Rouquidão persistente

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001

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A rouquidão é um sintoma comum em Medicina. Na grande maioria dos casos é um problema transitório, associado a infecções da laringe. A causa mais frequente de rouquidão aguda, com duração de alguns dias ou poucas semanas, é a laringite aguda, ou seja, a inflamação aguda da mucosa laríngea produzida por infecções bacterianas ou víricas. Pode ser um sintoma isolado ou ser acompanhado de outros síndromas respiratórios, tais como rinite, faringite ou traquebronquite. Outra causa benigna de rouquidão é a inflamação crónica da mucosa laríngea (laringite crónica).Causas frequentes incluem laringites agudas recorrentes, abuso das cordas vocais, inalação crónica de irritantes (incluindo o tabaco), sinusite crónica, alergias, estados hipometabólicos (e.g., hipotiroidismo) e, raramente, sífilis e tuberculose laríngea. O exame laringoscópico confirma o diagnóstico, ao mostrar sinais de inflamação crónica e, às vezes, alterações polipóides e ulcerações.

 

Os tumores malignos da laringe são, especialmente em pessoas acima dos 50 anos de idade, uma causa relativamente frequente de rouquidão crónica e devem ser, sempre, excluídos com o exame laringoscópico e biopsia de zonas suspeitas. A rouquidão é a manifestação principal e mais precoce do cancro das cordas vocais, mas é um sinal relativamente tardio de cancro nas outras localizações anatómicas da laringe. O facto de ser um sintoma de cancro das cordas vocais em fase inicial permite, na grande maioria dos casos, uma percentagem de cura com cirurgia ou radioterapia de cerca de 80-90% , se o tumor estiver confinado às cordas vocais. É, pois, evidente a importância da avaliação de uma rouquidão persistente, com 4-6 semanas de evolução. Essa avaliação é extremamente simples e consiste em uma laringoscopia e biopsia de áreas anormais da mucosa.

 

A grande maioria dos tumores malignos das cordas vocais são carcinomas epidermóides, com variados graus de queratinização. Após o diagnóstico histológico do fragmento de biopsia, é necessário realizar uma tomografia computorizada com contraste de toda a zona da laringe, acima e abaixo das cordas vocais, para avaliar a extensão do tumor (staging). Se, como acontece com frequência, o tumor estiver localizado apenas nas cordas vocais e não houver evidência de invasão de gânglios linfáticos regionais, o tumor é definido como um T1-2 N0 M0 e a percentagem de cura oscila entre os 80-90%, na grande maioria das séries.

 

O atraso de alguns meses na investigação de uma rouquidão persistente pode transformar um tumor localizado num tumor localmente invasivo, com redução da percentagem de casos curáveis. Se o tumor estiver localizado apenas nas cordas vocais, o tratamento é simples e eficaz. Opções incluem cirurgia, com remoção completa do tumor com uma boa margem de segurança, ou radioterapia durante um período médio de 6 semanas. Os resultados obtidos com estas duas modalidades de tratamento são semelhantes, na maioria dos estudos.

 

Actualmente, existe uma tendência para preferir a radioterapia em estádios T1-2 N0 M0, já que a cirurgia está associada com rouquidão crónica significativa. A rouquidão é, pois, neste contexto, um sintoma que, embora desagradável para o doente, é bem-vindo, já que a sua presença obriga a uma investigação clínica e à possível detecção precoce dum tumor maligno, com um potencial de cura bastante elevado.

 

Temos então, mais uma regra de ouro no exercício da Oncologia: Avaliação pormenorizada de rouquidão que persiste por um tempo superior a 4-6 semanas, em virtualmente todos os doentes. Especialmente em pessoas idosas, a aplicação deste simples princípio permitirá a detecção precoce de cancros das cordas vocais e, portanto, salvar vidas, sem necessidade de medidas heróicas ou uso de alta e sofisticada tecnologia. Basta simplesmente um laringoscópio e uma agulha de biopsia. Há quem considere que a Medicina, para além de Ciência, é também uma Arte. Se assim é, aplica-se também à Medicina aquilo que Eça de Queiroz escreveu nas suas "Notas Contemporâneas" : «Em Arte, a copiosa, exuberante, luxuosa e florida fantasia cansa, esquece e passa - e só há eternidade para a beleza pura e simples».

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001



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