Transfusão de plaquetas

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 26-Fev-2002

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I - Plaquetas obtidas por centrifugação

Descrição do componente

As plaquetas são células do sangue que exercem funções importantes na coagulação do sangue. Quando há um déficit acentuado de plaquetas, ou quando as plaquetas são disfuncionais, o risco de hemorragias aumenta bastante e as transfusões de plaquetas são parte importante do tratamento. Os concentrados de plaquetas tradicionais são preparados a partir de unidades individuais de sangue, através de um processo de centrifugação. As plaquetas armazenadas no Banco de Sangue mantêm-se viáveis por um período de 5 dias.

 

Indicações

As transfusões de plaquetas estão indicadas nas seguintes situações: Controlo de hemorragias secundárias a uma baixa de plaquetas (trombocitopenia) com uma contagem inferior a 50.000. Hemorragias secundárias a plaquetas normais em número mas qualitativamente anormais e disfuncionais. Transfusão profiláctica de doentes sem hemorragias activas, mas com contagem de plaquetas inferiores a 15.000 - 20.000, associadas a hipoplasia da medula óssea secundária a quimioterapia, invasão por tumores malignos ou aplasia medular primária (por exemplo, anemia aplástica). Em certos casos, doentes com contagens entre 5.000 - 15.000 as plaquetas podem não necessitar de transfusões, desde que não haja evidência de hemorragias. A transfusão profiláctica de plaquetas não é benéfica nas transfusões maciças de glóbulos vermelhos (RBCs) ou durante cirurgias cardíacas.

 

Contraindicações e precauções

Em geral, as transfusões de plaquetas não são eficazes na prevenção de hemorragias em doentes com situações associadas a uma rápida destruição periférica (no sangue ou no baço) de plaquetas. Por exemplo: púrpura trombocitopénica idiopática - ITP púrpura trombótica trombocitopénica - TTP síndrome de coagulação intravascular disseminada - DIC Nestas situações, só devem receber plaquetas os doentes com hemorragias activas. Reacções adversas às transfusões de plaquetas incluem: arrepios e rigores, febre e reacções alérgicas. A febre transfusional deve ser tratada ou prevenida com antipiréticos como o paracetamol. A aspirina está contraindicada, já que inibe a função plaquetária. Transfusões repetidas predispõem à aloimunização. A aloimunização é um fenómeno imunológico de sensibilização a antigenes presentes nas células do sangue, incluindo as plaquetas e os leucócitos e a antigenes tecidulares de histocompatibilidade chamados antigenes HLA.

 

A aloimunização resulta no desenvolvimento de um estado "refractário" à transfusão de plaquetas, o que conduz a uma rápida destruição das plaquetas transfundidas, por mecanismos imunológicos mediados por anticorpos do recipiente que atacam as plaquetas do dador. Uma infusão rápida de plaquetas pode causar uma sobrecarga circulatória e precipitar uma insuficiência cardíaca ou um edema agudo do pulmão, em indivíduos com uma reserva cardíaca diminuída.

 

O risco de transmissão de doenças infecciosas é semelhante ao risco das transfusões de glóbulos vermelhos e inclui transmissão de hepatites B e C, sífilis, citomegalovírus e o vírus da sida - HIV, entre outros. A contaminação bacteriana é particularmente perigosa, já que as plaquetas são armazenadas à temperatura ambiente. Dose e administração A dose usual é de 6-10 Unidades (U) de plaquetas. As crianças devem receber 1U/10 Kg de peso corporal. 1U de plaquetas aumenta a contagem de plaquetas, num adulto de 70 Kg, em cerca de 5.000

 

O estado "refractário" é definido como a falência em obter hemostase (controlo da hemorragia) ou o esperado aumento na contagem de plaquetas, após a transfusão. As causas principais do estado "refractário" incluem a aloimunização, esplenomegalia (baço dilatado) com sequestro das plaquetas no baço, DIC, sepsis (infecções generalizadas), transplantes de medula óssea, e transfusões maciças de glóbulos vermelhos. A irradiação de plaquetas está indicada na prevenção de "graft-versus host disease" (GVHD) em doentes imunosuprimidos ou em certos síndromes de imunodeficiência. GVHD é um síndrome imunológico em que células do sistema imune (por exemplo, linfócitos) presentes nos concentrados de plaquetas atacam as células do recipiente da transfusão, afectando as funções da pele, tubo gastrointestinal e fígado.

 

II - Plaquetas obtidas por citaferese

 

Descrição

A citaferese é um método mecânico de extracção de células do sangue. No caso das plaquetas, uma citaferese durante 2-3 horas permite obter um número de plaquetas equivalente a 6-8 unidades de plaquetas obtidas por centrifugação.

 

Indicações

Estas plaquetas podem ser compatibilizadas com os antigenes HLA do recipiente da transfusão e estão indicadas em doentes que desenvolveram aloimunização aos antigenes HLA e se tornaram refractários. Têm, também, sido usadas em doentes não-refractários que requerem transfusões de plaquetas a longo prazo, numa tentativa de redução do risco de aloimunização. Não devem ser usadas em doentes refractários devido a outras causas.

 

Contraindicações e precauções

São semelhantes às da transfusão de plaquetas obtidas por centrifugação. Dose e administração 1U de plaquetas obtidas por citaferese aumenta a contagem de plaquetas de 30.000 - 60.000, num adulto de 70 Kg de peso.

 

III - Plaquetas com redução de leucócitos

Descrição

Preparados de plaquetas contêm pequenas quantidades de leucócitos (glóbulos brancos) que predispõem à aloimunização HLA e consequente estado "refractário" e são fonte de reacções febris. Há dois métodos de redução do número de leucócitos nos preparados de plaquetas - filtração e centrifugação. Os filtros modernos, de 3ª geração, removem cerca de 99% dos leucócitos. As técnicas modernas de citaferese são também usadas na redução do número de leucócitos.

 

Indicações

Plaquetas com redução de leucócitos estão indicadas como prevenção contra a aloimunização HLA, em doentes seleccionados destinados a receber transfusões durante períodos prolongados. A decisão de usar plaquetas pobres em leucócitos deve ser tomada antes da primeira transfusão e obriga também ao uso de transfusões de glóbulos vermelhos, pobres em leucócitos.

 

Contraindicações e precauções

São iguais às da transfusão de plaquetas clássicas. Dose e administração A dose é semelhante à do componente do qual plaquetas pobres em leucócitos foram preparadas.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 26-Fev-2002



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