Obesidade

Artigo de:

Dra. Paula Freitas - Endocrinologista - 04-Jun-2001

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Revisto por:

Dr. Filipe Basto - Internista - 21-Set-2009

O que é e qual a sua importância

A obesidade resulta de uma acumulação excessiva de gordura corporal. A quantidade e a forma como esta gordura se distribui em cada pessoa contribuem para explicar os diversos problemas para a saúde, para a vida relacional e para a auto-estima que afligem os obesos.

 

Dos problemas psicológicos associados às alterações do biótipo e da imagem corporal, ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, ao agravamento de doenças crónicas, a uma maior vulnerabilidade às infecções- como se tem agora constatado com a pandemia de gripe A (H1N1) - a obesidade é responsável por um importante cortejo de ameaças à nossa saúde, em múltiplos domínios.
 

Todos estes problemas vêm afectando, de forma crescente, as diversas sociedades, aumentando as cargas de doença desde idades cada vez mais jovens e aumentando o consumo de recursos que são destinados às necessidades em saúde que daí decorrem.

 

Factores de risco

Pode inventariar-se uma longa lista de factores que contribuem para o aparecimento da doença e para aumentar o risco do seu desenvolvimento.
 

Embora exista uma importante predisposição familiar e genética, a obesidade apresenta também uma forte relação com os comportamentos.
 

Em última análise, a doença acaba por resultar do facto de se ingerirem mais calorias do que aquelas que o organismo utiliza ou necessita. Toda a ingestão que excede as necessidades do metabolismo basal e da actividade física desenvolvida ao longo do dia vai constituir-se como uma reserva adicional de gordura.

 

Existem problemas médicos e hormonais, como as doenças da tiróide ou o efeito de certos medicamentos, que podem provocar obesidade, mas que podem ser corrigidos, através do diagnóstico e tratamento atempado destas situações de base.
 

Por outro lado, o uso do tabaco tende a acelerar o metabolismo corporal, aumentando, por isso, o consumo energético e de calorias. A perda deste efeito na cessação tabágica explica a tendência para aumentar de peso sentida por muitos ex-fumadores.

 

Um padrão de vida agitado, com pouco sono e horários de refeições muito espaçadas e irregulares, favorece o aparecimento de alterações hormonais que contribuem para a acumulação de gordura. Favorece também a ingestão rápida de alimentos (por exemplo “fasf food”), que são muito ricos em calorias, mas pobres em resíduos, vitaminas e anti-oxidantes.
 

O sedentarismo, que caracteriza o trabalho sentado ao computador e o descanso frente à televisão no regresso a casa, reduz as necessidades de consumo calórico, não permitindo assim “queimar” as calorias que constituem uma refeição “normal”.

 

Há ainda factores sociais, económicos e de grupo que podem ser determinantes no desenvolvimento da obesidade. A necessidade de cumprir horários e utilizar tipos específicos de transporte; a inexistência de locais onde se possa realizar com segurança exercício físico; o desconhecimento do valor nutricional dos alimentos, e de como estes se podem cozinhar e utilizar; a dificuldade no acesso ou na aquisição de alguns tipos de refeições ou alimentos específicos; ou a ausência de incentivos por parte da família, amigos ou de grupos de relação para adoptar estilos de vida saudável, tudo são factores que podem contribuir para aumentar o risco de obesidade.

 

Há também uma relação importante com a idade. O envelhecimento diminuiu a massa muscular e as necessidades metabólicas, modifica o balanço hormonal - em especial nas mulheres - está muitas vezes associado a uma diminuição do grau de actividade.
 

Valorizar estas mudanças na fisiologia do organismo, ajustando a ingestão calórica em conformidade, é, por isso, o segredo para evitar a acumulação de massa gorda.

 

Sinais, sintomas e doenças associadas

Os sinais de doença podem apresentar uma relação directa com o aumento de peso e a distribuição de gordura, condicionando alterações do biótipo e da imagem corporal.
 

A obesidade provoca desconforto físico e limita a função e o grau de actividade. Pode, em consequência disso, originar discriminação e um compromisso significativo da vida social e de relação. Não espanta, por isso, que esta condição afecte a auto-estima e a saúde mental do obeso, condicionando vergonha, depressão, isolamento social e uma franca diminuição da qualidade de vida.

