Protecção solar - sombras de polémica

Artigo de:

Dr. Miguel Taveira - Dermatologista - 21-Jul-2001

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A protecção solar constitui um assunto recorrente durante a época balnear, uma vez que a população se encontra nesta altura mais sensibilizada para o problema, seja pelas campanhas de rastreio do cancro cutâneo periodicamente levadas a cabo por alguns serviços de dermatologia dos hospitais e institutos de oncologia, seja através de informação obtida nos meios de comunicação social ou através de pesquisa em “sites” dedicados à temática da saúde na internet, ou mesmo em campanhas realizadas em estâncias balneares levadas a efeito pela indústria farmacêutica.

 

 

As taxas de incidência e de mortalidade atribuíveis ao melanoma, o tumor cutâneo com maior mortalidade, têm aumentado de forma sistemática nas últimas décadas, devido sobretudo ao aumento da exposição à radiação ultravioleta. Existem fundamentalmente 2 tipos de radiação ultravioleta potencialmente nocivos para a pele: - Radiação ulltra-violeta A (UVA) cujo comprimento de onda se situa nos 320-400nm - Radiação ultra-violeta B (UVB) com comprimentos de onda entre os 290-320nm A radiação UVB promove a biossíntese de vitamina D, sendo responsável, quando há exposição excessiva, pelo eritema (rubor), queimadura solar e, a longo prazo pelo fotoenvelhecimento cutâneo (conjuntamente com os UVA).

 

Segundo alguns modelos experimentais testados em ratos, a radiação UVB seria responsável por um tipo de câncro cutâneo biologicamente pouco agressivo e com baixa mortalidade - o carcinoma espinocelular. A radiação UVA penetra mais profundamente na pele que os UVB, provocando a pigmentação cutânea (que muitos procuram ao expor-se ao sol...), efeito esse que apresenta 2 componentes; pigmentação imediata (IPD), que ocorre poucas horas após a exposição e pigmentação retardada (PPD), evidente alguns dias mais tarde. O seu potencial eritematogénico - capacidade de provocar queimaduras solares - é no entanto reduzido (cerca de1000 vezes inferior ao dos UVB). As queimaduras solares provocadas pelos UVB, sobretudo se ocorrem durante a juventude, constituem um dos factores de risco classicamente implicados no desenvolvimento do melanoma e, portanto, a radiação UVB foi durante alguns anos o factor primariamente apontado como estando na origem do tumor.

 

No entanto, a possibilidade de a radiação UVA estar também envolvida na patogénese do melanoma, encontra-se cada vez mais no centro do debate, de acordo alguns estudos científicos recentemente efectuados e que apontam nesse sentido. Segundo alguns autores, a radiação UVA apresenta potencial mutagénico sobre o ADN em ratos, através da formação de radicais livres libertados a partir de reacções de foto-oxidação e, segundo estudos efectuados “in vitro”, teria também actividade mutagénica em melanócitos humanos.

 

Por outro lado, em estudos efectuados em peixes da espécie Xiphophorus, a radiação UVA induziu o aparecimento de melanomas ou dos seus precursores. Estudos prospectivos revelaram também aumento significativo da incidência de melanomas em indivíduos submetidos a fototerapia ou PUVA terapia – administração de psoraleno seguida de exposição á radiação UVA – para tratamento da psoríase ou por razões estéticas.

 

Dado que durante algum tempo se pensou que as queimaduras solares, atribuíveis sobretudo à radiação UVB, eram primordialmente responsáveis pelo melanoma, os primeiros fotoprotectores disponíveis no mercado protegiam essencialmente apenas contra os UVB. A aplicação desses filtros solares permitia maiores tempos de exposição solar, uma vez que os indivíduos que os usavam “não se queimavam” tão facilmente, conduzindo por outro lado a uma exposição maciça, incontrolada e “silenciosa” à radiação UVA durante vários anos... Este efeito, aliado ao facto de os UVA serem 20 vezes mais abundantes na natureza que os UVB, possuindo a capacidade de atravessar superfícies vidradas e sendo pouco afectados pela latitude, altitude ou pelas condições atmosféricas, conduziu, de acordo com alguns estudos, a um aumento paradoxal da incidência de melanoma em indivíduos que aplicavam regularmente protectores solares ao longo da vida!!

