Mucosite

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Jul-2001

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Revisto por:

Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009

O que é?

A mucosite é uma inflamação da mucosa de revestimento do tubo digestivo causada por um efeito citotóxico directo dos agentes de quimioterapia ou pela radioterapia, duas modalidades terapêuticas vulgarmente usadas no tratamento das doenças malignas (cancros, leucemias e doenças afins).

 

A mucosite é uma complicação frequente do tratamento das doenças malignas. Estima-se que, em termos gerais, 40% dos doentes que recebem quimioterapia convencional e 76% dos doentes tratados com transplantes de medula óssea desenvolvem mucosite significativa, com acentuada morbilidade.

 

O grau de intensidade da mucosite depende basicamente do tipo de quimioterapia e das doses usadas. Quando são usadas doses intensivas de quimioterapia, como nos regimes preparativos dos transplantes de medula óssea, a mucosite é generalizada e severa, conduz a um síndroma de má absorção, requer grandes quantidades de analgésicos narcóticos para controlo da dor, obriga ao uso de alimentação total parenteral (endovenosa ); é também um foco de entrada de bactérias intestinais na circulação com o consequente e alto risco de infecções sistémicas graves, interfere com a normal nutrição, é um factor de risco de perfuração intestinal e consequente peritonite, e pode produzir estenoses esofágicas (estreitamento do esófago) a longo prazo. Doses convencionais de citostáticos podem originar preferencialmente mucosite da mucosa oral (estomatite) ou da mucosa intestinal (enterocolite), que definem dois síndromas distintos, com terapêuticas específicas.

 

Sintomas e sinais, diagnóstico, tratamento
 

Estomatite
 

A estomatite desenvolve-se 2-10 dias após o tratamento com agentes citostáticos e durante a radioterapia da cabeça ou pescoço. A resolução dos sintomas demora cerca de 2-3 semanas após o fim da terapêutica, mas pode persistir muito mais tempo nos regimes intensivos, em que altas doses de agentes citostáticos são usadas. Os sintomas inicialmente consistem de uma sensibilidade aumentada a alimentos ácidos ( e.g., sumos de laranja ou limão) ou quentes, a que se segue dor durante a mastigação. O exame da mucosa oral mostra eritema (vermelhidão) e formação de úlceras aftosas.

 

Em casos graves, as lesões progridem para extensas ulcerações e descamação da mucosa oral. Infecções concomitantes produzidas por vírus (herpes simplex, citomegalovírus) ou fungos (candida albicans) devem ser excluídas com exames apropriados como esfregaços ou culturas das lesões. Frequentemente as ulcerações atingem o esófago, causando odinofagia (dor à deglutição) e mal estar retroesternal.

 

O controlo da estomatite requer medidas profilácticas e terapêuticas. Entre as medidas preventivas, realce para o tratamento da cárie dentária e o bom funcionamento das próteses dentárias, antes do começo da quimioterapia. Outras medidas preventivas incluem o uso de agentes tópicos como desinfectantes (clorhexidina) lavagem da boca com soluções salinas ou bicarbonato de sódio, abstenção de tabaco e álcool e uso frequente de gelo ou bebidas geladas. Regimes úteis no tratamento da estomatite incluem, entre muitos outros, anestésicos locais, suspensões comerciais à base de anti-ácidos, anti-histamínicos, sucralfato, sorbitol, glicerina ou borato de sódio. Outros agentes podem ser úteis em casos individuais. Quando a estomatite é severa e interfere com o grau de nutrição e a qualidade de vida dos doentes, medidas mais radicais são necessárias, incluindo o uso liberal de analgésicos narcóticos orais ou injectáveis e a alimentação total parentérica.

 

Enterocolite
 

A mucosite do tracto gastrintestinal caracteriza-se clinicamente por mal-estar ou dor difusa abdominal e diarreia, que pode ser profusa, sanguinolenta, e interferir marcadamente com a absorção dos alimentos e o estado geral de nutrição dos doentes. