Reconstrução mamária pós-mastectomia

Artigo de:

Dr. Mário Jorge Freire dos Santos - Cirurgião Plástico - 22-Jun-2000

  |  Partilhar:

Vou ser submetida a uma mastectomia, por me ter sido diagnosticado um tumor da mama. Como será a cicatriz dessa operação?A cicatriz depende da operação a realizar de acordo com a gravidade da situação e da localização do tumor.

 

As operações mais frequentes são:

1. Mastectomia subcutânea - que consiste na ressecção apenas da glândula mamária, sendo preservada toda a pele e mamilo - podendo a cicatriz final reduzir-se a cerca de 3 ou 4 cm quase imperceptíveis, à volta da areola;

2. Mastectomia radical modificada - em que é retirada toda a mama, areola e mamilo - resultando uma grande cicatriz no tórax, da proximidade da linha média até à axila;

3. Cirurgia conservadora - em que apenas é retirado o tumor com margem de segurança, e um segmento de pele, areola e mamilo - sendo a cicatriz final radiária a partir da areola e no quadrante correspondente ao tumor;

4. Mastectomia conservadora de pele - em que a glândula mamária é retirada em bloco com a areola e mamilo - resultando numa pequena cicatriz na zona areolar deixando a pele intacta.

 

Quem pode esclarecer-me quanto a reconstrução mamária?

A intervenção deve ser discutida com o seu oncologista e com o seu cirurgião plástico, que deverão definir conjuntamente, a melhor estratégia para o seu caso. É o cirurgião plástico que fará a reconstrução, uma operação que não é simples, que tem como objectivo a simulação de uma mama e, por vezes, a simetrização da mama oposta. O cirurgião plástico tem o treino e a experiência de microcirurgia, muitas vezes fundamental, para cumprir estes objectivos. Este pode sempre mostrar-lhe fotografias, com os resultados de casos por ele operados, utilizando as diversas técnicas, ajudando-a, assim, a decidir. Tenha em conta que a reconstrução pode melhorar a sua aparência e auto-confiança mas que o resultado final não é a perfeição.

 

Quando posso ser submetida a uma reconstrução mamária?

Algumas doentes preferem a reconstrução imediata após a mastectomia, dado não ser alterada a data de início de quimioterapia ou radioterapia e isto lhes diminuir a anxiedade, a depressão, e melhorar o comportamento sexual. A reconstrução diferida utiliza-se em doentes com dificuldade de decisão devido a anxiedade, falta de informação, obesidade, diabetes, hipertensão arterial. A sua maior vantagem é dar às doentes tempo suficiente para refletirem sobre as suas opções. Podem obter-se excelentes resultados tanto em reconstrução imediata como em reconstrução diferida. Muitas doentes, contudo, preferem não ser submetidas a uma nova intervenção e compensam psicologicamente o estigma da amputação, utilizando apenas uma prótese externa.

 

Que opções técnicas existem para reconstrução mamária?

Existem, basicamente, técnicas dependentes de implantes, técnicas que utilizam tecidos do próprio corpo (retalhos), e técnicas mistas. Nos casos de mastectomia subcutânea, mastectomia conservadora de pele, e em algumas doentes submetidas a mastectomia radical modificada, pode proceder-se a recontrução imediata com a colocação de uma prótese retromuscular. Se existe escassez de pele - normalmente em casos de mastectomia radical modificada-, introduz-se um balão expansor, que é cheio lentamente com soro fisiológico, através de injecções semanais, até atingir um volume ligeiramente superior à mama restante; seis meses mais tarde, numa segunda operação, substitui-se o expansor por uma prótese definitiva. Existem expansores permanentes, que não necessitam ser substituidos por prótese definitiva e que são utilizados como alternativa.