 

A obesidade aumenta o risco de “apneia do sono”, uma perturbação grave que pode ainda manifestar-se pelo facto de o obeso ressonar com maior frequência e se apresentar cansado e sonolento durante o dia; o excesso de peso agrava as doenças dos ossos e das articulações, aumentando a dor e a limitação funcional; a pele quente e húmida aumenta a fragilidade cutânea e o risco de infecções; o obeso tem uma capacidade funcional muito limitada, manifestada na dificuldade respiratória que apresenta sempre que realiza um esforço, por pequeno que seja.

 

A obesidade aumenta a probabilidade de morte prematura e de doença cardiovascular.
 

A acumulação de gordura intra-abdominal apresenta neste contexto maior risco, sobretudo quando associada a uma combinação de outros factores, que podem incluir: resistência à insulina e diabetes mellitus; hipertensão arterial; hipertrigliceridemia; níveis baixos de colesterol HDL e hipertensão. Fala-se, neste caso, da denominada “síndrome metabólica”.

 

A obesidade pode ainda agravar doenças crónicas, constituir risco específico de complicações perioperatórias e aumentar a susceptibilidade a infecções.
 

Aumenta ainda o risco de gota, de doença hepática e das vias biliares e de um número significativo de cancros.
 

Pode condicionar problemas ginecológicos importantes e infertilidade.

 

Diagnóstico

O diagnóstico de obesidade faz-se pelo cálculo do denominado “índice de massa corporal” (IMC). O IMC é igual ao resultado obtido pela divisão de peso, em quilos, pelo quadrado da altura, em metros. O obeso apresenta um IMC > 30. A obesidade extrema, ou mórbida, associa-se a maior risco de complicações graves para a saúde e verifica-se quando o IMC > 40. O peso ideal de referência está compreendido entre o IMC de 18,5 e 25.

 

É ainda importante contextualizar o quadro de obesidade na história pessoal e familiar do indivíduo, despistando problemas médicos e caracterizando factores de risco associados. Deve, por isso, efectuar-se uma história clínica detalhada e um exame médico cuidadoso, aos quais se seguirá a realização dos testes necessários para complementar a avaliação médica realizada.

 

Tratamento

A obesidade é um problema de saúde pública à escala global, que afecta indivíduos em idades cada vez mais precoces, incluindo crianças e adolescentes. A sua prevalência nalguns dos países mais industrializados é, para os adultos, superior a 30%.
 

É, por isso, importante tratar esta entidade mas considerar o impacto extraordinário das estratégias de prevenção. Estas estratégias apresentam o duplo objectivo de evitar a doença e as suas complicações, mas também o de manter e consolidar os resultados do próprio tratamento.
 

É importante salientar que reduções modestas – por exemplo, uma redução de 5% do excesso de gordura acumulada – optimizam a qualidade de vida e condicionam efeitos significativos na melhoria e na prevenção das complicações associadas à obesidade.

 

O objectivo da terapêutica é o de reduzir o excesso de gordura, mantendo à distância um peso mais saudável. Para isso, é preciso elaborar, para cada caso, planos de actuação individualizados, que comprometam de forma inequívoca o doente numa alteração do seu estilo de vida, de forma a modificar, de forma sustentada, comportamentos, padrões alimentares e padrões de actividade física. A estas modificações do estilo de vida poderão, em casos particulares, associar-se, pontualmente, terapêuticas farmacológicas ou cirúrgicas específicas.

 

A história familiar, a predisposição genética e a presença de factores de risco aumentam a possibilidade de desenvolver obesidade, mas não são uma inevitabilidade.
 

É nas famílias em que existe mais risco que é mais importante modificar estilos de vida, aumentar de forma progressiva e cautelosa a actividade física e melhorar o padrão nutricional. É necessário reforçar a importância do pequeno-almoço, de espaçar correctamente as refeições e de conhecer o valor nutricional e calórico dos alimentos. Estes “pequenos gestos” permitirão dosear a qualidade e as porções dos alimentos que se comem e que se bebem em conformidade com os gastos energéticos.

 

Não há soluções imediatas para reduzir o peso e massa gorda. O peso deve perder-se de forma gradual (½ a 1 kg por semana) e a tolerância para aumentar de peso deve ser absolutamente zero. É, por isso, decisivo que o peso se monitorize de forma regular.
 

A solução mágica – e fácil – para perder peso é a de criar um estilo de vida disciplinado que perdure ao longo da vida.

 

 

 

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Dra. Paula Freitas - Endocrinologista - 04-Jun-2001

Revisto por:

Dr. Filipe Basto - Internista - 21-Set-2009



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