Vacinar, porquê?

Artigo de:

Dra. Elisa Proença Fernandes - Pediatra - 20-Ago-2000

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Revisto por:

Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009

A vacinação (imunização activa) é um dos meios mais baratos e eficazes de prevenir doenças infecciosas graves. Desde a criação do Programa Expandido de Imunizações (PEI) da Organização Mundial de Saúde, os níveis de imunização com as seis vacinas infantis básicas - difteria, tosse convulsa (coqueluche), tétano, poliomielite, sarampo e tuberculose, subiram de 5% no início da década de 1980 para cerca de 80% em todo o mundo actualmente.

 

Em cada ano são evitadas pelo menos 2,7 milhões de mortes por sarampo, tétano neo-natal e tosse convulsa e 200.000 de casos de paralisia por poliomielite. A utilização generalizada das vacinas oferece a possibilidade de controlar e até erradicar algumas doenças, como aconteceu com a varíola. Nas Américas, foi também possível a erradicação da poliomielite e nos Estados Unidos a quase eliminação da rubéola congénita, tétano e difteria, além de uma redução acentuada de tosse convulsa, rubéola, sarampo, parotidite (papeira) e meningite por Haemophilus influenzae tipo B.
 

No entanto, muitas situações evitáveis por vacinação são ainda frequentes no mundo em desenvolvimento e como as doenças infecciosas não respeitam barreiras geográficas, uma doença descontrolada em qualquer parte do mundo representa um risco para os outros países.
 

O facto de a vacinação ser bem sucedida e de tornar estas doenças pouco frequentes em determinadas regiões nunca deve ser motivo para os pais ou mesmo os profissionais de saúde serem mais complacentes ou terem um medo indevidamente maior de reacções adversas das vacinas do que das doenças por elas evitadas.

 

Os principais métodos de vacinação consistem no uso de agentes infecciosos vivos atenuados (habitualmente conhecidas como vacinas de "vírus vivo") e de agentes mortos (vacinas de "vírus morto"); estes últimos podem ser microrganismos inteiros (ex: coqueluche) fracções desses microrganismos (ex: Haemophilus influenzae B) ou toxinas modificadas (ex: toxóides da difteria e do tétano). A vacina contra a poliomielite utiliza normalmente agentes vivos atenuados, mas pode, em determinadas situações, ser de "vírus morto".

 

Actualmente, a engenharia genética possibilita também a obtenção de produtos específicos de recombinação, como é o caso da hepatite B. As vacinas de "vírus vivo" (ex: sarampo, rubeóla, papeira) provocam uma resposta mais parecida com aquela despertada pela infecção propriamente dita e, por isso, são mais eficazes do que as vacinas de "vírus morto", razão pela qual estas precisam sempre de doses repetidas.

 

O Programa Nacional de Vacinação (PNV) da Direcção Geral de Cuidados de Saúde Primários inclui as vacinas contra a tuberculose (BCG), difteria, tétano e tosse convulsa (DTP), poliomielite (VAP), sarampo, papeira e rubéola (VASPR), hepatite B e Haemophilus influenzae tipo B. As modificações mais recentes ao PNV incluíram, em 2006, a vacina contra uma bactéria causadora de meningite (Neisseria meningitidis tipo C), administrada durante o primeiro ano de vida, e, em 2008, a vacina contra quatro estirpes do vírus do papiloma humano, uma das causas de cancro do colo do útero.

 

A vacinação contra a hepatite A, sugerida por alguns médicos, tem sido apenas pontual, uma vez que esta doença em crianças, em áreas endémicas, é geralmente assintomática ou ligeira e confere imunidade vitalícia. Há, no entanto, raros casos graves de doença, não sendo consensual a sua administração por rotina.

 

Existem ainda outras vacinas comercializadas em Portugal, como a da gripe e a vacina antipneumocócica, que também não fazem parte do PNV mas têm indicação em determinadas situações específicas de risco.

 

O esquema cronológico de vacinações consiste na primovacinação e nas doses de reforço, sendo todas as doses válidas para efeitos de imunização (ou seja, a interrupção do calendário vacinal não obriga ao seu recomeço). O PNV em vigor em Portugal foi especificamente estudado para o nosso país e é este que devemos cumprir. Ele, no entanto, não deve ser rígido, podendo ser adaptado às condições epidemiológicas locais e a determinados casos individuais.

 

A maior parte das vacinas pode ser dada ao mesmo tempo, sem diminuição da eficácia ou aumento de reacções adversas, havendo assim interesse na administração de várias vacinas, simultaneamente; o problema que actualmente se coloca é a quantidade de injecções a que a criança é sujeita. Infelizmente existem ainda muitas situações que, na prática, fazem adiar ou mesmo anular a administração de determinadas vacinas e que na realidade não constituem razão para tal.

 

As contra-indicações da vacinação são poucas e consistem basicamente em doenças agudas (atenção: doenças febris benignas, como infecções das vias respiratórias superiores ou diarreias ligeiras não são contra-indicação), reacções secundárias graves após a primeira dose da vacina (no caso da tríplice, o problema costuma ser com o componente contra a tosse convulsa e então prossegue-se a vacinação com os outros dois componentes - DT), doenças neurológicas evolutivas (a paralisia cerebral não contra-indica) e alergia grave ao ovo e aos antibióticos existentes nas vacinas; durante a gravidez e nos indivíduos imunodeprimidos devem evitar-se as vacinas vivas.

 

É importante alertar para os possíveis efeitos colaterais, comuns mas benignos, após algumas vacinas. Relativamente a estes, relembrar por exemplo o caso da BCG , com formação de ulceração cerca de um mês após, e o aparecimento de febre e irritabilidade um a três dias após a tríplice (facilmente controladas com paracetamol e gelo local).

 

Compete aos profissionais de saúde a promoção e a vigilância do estado de imunização da população. É contudo essencial que os pais percebam a importância de cumprir o PNV. Devem ser combatidos falsos preconceitos relativamente ao perigo das vacinas, e deve ser salientado o tremendo progresso em termos de vidas salvas que a vacinação constitui.

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Dra. Elisa Proença Fernandes - Pediatra - 20-Ago-2000

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Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009



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