 

Frequentemente, é possível a utilização de tecidos do próprio corpo para reconstruir a mama - as áreas dadoras mais prováveis são as costas, o abdómen, as nádegas, e as coxas. Esta técnica esta associada a um tempo de operação mais longo, maior duração do internamento, e a uma cicatriz na área dadora. O grande dorsal é um músculo das costas que pode ser utilizado, com pele e gordura para este fim, frequentemente associado um pequeno implante. A pele e gordura do abdómen podem ser utilizadas para uma reconstrução da mama, com base num dos músculos do abdómen - o recto anterior do abdómen. Se o músculo permanecer ligado à sua origem o retalho diz-se pediculado. Pode, contudo, utilizar-se uma pequena porção de músculo, gordura e pele, e a artéria e veia responsáveis por esse território, que são ligadas, utilizando microcirurgia, a uma artéria e veia da axila- chama-se a isto um retalho livre. Esta técnica é delicada e longa mas é a que preserva mais o abdómen, sendo menos agressiva. Utilizando também microcirurgia é possível reconstruir a mama com tecidos das coxas e também das nádegas. As cicatrizes das áreas dadoras do retalho abdominal e das nádegas podem ficam dissimuladas debaixo do bikini.

 

Que tipo de implantes existem?

Todos os implantes actualmente existentes são uma cápsula de silicone que pode ser cheia com silicone líquido, soro fisiológico ou com ambos. O silicone tem cerca de 40 anos de estudos e utilização com fins médicos - sondas vesicais de loga duração, shunts ventriculo-peritoneais em crianças com hidrocefalia, próteses valvulares cardíacas, próteses articulares, marcadores ingeríveis em radiodiagnóstico, como lubrificante para mencionar apenas algumas utilizações. Nos últimos anos apareceram outros produtos de enchimento alternativos, usados em muito pequena escala, alguns já abandonados. Algumas preocupações acerca de insuficiente informação sobre silicone, motivaram restrições ao seu uso, ainda presentes nos EUA e em França. Nos EUA as próteses cheias de soro fisiológico são usadas sem restrições, mas próteses cheias com silicone são apenas utilizadas em doentes que integram estudos científicos, nomeadamente doentes que já tenham expansores, doentes candidatas a reconstrução imediata após mastectomia, doentes que já tenham próteses deste tipo e necessitem da sua substituição. Todas as doentes com indicação médica apropriada poderão também ter acesso a estas próteses.

 

Quando e como é reconstruido o mamilo e areola?Normalmente o mamilo e areola são reconstruídos pelo menos três meses após a reconstrução do volume e forma da mama. Várias técnicas estão disponíveis mas a tatuagem da areola é um método simples, que não necessita anestesia, pode ser feito na consulta e não acrescenta cicatrizes. O mamilo pode ser feito com anestesia local, durante a consulta e utilizando os tecidos locais.Quais as complicaçõaes da reconstrução mamária? As complicações dependem da técnica utilizada e dos factores de risco, nomeadamente obesidade, tabagismo, diabetes, tipo de tumor, doenças cardio-vasculares, pulmonares ou psiquiátricas, toxicodependência, incapacidade de compreensão dos procedimentos cirúrgicos, cicatrizes sobre as áreas dadoras dos retalhos, radioterapia. O uso de implantes está associado a possível infecção, que requer extracção da prótese para tratamento e reconstrução posterior, contractura da capsula que rodeia o implante, ruptura do implante, requerendo reoperação. Os retalhos podem estar associados a infecção, perda de parte ou da totalidade do retalho por problemas de aporte sanguíneo, abaulamento ou hérnias abdominais.

 

Qual é a duração da ou das operações?

Quando falamos de reconstrução mamária falamos de um procedimento complexo necessitando de um mínimo de duas intervenções. A inclusão de uma prótese, expansor temporário, ou expansor permanente demora cerca de 30 minutos. A reconstrução com tecidos próprios varia entre cerca de 1h 30m para um retalho de grande dorsal, cerca de 3h 30m para um retalho pediculado abdominal, até cerca de 6h para um retalho abdominal microcirúrgico. Um segundo tempo operatório para substituição de um expansor por uma prótese definitiva demora cerca de 30 minutos, um refinamento num retalho cerca de 1h, e uma intervenção para redução da outra mama 1h 30m. A tatuagem da areola demora cerca de 30 minutos e a reconstrução do mamilo mais 30 minutos.

Artigo de:

Dr. Mário Jorge Freire dos Santos - Cirurgião Plástico - 22-Jun-2000



Partilhar: