Tuberculose

Artigo de:

Dra Raquel Duarte - Pneumologista - 01-Nov-2001

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Revisto por:

Dr. Filipe Basto - Internista - 29-Jul-2009

O que é e qual a sua importância

A tuberculose é uma doença infecciosa causada por um tipo de micobactéria – o Mycobacterium tuberculosis, vulgarmente designado de “bacilo de Koch” (BK). Esta designação é uma homenagem ao médico que, no fim do século XIX, identificou o agente e o associou à doença. A tuberculose pode ser causada por outros tipos de micobactérias, mas a sua importância no homem é muito reduzida.
 

Esta infecção, que é conhecida desde a Antiguidade, continua a ser muito frequente – em especial na África e na Ásia – afectando cerca de 2 biliões de pessoas em todo o mundo e causando anualmente cerca de 2 milhões de mortes.
 

A importância da doença cresceu muito nas últimas décadas, devido à sua associação com a infecção pelo vírus da sida (VIH) e também pela emergência de estirpes que são resistentes às medicações antibióticas utilizadas.
 

A tuberculose atinge de forma preferencial o pulmão, mas pode afectar múltiplos órgãos e aparelhos, como o coração, o sistema nervoso central, o sistema linfático, o aparelho genito-urinário, o aparelho gastrointestinal, os ossos e até mesmo a pele. Pode também condicionar uma forma especialmente grave de doença disseminada – a tuberculose miliar.
 

A sua transmissão é feita de pessoa a pessoa através de gotículas que são libertadas para o ar por indivíduos que apresentam doença respiratória activa. A tosse, o espirro, a emissão de secreções respiratórias ou mesmo a conversa disseminam um grande número de partículas infecciosas que podem causar doença em indivíduos susceptíveis.
 

Só uma pequena fracção das pessoas que têm contacto com a micobactéria acaba por desenvolver uma infecção activa. Este risco é maior nos dois primeiros anos após o contacto, sobretudo se existem factores de risco específicos.
 

De uma maneira geral, o sistema imune é capaz de combater e debelar a infecção. Nalguns indivíduos, contudo, a bactéria, embora contida, permanece no organismo. Esta forma de tuberculose, denominada “latente”, permite uma reactivação posterior da doença, caso as defesas imunológicas fiquem mais vulneráveis.

 

Sintomas

Os sintomas clássicos da doença são a tosse crónica – que persiste por mais de três semanas – à qual se pode associar a expectoração raiada de sangue ou a dor no peito, a febre, os suores nocturnos, que “encharcam” o pijama, e a perda de peso progressiva e inexplicável, que frequentemente se associa também a perda de apetite e fadiga.
 

Estes sintomas concorrem habitualmente para uma deterioração do estado de saúde geral, que deve fazer pensar no diagnóstico de tuberculose. São também estes os sintomas que caracterizam a forma mais comum de doença activa – a doença pulmonar.
 

As formas de doença extrapulmonar são menos frequentes e não são contagiosas, sendo mais comuns nas crianças e nos indivíduos imunodeprimidos. Os sintomas de tuberculose extrapulmonar podem ser muito variados de acordo com a localização da doença e a sua gravidade.

 

Factores de risco

A tuberculose pode afectar qualquer pessoa, embora haja circunstâncias que favorecem o seu aparecimento, como, por exemplo, os extremos de idade – as crianças muito jovens e os idosos constituem grupos particulares de risco.
 

Há ainda uma outra série de factores muito diversos – que vão desde a susceptibilidade genética à toma de certas medicações, ou à presença de certas doenças e comportamentos – que podem favorecer a infecção ou contribuir para debilitar a imunidade.
 

As imunodeficiências – nomeadamente a sida, a diabetes, a doença renal crónica, as doenças oncológicas, a silicose ou as doenças do tecido conjuntivo – são bons exemplos de patologias que podem comprometer a imunidade, aumentar o risco de tuberculose e influenciar, pela negativa, o sucesso do seu tratamento.
 

A toma prolongada de corticóides, o uso de agentes imunossupressores ou citotóxicos e a terapêutica com agentes biológicos que influenciem a resposta imune podem criar condições favoráveis à reactivação de uma tuberculose latente.
 

