Transfusão de granulócitos

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 01-Abr-2001

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Descrição do componente

Os granulócitos (neutrófilos) constituem uma fracção importante dos glóbulos brancos (leucócitos) e exercem um papel fundamental na primeira linha de defesa imunitária, especialmente no combate às bactérias e fungos. Recentemente, desenvolveram-se técnicas que permitem obter concentrados de granulócitos, os quais se revelaram úteis em certas circunstâncias clínicas. Os granulócitos são geralmente obtidos do sangue de um único dador por citaferese, que é um método basicamente mecânico que requer o uso de um aparelho de alta tecnologia e a cateterização de veias de grande ou médio calibre. Cada unidade de granulócitos contém acima de 10.000 milhões de granulócitos e quantidades variáveis de outras células do sangue, incluindo linfócitos, plaquetas e glóbulos vermelhos (RBC). A presença de RBC obriga a que as transfusões de granulócitos sejam compatíveis com os antigenes do grupo sanguíneo ABO e outros grupos, presentes na membrana dos eritrócitos por forma a evitar reacções hemolíticas de natureza imune.

 

O volume de cada unidade varia entre 200-400 ml. Os concentrados de granulócitos devem ser armazenados a uma temperatura de 20-24 ºC e administrados no espaço de 24 horas, após a sua colheita. Indicações As transfusões de granulócitos são usadas em situações específicas associadas a marcada neutropenia (redução do número de neutrófilos no sangue periférico), febre e infecções, em que o doente está em alto risco de desenvolver infecções sistémicas graves, acompanhadas de significativa mortalidade. Não é um tratamento de primeira escolha, já que os antibióticos de largo espectro e os factores estimulantes do crescimento das colónias de granulócitos na medula óssea (por exemplo, G-CSF ou GM-CSF) são eficazes na prevenção ou tratamento de complicações infecciosas associadas com septicemia e neutropenia.

 

As transfusões de granulócitos estão indicadas no seguinte quadro clínico: Neutropenia, com contagens de neutrófilos inferiores a 500. Febre durante 24-48 horas que não responde a uma terapêutica antibiótica ou antifúngica apropriada. Infecções documentadas que não respondem aos antibióticos, nomeadamente as septicemias por bactérias gram-negativas ou fungos (e.g., candida, aspergillus). A biópsia da medula óssea mostra hipoplasia mielóide (deficiente produção de células da linha mielóide, de que derivam os granulócitos). Doentes em que se espera um prolongado período de neutropenia, mas com uma chance razoável de recuperação da função da medula óssea. Todas estas alíneas devem estar presentes, antes de se tomar a decisão de administrar granulócitos.

 

Na prática, os granulócitos são administrados em casos de leucemias agudas mielógenas e no quadro de transplantes da medula óssea ou células "stem" do sangue periférico. Menos frequentemente, são usados na terapêutica de recém-nascidos com infecções generalizadas (sepsis neonatal), em que os granulócitos são obtidos através de um processo de concentração das células nucleadas do sangue que se denomina "buffy coat" e em doentes com raros síndromas hereditários associados a severa disfunção dos granulócitos (por exemplo, doença crónica granulomatosa).

 

Dose e administração

Os concentrados de granulócitos devem ser administrados lentamente por via endovenosa, diariamente, durante, pelo menos, 4 dias. Os preparados devem ser ABO - compatíveis com os RBC do doente, devido ao largo número de RBC presentes nos concentrados de granulócitos. Devido ao perigo de reacções alérgicas ou febris, pré-medicação com agentes antipiréticos e antialérgicos é conveniente (por exemplo, antihistamínicos, paracetamol, corticosteróides, meperidina).

 

Contra-indicações e precauções

O uso profiláctico de transfusões de granulócitos é de um valor terapêutico questionável. Reacções adversas como arrepios, febre e reacções alérgicas são frequentes durante a transfusão. Ocasionalmente, desenvolvem-se severas reacções febris acompanhadas de infiltrados pulmonares difusos secundários à acumulação dos granulócitos transfundidos no pulmão, com consequente libertação de citokinas e outros factores solúveis que afectam a microcirculação pulmonar e originam um síndroma de distress respiratório.

 

Este síndroma pode ser potenciado pelo uso concomitante de amfotericina B, que é um potente agente antifúngico. A presença deste síndroma é uma contraindicação ao uso futuro de granulócitos. Há um risco de transmissão de doenças infecciosas, nomeadamente hepatites B e C, vírus HIV (agente da SIDA) e citomegalovírus (CMV). A sensibilização aos antigenes HLA também ocorre. Em doentes imunodeficientes ou imunosuprimidos, o síndroma de GVHD (graft-versus-host disease) pode ocorrer. GVHD é caracterizado por um fenómeno de rejeição das células do hospedeiro pelos glóbulos brancos, especialmente linfócitos e monócitos, presentes nos concentrados de granulócitos. Afecta principalmente a pele (dermatoses), o tubo gastrointestinal (diarreia e má-absorção) e o fígado (icterícia). É um síndroma potencialmente mortal. GVHD previne-se com a irradiação do concentrado de granulócitos. As doses de radiação usadas não comprometem a função dos granulócitos.

 

Resultados da transfusão de granulócitos

A contagem, no sangue periférico, dos glóbulos brancos não aumenta após a transfusão de granulócitos e não pode, pois, ser usada como critério da eficácia do tratamento. Esse critério depende de parâmetros clínicos, incluindo o desaparecimento da febre e o controlo da infecção. Em doentes que respondem, as transfusões devem continuar diariamente, até que a infecção esteja resolvida ou a produção endógena, pela medula óssea, de glóbulos brancos esteja restaurada, o que significa a recuperação da função da medula óssea. A transfusão de granulócitos é uma terapêutica que exige alta tecnologia e é bastante cara. Não deve ser um tratamento de rotina. As indicações específicas devem ser respeitadas. Não é um tratamento milagroso. Esses apenas existem nos programas televisivos, não no mundo científico.

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 01-Abr-2001



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