultados obtidos neste trabalho, que a narcolepsia surge quando o sistema imunológico, por qualquer razão, ataca e destrói essas células.
 

 

Detecção precoce é indispensável
 

 

De acordo com o coordenador deste estudo, a identificação desta doença ainda no início das suas primeiras manifestações é muito difícil. Como ele explicou à Newscientist, a narcolepsia humana não está ligada a qualquer tipo de mutação genética, como acontece com os cães utilizados nesta investigação.
 

 

Nos seres humanos a doença manifesta-se inicialmente por uma enorme necessidade de dormir durante o dia. Durante largos anos, os doentes podem ser orientados pelo seu médico para tentarem dormir mais – apenas isso. «É frequente estas situações arrastarem-se por dez anos ou mais até que, finalmente, a doença é diagnosticada e se inicia um tratamento específico», explicou Siegel.
 

 

Assim, quando a doença é, por fim, identificada, os doentes já perderam uma grande parte das células produtoras de hipocretina. Isto é particularmente grave quando se sabe que os doentes em que a narcolepsia é identificada nos estados iniciais de desenvolvimento têm níveis muito baixos destas células – as consequências do diagnóstico tardio são muito mais graves. «Não sabemos, de facto, a velocidade da destruição destas células – a destruição tanto pode demorar algumas semanas como meses ou até anos», afirmou aquele investigador.
 

 

Esta equipa de investigação espera que venha a ser possível identificar esta doença por intermédio de uma simples análise ao sangue das pessoas que se queixem de perturbações do sono. Dessa forma, seria possível começar um tratamento imunossupressor numa fase precoce do aparecimento dos primeiros sintomas narcolépticos.
 

 

No entanto, a investigação no que respeita a esta doença também está a ser encaminhada noutros sentidos alternativos. As injecções directas de hipocretina, por exemplo, já revelaram a sua eficácia na redução dos sintomas de narcolepsia em cães. Apesar de Siegel e seus colaboradores pensarem que esta também poderá ser uma abordagem que teria sucesso no tratamento da doença em humanos, a verdade é que os efeitos tóxicos destas injecções ainda não foram estudados. Assim, é necessário que as investigações continuem até se encontrar um tratamento e, quem sabe, uma cura para esta doença.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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