Recém-nascido: alguns problemas da alimentação do recém-nascido saudável

Artigo de:

Dra. Elisa Proença Fernandes - Pediatra - 01-Mai-2001

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O aleitamento materno é por diversos motivos o melhor alimento para o recém-nascido, assunto que será abordado de forma específica posteriormente, mas por razões várias, muitas vezes é complementado ou substituído por leite artificial. Nesta faixa etária existem alguns problemas relacionados com a alimentação, embora uns bébés sejam mais afectados do que outros, no entanto a maioria destes problemas é transitória e não interfere com o crescimento ou com o desenvolvimento da criança.

 

Uma queixa frequente são as cólicas, cuja causa exacta não é ainda conhecida, mas pensa-se poderem estar relacionadas com os gases; nem todos os bébés as têm, mas é habitual as mães queixarem-se que os seus filhos, geralmente ao fim da tarde ou ao anoitecer, ficam muito irritados, com um choro difícil de consolar acompanhado de movimentos de flexão e extensão das pernas e a quererem mamar em tudo o que lhes aparece à frente, como se estivessem cheios de fome. Muitas vezes são sôfregos a mamar, arrotam mal e ficam com o abdómen distendido, situação que normalmente se agrava com os leites artificiais. As cólicas geralmente começam entre a primeira e a segunda semana de vida e podem durar até ao 4º mês. Assim, é importante ter algumas noções sobre o que fazer para atenuar estes episódios.

 

Em primeiro lugar, como referido atrás, o leite ideal é o materno e é importante que o bébé não engula muito ar ao mamar e arrote convenientemente. No caso de estar a ser alimentado por biberão ter o cuidado de verificar se o orifício da tetina está adequado, uma vez que se for muito pequeno exige um maior esforço com maior entrada de ar e se pelo contrário for muito grande entra ar de forma passiva com o leite. Lembrar também que o biberão deve ser inclinado de forma a que a base da tetina fique coberta de leite. O tempo de espera pela mamada, altura em que o bébé costuma chorar muito não deve ser prolongado, pois contribui para que fique agitado, mame com sofreguidão e assim engula mais ar. A meio e no fim da mamada é importante arrotarem, embora alguns prefiram beber o leite todo sem interrupção e só o façam no fim. Para facilitar a expulsão do ar, a criança deve ser colocada direita contra o ombro da mãe ou pode ser sentada tendo o queixo apoiado ou ainda deitada de barriga para baixo no colo da mãe.

 

Também é importante que o intestino funcione regularmente, sendo por vezes necessário ajudar o bébé a eliminar os gases com massagens e "ginástica" dos membros inferiores contra o abdómen e a ter dejecções com estimulações suaves.

 

 

Durante o episódio de cólica passeá-lo ao colo com movimentos ritmados e de barriga para baixo, fazendo uma massagem ou ligeira pressão no abdómen, costuma ajudar. Existem ainda algumas preparações farmacológicas que o médico que segue o bébé poderá aconselhar.

 

Outra queixa frequente das mães, relacionada com a alimentação dos recém-nascidos e pequenos lactentes é a regurgitação (bolsar). Quase todos os bébés deitam fora uma pequena quantidade de leite na altura de arrotarem ou quando já estão deitados e muitas vezes isso só deixa de acontecer com o crescimento, quando são introduzidos alimentos sólidos (a partir dos 4 meses) e quando começarem a estar mais tempo com o tronco elevado. Estes episódios são regurgitações fisiológicas, portanto normais, relacionadas com alguma imaturidade do músculo que separa o esófago do estômago (esfíncter esofágico inferior) e que podem ser agravadas por refeições abundantes. Se o bébé está bem e aumenta bem de peso não há razões para preocupações.

 

No entanto, em alguns casos as regurgitações são muito frequentes ou muito abundantes não permitindo um crescimento adequado ou favorecem episódios de pieira por aspiração do leite para os pulmões. Nestas situações as regurgitações são a tradução de uma incompetência do referido esfíncter, o chamado refluxo gastroesofágico, que merece ser tratado. Para além de dever ser utilizado um leite mais espesso (existem vários no mercado para esse fim, os chamados leites AR ou anti-refluxo), é importante que o bébé durma com a cabeceira do leito mais elevada e muitas vezes é necessário associar medicação. Claro que cada caso é um caso e estas situações devem, como é óbvio, ser orientadas pelo pediatra que segue a criança.

 

 

Importante é também distinguir as regurgitações dos vômitos, sendo que geralmente nas primeiras o leite vem à boca enquanto no caso dos vômitos, o leite é eliminado de uma forma activa, muitas vezes em jacto. Neste caso, o médico deve observar o bébé e excluir que se trate de uma doença que justifique intervenção imediata, como é por exemplo o caso das infecções. Um diagnóstico diferencial a fazer com o refluxo gastroesofágico é a chamada estenose hipertrófica do piloro, ou seja um aperto ao nível da saída do estômago que faz com que o recém-nascido, geralmente à volta da 3ª semana de vida comece a vomitar tudo o que come, fique esfomeado e emagreça. Esta situação, que é mais frequente nos meninos, corrige-se com cirurgia.

 

O padrão do trânsito intestinal dos bébés é muito variável. Aqueles que são alimentados ao seio podem ter dejecções sempre que mamam ou apenas de 4 em 4 dias, sendo normal qualquer das situações. Quando alimentados com leite artificial, o número também difere, embora não seja habitual serem tão frequentes como com o leite materno.

 

A obstipação é um problema com que as mães se deparam com frequência e que pode causar incómodo ao bébé, provocando ou agravando as cólicas. Nestes casos deve haver o cuidado em estimular suavemente o bébé para ter dejecções ou eventualmente utilizar um microclister; contudo estas orientações devem ser conversadas com o médico que assiste a criança, até porque na maioria das vezes não há qualquer doença por trás de uma obstipação, mas esta é uma das formas de apresentação de problemas intestinais como por exemplo a doença de Hirschprung.

 

O aspecto das fezes também varia, podendo ser desde semi-líquidas com o aspecto de gemada como acontece no caso do leite materno (conhecida como diarreia dos amamentados), até fezes moldadas, amareladas ou esverdeadas, mais frequentes com o aleitamento artificial. Quando o padrão muda e o bébé subitamente passa a ter diarreia (aumento do número e diminuição da consistência das fezes), especialmente se acompanhada de outros sintomas como vómitos ou febre, o bébé deve se observado pelo médico.

 

Por vezes, nos primeiros dias de vida é visível sangue misturado com as fezes, que pode resultar de restos deglutidos no parto ou de sangue proveniente de gretas mamárias da mãe. Apesar de poderem ser estas as causas, se tal ocorrer, devem ser excluídas outras situações, como por exemplo a alergia às proteínas do leite de vaca, que será um assunto brevemente abordado e que pode manifestar-se precocemente, com alterações do trânsito intestinal como a diarreia ou pequenas hemorragias intestinais.

Artigo de:

Dra. Elisa Proença Fernandes - Pediatra - 01-Mai-2001



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