A linguagem dos sentidos

Estudo publicado na revista “Nature”

06 outubro 2016
  |  Partilhar:

Investigadores suíços identificaram a assinatura da expressão genética comum à visão, tato e audição, o que permitiu descobrir a “língua franca” sensorial que facilita a interpretação e a integração da informação sensorial do cérebro. Estes achados publicados na revista “Nature” abrem assim caminho para uma melhor compreensão dos distúrbios de perceção e comunicação.
 

A visão, o tato e a audição são as nossas janelas para o mundo. A capacidade de detetar e classificar vários tipos de estímulos é essencial para interagir com objetos e pessoas que nos rodeiam, assim como para comunicar corretamente. Na verdade, os défices de interação social dos pacientes com autismo parecem ser, em parte, resultantes das dificuldades em detetar e interpretar os sinais sensoriais. Mas de que forma o cérebro interpreta e integra os estímulos enviados pelos cinco sentidos?
 

Neste estudo, os investigadores da Universidade de Genebra, na Suíça, analisaram a estrutura genética das vias táteis, visuais e auditivas em ratinhos. Ao observarem a expressão genética visual nestas vias distintas durante o desenvolvimento, os cientistas foram capazes de detetar padrões comuns, como que uma linguagem genética subjacente a todas.
 

Os investigadores, liderados por Denis Jabaudon, constataram que durante o desenvolvimento, as várias vias sensoriais partilham inicialmente uma estrutura genética comum que posteriormente se adapta à atividade do órgão associada a cada sentido.
 

O investigador referiu que este processo demora apenas alguns dias em ratinhos, mas pode demorar vários meses nos seres humanos, cujo desenvolvimento é mais longo e bem mais sensível ao ambiente.
 

Esta língua franca genética permite a construção das várias vias sensoriais de acordo com uma arquitetura similar independentemente das suas funções distintas. É esta linguagem partilhada que permite ao cérebro interpretar corretamente os estímulos que proveem de diferentes fontes e compor uma representação coerente do seu significado combinado.
 

A partilha do mesmo plano de construção também explica como as várias vias se podem equilibrar mutuamente, nomeadamente o facto de o tato e a audição ficarem altamente desenvolvidos quando um indivíduo nasce cego. Esta descoberta também explica porque as interferências sensoriais, incluindo a sinestesias e alucinações, podem ocorrer em indivíduos que sofrem de doenças do neurodesenvolvimento, como o autismo ou esquizofrenia.
 

Denis Jabaudon conclui que estes resultados ajudam a perceber melhor como os circuitos cerebrais que constroem a nossa representação do mundo se juntam durante o desenvolvimento. “Agora, estamos em condições de analisar como estes achados podem ser utilizados para os [circuitos cerebrais] reparar quando falham”, acrescentou o investigador.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar