A cultura não é exclusiva da espécie humana

Orangotangos aprendem e ensinam à geração seguinte

05 janeiro 2003
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Os orangotangos asiáticos emitem um som de "boa noite" antes de adormecer, indica um estudo segundo o qual estes símios são capazes de aprender e transmitir o que sabem à geração seguinte.
 

 

A descoberta, na base de um estudo que integra a edição de sexta-feira da revista Science, sugere que os primeiros primatas podem ter desenvolvido a capacidade de inventar novos comportamentos, como a utilização de ferramentas e formas de comunicação sonora, há cerca de 14 milhões de anos, cerca de 6 milhões de anos mais cedo do que se pensava até agora.
 

 

Aparentemente anedótico, o hábito de desejar boa noite através do som "pfft" mais não é, aos olhos do norte-americano Carel van Schaik, da Univerisdade Duke, de Durham (Carolina do Norte), e dos seus colegas, que uma prova importante da transmissão social de comportamentos e de verdadeiras variações culturais regionais entre estes grandes símios vermelhos da Ásia.
 

 

O "pfft" é próprio dos símios da região de Kinabatangan (norte do Bornéu) e de Suaq Balimbing (norte de Sumatra).
 

 

"Se os orangotangos têm cultura, isso diz-nos que a capacidade de desenvolver cultura é muito antiga", explicou, por seu lado, Birute Galdikas, co-autora do estudo.
 

 

Na longa marcha da evolução, "os orangotangos separaram-se dos nossos antecessores e dos macacos africanos há muitos milhões de anos atrás", disse, acrescentando que o novo trabalho sugere que "eles tinham cultura antes de se separarem".
 

 

Cultura, em linguagem científica, define-se pela capacidade de inventar novos comportamentos que são adoptados pelo grupo e passados às gerações seguintes.
 

 

A cultura dos orangotangos é imperfeita segundo os padrões humanos, mas não deixa de ser cultura, uma vez que é desenvolvida e praticada independentemente por grupos diferentes e gerações sucessivas à semelhança do que acontece nas sociedades humanas, que desenvolvem e perpetuam formas únicas de música, arquitectura, linguagem, vestuário e arte.
 

 

Os investigadores estudaram resultados recolhidos de observações de seis bandos autónomos de orangotangos do Bornéu e de Sumatra, descobrindo que cada grupo praticava comportamentos únicos, desde sons com os lábios à utilização de folhas para proteger as mãos quando comem frutos com espinhos.
 

 

Um grupo de Sumatra, por exemplo, aprendeu a usar paus para tirar insectos dos buracos das árvores, enquanto que um outro diferente aprendeu a puxar pequenas árvores até ao chão para arremessar os ramos perante uma situação de perigo.
 

 

Já um grupo de macacos do Bornéu limpa frequentemente o focinho com folhas, como se de um guardanapo se tratasse, cabendo aos parentes mais velhos ensinar esta técnica social aos mais novos.
 

 

Ao todo, os investigadores encontraram 24 exemplos de comportamentos que são praticados no dia a dia pelo menos por um grupo e que são passados de geração em geração.
 

 

"Desenvolver esta cultura é indicativo de que o seu nível cognitivo é muito elevado", disse Galdikas, que se dedicou ao estudo dos animais no meio selvagem durante 30 anos.
 

 

"Os orangotangos são tão inteligentes como os chimpanzés e os gorilas, apenas têm uma forma diferente de mentalidade e de personalidade", afirmou.
 

 

Fonte: Lusa

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