 

Tais resultados foram todavia atribuídos ao facto de serem os indivíduos constitucionalmente mais predispostos ao melanoma (pele, cabelo e olhos claros), aqueles que mais utilizam os protectores solares, contribuindo para um aumento anormal da incidência de melanoma que se verificou nesses estudos. Pelo contrário, os indivíduos morenos, com menor predisposição “intrínseca” ao melanoma e que pouco recorriam aos fotoprotectores por serem menos susceptíveis às queimaduras solares, apresentavam naturalmente menor incidência do tumor. Vários trabalhos posteriomente publicados revelaram ausência de correlação ou correlação negativa entre a incidência de melanoma e a aplicação de fotoprotectores.

 

A 4 de Fevereiro de 2001 realizou-se uma conferência de consenso em Washington, promovida pela Associação Americana de Dermatologia (AAD), com a participação da FDA, indústria farmacêutica e sociedades de fotobiologia, com o objectivo de padronizar critérios e métodos para determinar e avaliar quantitativamente a eficácia dos filtros UVA e UVB.

 

Se no que respeita à protecção UVB, o índice SPF (sun protector factor) de 15 como nível mínimo aceitável, era já consensual, no que respeita à protecção UVA, foi definido um incremento mínimo de 4 vezes no índice PPD acima referido, na presença do filtro solar, para ser considerado eficaz contra os UVA. Foi ainda proposto que o aumento do índice SPF(UVB) fosse acompanhado por uma aumento proporcional no PPD(UVA), nos fotoprotectores comerciais ostentando a designação “largo espectro”, os quais deveriam ainda apresentar um comprimento de onda crítico (comprimento de onda abaixo do qual ocorre 90% da absorbância do filtro solar) nos 370nm De referir que, embora desde 1989 a maioria dos fotoprotectores incluisse já filtros absorvendo a radiação UVA, apenas uma parte do espectro era coberta.

 

De salientar que a maioria dos fabricantes de protectores solares de prescrição médica disponíveis no mercado português, já respeitam actualmente este princípio da “proporcionalidade”, ao igualarem os índices de protecção contra os UVA e UVB nos seus produtos. Em resumo, pode concluir-se que a utilização de um protector solar adequado ao tipo de pele, não confere ao utilizador uma segurança absoluta relativamente prevenção do câncro cutâneo. Deverá ser complementada pela observância de um conjunto de regras básicas, que devem estar sempre presentes na conduta diária de pais e educadores e transmitidas precocemente, se possível de forma didáctica às crianças. Essas regras ditam quer se evite a exposição ao sol nas horas de maior insolação 11:30-15:30, tendo todavia em conta que a areia e a água reflectem a radiação ultravioleta respectivamente em 25 e 5% e que mesmo imersos em água até 50 cm de profundidade, recebemos cerca de 40% da radiação UV.

 

Nunca esquecer de renovar aplicação do protector solar após 1,5 hora de exposição ao sol, uma vez que a exposição solar por si só altera as propriedades físico-químicas do filtro solar,, diminuindo-lhe a actividade, bem como após a imersão em água. Nas crianças, a primeira aplicação do protector solar deverá ser feita em casa, repetindo-se as aplicações subsequentes de acordo com as regras acima establecidas. Em caso de permanência na praia no horário das 11:30-15:30, a criança deverá permanecer à sombra, vestida com roupas claras, aplicando-se o protector solar nas áreas descobertas. Está contra-indicada a frequência da praia, bem como a aplicação de protectores solares, em bébés com idade inferior a 1 ano.
 

Artigo de:

Dr. Miguel Taveira - Dermatologista - 21-Jul-2001



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