Como apanhar estrelas
27 setembro 2009
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Há vidas que estão suspensas por um fio de seda, prestes a ceder ao peso da realidade. A escola, os pais, as políticas sociais, tudo parece ser insuficiente para restaurar o brilho dessas estrelas feridas. A prevenção da exclusão social juvenil e a acção nesta área constituem uma tarefa hercúlea, muitas vezes frustrante e com resultados difíceis de quantificar.
 

Simon Richey, Director dos Serviços Educativos da Delegação da Fundação Gulbenkian no Reino Unido, conhece profundamente essa realidade que, naquele país, atinge números assustadores. As estatísticas oficiais são negras: em 2006/2007, 8.680 alunos foram permanentemente excluídos da escola. É com essas crianças que Simon desenvolve desde há vários anos o seu trabalho de intervenção através da arte, e foi esse trabalho que serviu de inspiração ao projecto em desenvolvimento da (ainda em processo de criação) Fundação ALERT com os jovens da Associação Crescer Ser.
 

Cristina Meireles, a coordenadora da Fundação, valeu-se da oportunidade de Simon Richey se deslocar a Portugal para o convidar a vir ao Porto partilhar a sua profunda experiência. Para participar na sessão, estiveram presentes vários representantes de instituições como a Fundação de Serralves e as associações Crescer Ser e PELE – Espaço de Contacto Social, aos quais se juntaram pedopsiquiatras, psicólogos e artistas plásticos, nomeadamente Kerstin Thomas, a alemã apaixonada pela serra da Lousã e Elisabete Bompastor, psicóloga e arte-terapeuta, que colaboram com a Fundação ALERT no projecto com os jovens da associação Crescer Ser.
 

Objectivamente, pretendia-se dar a conhecer e discutir os pressupostos e as conclusões do trabalho intensivo de três semanas que deu origem ao documentário “Everything Stopped”. Este projecto, supervisionado por Simon Richey, consistiu em colocar um grupo de jovens permanentemente excluídos do sistema escolar inglês a colaborar com uma companhia de dança, tendo por fim a preparação de um espectáculo para pais e professores.
 

Posteriormente, seria feita uma breve apresentação, pela Cristina Meireles, do projecto ainda em curso da Fundação ALERT, com testemunhos da Elisabete Bompastor e da Kerstin Thomas.
 

Sentia-se em todos uma enorme vontade de aprender e de partilhar vivências. A sessão ultrapassou as barreiras linguísticas e foi sempre fluida e profundamente emotiva. Simon, disponível e generoso, falou com pormenor sobre a sua larga experiência e sobre o projecto que veio cá mostrar e Cristina, a anfitriã da tarde, mediou a discussão que se seguiu ao visionamento do documentário.
 

Foram muitas e pertinentes as questões levantadas. Os problemas da avaliação destas experiências e da sua continuidade sobressaíram pelo grau de dificuldade que apresentam. Não se encontraram fórmulas mágicas para resolver os vários assuntos tratados, nem era esse o objectivo desta sessão, mas o espaço que se abriu à partilha fez, notoriamente, eco em todos os presentes que, apesar de ser sábado, não demonstravam vontade de abandonar a sala.
 

Criar oportunidades e fazer renascer a esperança em jovens que se sentiram sempre excluídos de uma sociedade que não os compreende não é uma tarefa linear. As pessoas que lutam diariamente para melhorar a realidade social do nosso país têm muitas vezes de encontrar motivação nas pequenas vitórias pouco visíveis, não se deixando abater pelas imensas contrariedades. Felizmente, para esses jovens e para a saúde dos valores humanos, há quem não desanime e avance, apesar de tudo, agarrando essas vidas suspensas, não as deixando cair.

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