Transfusão de plasma

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Abr-2002

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Descrição do componente

O plasma é uma fracção do sangue composta primariamente de água, com cerca de 7% de proteínas e 2% de carbohidratos e lípidos. O chamado plasma congelado fresco é preparado a partir do sangue e congelado no espaço de 8 horas, após a recolha. Pode ser armazenado até um ano, a temperaturas iguais ou inferiores a -18ºC. O volume de uma unidade de plasma congelado fresco é de 200-250 ml. O plasma congelado fresco é usado primariamente como terapêutica de substituição de factores da coagulação em quantidade deficiente no doente. Um milílitro de plasma congelado fresco contém aproximadamente uma unidade (U) de actividade do factor de coagulação.

 

Indicações

O plasma congelado fresco está indicado em doentes com hemorragias activas, com múltiplas deficiências de factores da coagulação secundárias a doença hepática avançada (por exemplo, hepatites crónicas, cirroses ), síndrome de coagulação intravascular disseminada (DIC), em que existe um consumo exagerado dos factores da coagulação plasmáticos, e nas coagulopatias dilucionais resultantes de transfusões maciças de glóbulos vermelhos (RBC) ou fluidos hidroelectrolíticos.

 

Em geral, o tempo de protrombina (PT) ou o tempo parcial de tromboplastina (PTT), que medem a actividade coagulante do sangue, devem estar aumentados de, pelo menos, um factor de 1,5 em relação aos valores normais, antes que o FFP esteja indicado na correcção das deficiências de coagulação do sangue. Pequenas alterações laboratoriais de PT e/ou PTT em doentes que não sofrem de hemorragias activas, não constituem uma indicação para o uso de plasma congelado fresco. O plasma congelado fresco está, também, indicado em doentes com deficiências hereditárias de factores específicos da coagulação, para os quais não existe nenhum concentrado comercial do factor da coagulação em déficit (por exemplo, deficiências de factores V ou XI).

 

No passado, o plasma congelado fresco era também usado em doentes com coagulopatias hereditárias, incluindo as hemofilias A e B, mas, presentemente, a existência de concentrados comerciais obtidos por técnicas de recombinação genética, com um risco mínimo de contaminação vírica, no tratamento das hemofilias, reduziu ou eliminou o uso de plasma congelado fresco nessas situações.

 

O plasma congelado fresco reverte o efeito anticoagulante da warfarina, uma droga anticoagulante oral, que é um antagonista dos factores da coagulação dependentes da vitamina K (factores II, VII, IX, X) e é vulgarmente usada na terapêutica prolongada ou crónica de tromboses e embolias.

 

O plasma congelado fresco está indicado no tratamento de doentes que tomam warfarina e têm hemorragias activas ou requerem cirurgia de emergência, para anular rapidamente o efeito anticoagulante de warfarina. Estes doentes não devem ser tratados com vitamina K parenteral, já que esta demora cerca de 12-24 horas a actuar e a eliminar o efeito do warfarin. O plasma congelado fresco é usado, também, como fluido de substituição em doentes que necessitam de plasmaferese, que é uma técnica mecânica de remoção de certos factores plasmáticos e que é o tratamento de eleição da púrpura trombótica trombocitopénica (TTP) e do síndrome hemolítico-urémico, doenças associadas a anemia hemolítica, disfunção renal e trombocitopenia (baixa de plaquetas).

 

Dose e administração

A dose de plasma congelado fresco depende da situação clínica. A avaliação da função da coagulação do doente, após a transfusão, é importante e requer uma monitorização frequente e seriada dos níveis séricos de PT, PTT ou dos factores da coagulação específicos. O plasma congelado fresco deve ser descongelado a 30-37ºC e administrado tão depressa quanto possível, no espaço de 24 horas, se é usado como substituto de factores da coagulação. De contrário, podem ocorrer perdas dos factores lábeis V e VIII. Depois de descongelado, o plasma congelado fresco pode ser armazenado a 1-6ºC. Os testes de compatibilidade com os antigenes de membrana dos RBC não são necessários, com excepção do grupo sanguíneo ABO, o que minimiza as reacções hemolíticas de génese imune.

 

Contraindicações e precauções

O plasma congelado fresco não deve ser usado como expansor do volume intravascular, em situações associadas com hipotensão e/ou desidratação, visto que existe o risco real, embora pequeno, de transmissão de agentes infecciosos, como o vírus das hepatites B e C. Nestas situações de hipovolemia, devem ser usados solutos que não transmitam infecções (por exemplo, albumina, soluções colóides ou cristalóides - soro salino, etc.). Da mesma forma, plasma congelado fresco não deve ser usado como fonte de proteínas, em doentes com severa desnutrição proteica. Os factores da coagulação nos preparados de plasma congelado fresco estão presentes em concentrações normais de 1 U/ml de plasma. Em doentes com severas coagulopatias e deficiências dos factores de coagulação, são necessárias múltiplas transfusões de plasma congelado fresco, o que acarreta um risco efectivo de sobrecarga cardiocirculatória que pode precipitar uma falência cardíaca ou um edema agudo do pulmão.

 

Estes doentes com coagulopatias graves podem necessitar de receber preparações mais concentradas de factores da coagulação (por exemplo, concentrado do complexo de protrombina, que tem uma concentração elevada dos factores da coagulação II, VII, IX e X ), em alternativa ao plasma congelado fresco. Em termos gerais, o plasma congelado fresco acarreta um risco de transmissão de doenças infecciosas semelhante ao das transfusões de sangue ou de RBC, incluindo hepatites B e C, sífilis e HIV (agente da Sida).

 

No entanto, o plasma congelado fresco não possui células do sangue na sua composição. Como tal, certos vírus intracelulares que são exclusivamente transmitidos através de leucócitos (por exemplo, citomegalovírus - CMV e o vírus humano linfotrópico tipo 1 - HTLV 1) não são transmitidos pelo plasma congelado fresco. O HTLV 1 é um vírus da família do HIV que tem sido associado à patogénese do linfoma/leucemia de células T dos adultos, que é uma doença maligna endémica nas Caraíbas e no Japão.

 

As transfusões de plasma congelado fresco podem causar reacções alérgicas de hipersensibilidade imediata (por exemplo, urticária, anafilaxia ) e um síndrome de distress respiratório associado a infiltrados pulmonares, também conhecido por edema pulmonar não-cardiogénico, mediado por agentes solúveis (citokinas).

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Abr-2002



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