Sinais cutâneos: sinais de alarme

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001

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São acumulações locais de células da pele chamadas melanócitos, que possuem no seu interior uns grânulos (melanossomas) constituídos por uma molécula (melanina) que é a responsável pela pigmentação da pele. Os nevos podem ser adquiridos ou congénitos. Para além de um problema estético, os nevos são clinicamente importantes já que podem sofrer um processo de degenerescência maligna e transformarem-se em tumores malignos da pele (melanomas), invasivos, com potencial metastático e associados, pois, a significativa morbilidade e mortalidade. Daí, a importância de conhecer os sinais precoces e subtis da transformação maligna. Existe um intervalo de tempo, medido em meses ou anos, em que estes melanomas não são invasivos e podem ser curados com uma simples remoção cirúrgica com uma boa margem de segurança. Numa segunda fase, tornam-se invasivos, com potencial metastático local e a distância, e a percentagem de cura desce drasticamente, já que são tumores radioresistentes e relativamente quimioresistentes. Terapêuticas biológicas mais recentes usando produtos como os interferons, a interleukina-2, vacinas ou TIL´s (tumor infiltrating lymphocytes) têm produzido alguns resultados interessantes, mas não suficientes. Cerca de 70% dos melanomas crescem em zonas da pele onde antes existia um nevo, adquirido ou congénito.

 

Os nevos congénitos podem estar associados a um risco superior e os nevos congénitos gigantes têm uma alta incidência de transformação maligna. Pessoas de raça caucasiana (branca) têm, em regra, 20-40 nevos pela 3ª década de vida. Os nevos continuam a formar-se durante a vida adulta. Contudo, em termos meramente estatísticos, só cerca de um nevo em cada 500.000 se torna maligno. Mais recentemente, descreveu-se um síndroma hereditário chamado "o síndroma dos nevos displásticos".

 

A transmissão hereditária parece ser autossómica dominante, com expressão e penetração incompletas. Estes nevos displásticos estão presentes na pele de 2-8% da população branca e são precursores do melanoma. Estudos demonstram que o risco de melanoma durante uma vida (lifetime risk), na população branca, é de 1%, mas aumenta drasticamente para 7-50% em pessoas com nevos displásticos. Clinicamente, os nevos displásticos têm bordos irregulares, não se demarcam nitidamente da pele adjacente, têm cores variadas incluindo misturas de diversos tons de castanho e são, em regra, de dimensões entre 6-15 mm. Por outro lado, os nevos comuns, não-displásticos, são redondos ou ovais, com um bordo liso, bem demarcado da pele subjacente, em regra uniformemente pigmentados e de tamanho mais reduzido (4-6 mm).

 

A detecção precoce através de um método de "screening" é, pois, fundamental. Neste caso particular, o método consiste na observação periódica da pele e na identificação dos importantes sinais clínicos de transformação maligna dos nevos. Em doentes com muitos pequenos nevos displásticos, alguns destes nevos devem ser removidos e observados ao microscópio. Recomenda-se, também, tirar fotografias de todo o corpo. Lesões que mudem de aspecto ou tamanho devem ser prontamente removidas. O auto-exame da pele (observação pelo próprio doente) deve ser realizado mensalmente.

 

Esta vigilância deve manter-se durante toda a vida. De extrema importância é o conhecimento das alterações em um nevo suspeitas de transformação maligna: 1. Aumento súbito do tamanho de um nevo. 2. Qualquer alteração da côr, especialmente tonalidades de castanho, preto, vermelho, branco ou azul. De especial importância é a presença de coloração azulada do nevo. 3. Presença de ulceração ou hemorragia. 4. Eritema ou edema (inchaço) da pele que rodeia o nevo. 5. Desenvolvimento de dôr, desconforto ou prurido. 6. Lesões com bordos irregulares (e.g., indentações angulares ou chanfraduras). A presença de folículos pilosos numa lesão não permite diferenciar uma lesão benigna de um melanoma. A presença destes sinais obriga a um alto índex de suspeição de melanoma e à consequente biopsia excisional e exame histológico do fragmento de biopsia, de forma a excluir ou confirmar a presença de um melanoma e a sua profundidade, que é determinante no "staging" do tumor e consequente prognóstico.

 

No que diz respeito aos melanomas, permanece válido um princípio fundamental da Oncologia, que afirma que a prevenção ou a identificação precoce de um tumor maligno (através de um processo de "screening") são factores críticos que se repercutem directamente, de forma positiva, na mortalidade específica da doença. No caso específico dos melanomas, a prevenção implica evitar os factores de risco, especialmente a exposição excessiva à luz solar, radiação ultravioleta e radiações ionizantes, e o método de "screening" consiste, simplesmente, na observação periódica da pele e dos nevos, e identificação dos sinais de mudança e transformação maligna acima indicados. Simples. Como afirmava um Internista Americano: «Medicine itself is easy. Everything else related to Medicine is difficult».Ou seja, «A Medicina em si mesma é fácil. Tudo o resto relacionado com a Medicina é difícil».

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001



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