A história recente de infecção com BK ou o tratamento inadequado de uma tuberculose prévia, a dependência do álcool ou de drogas de abuso (em especial, por via endovenosa) e a desnutrição podem também constituir-se como factores particulares de risco.
 

Qualquer indivíduo que, por razões pessoais, profissionais ou humanitárias, apresente contactos frequentes, prolongados ou muito próximos com pessoas doentes ou com grupos populacionais em que a prevalência de tuberculose é elevada tem um maior risco de infecção e de doença. Tal pode verificar-se em ambientes tão díspares como o contacto domiciliário ou o que se verifica nas instituições de saúde, nas prisões ou em campos de refugiados.

 

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo da doença requer a identificação e a cultura do BK num meio apropriado. Esta condição é também necessária para testar a sensibilidade do bacilo aos diferentes fármacos antituberculosos e, assim, escolher o tratamento mais adequado. Para este fim podem utilizar-se diversos tecidos e fluidos corporais, de acordo com os órgãos e sistemas atingidos pela doença. A cultura mais frequente é a das secreções respiratórias.
 

As culturas são muito demoradas e pode, por isso, ser necessário suspeitar-se da doença e, até, iniciar-se o tratamento mais rapidamente. Neste contexto, as informações que resultam da história clínica e do exame médico são imprescindíveis. É à luz destes achados e dos factores de risco de cada indivíduo que devem ser utilizados outros meios complementares de diagnóstico muito comuns, como o teste da tuberculina, o raio X do tórax ou a baciloscopia.
 

O teste da tuberculina é um teste cutâneo que pode ser útil para obter informações sobre a exposição prévia de um indivíduo ao BK e sobre o grau de reacção imunológica desenvolvida a esse contacto. Estes dados podem, nalgumas circunstâncias, contribuir para a decisão terapêutica; o seu valor está, infelizmente, limitado noutros casos, nomeadamente quando há vacinação prévia, quando existem doenças associadas ou quando há imunodepressão, estados em que o seu aporte é muito limitado.
 

Quando os sintomas respiratórios são os mais importantes, a informação do raio X pulmonar e a pesquisa directa do BK na expectoração (a baciloscopia) podem ser decisivas para avaliar a probabilidade do diagnóstico.
 

Surgiram recentemente alguns outros testes que, embora não sendo de utilização generalizada, podem oferecer importantes ajudas diagnósticas. Falamos de testes de biologia molecular que identificam a presença do ADN do BK nos diferentes tecidos e do doseamento sérico de interferão gama ¿ uma substância libertada como resposta imune à infecção com o BK e cuja quantificação pode ser relevante para afirmar o diagnóstico.

 

Tratamento

A tuberculose pode curar-se, embora a doença seja extremamente letal se não for adequadamente tratada.
 

Para ser eficaz, o tratamento tem de ser completo e, para isso, deve prolongar-se por vários meses - pelo menos seis - e ser feito com uma combinação de múltiplos antibióticos. É muito importante salientar a necessidade deste tratamento completo, tanto mais que bastam, em regra, duas a três semanas de terapêutica para que um indivíduo com doença respiratória activa – a única que é infecciosa – deixe de apresentar perigo de contágio.
 

Por outro lado, estes medicamentos podem ter efeitos laterais importantes, nomeadamente no fígado, circunstância que obriga a manter uma completa abstinência do álcool. O facto de poderem também surgir interacções com fármacos que estejam a ser utilizados para tratar outras doenças aconselha a uma vigilância médica cuidada e permanente.
 

Só assim se pode evitar que estas circunstâncias favoreçam as taxas de abandono e de interrupções que prejudicam a cura e contribuem para a emergência, crescente, de resistências aos antibióticos utilizados no tratamento da tuberculose. As resistências representam, aliás, um grave problema, na medida em que condicionam tratamentos mais prolongados, com fármacos que podem ser difíceis de encontrar e que são muitas vezes mais caros.
 

A prevenção com a vacina, que é pouco eficaz, é discutível e deve apenas utilizar-se em situações particulares de alta prevalência e de risco significativo. Este é, por exemplo o caso das crianças muito pequenas, grupo em que a gravidade das complicações poderá, de acordo com a prevalência da infecção, justificar o seu uso.

Artigo de:

Dra Raquel Duarte - Pneumologista - 01-Nov-2001

Revisto por:

Dr. Filipe Basto - Internista - 29-Jul-2009



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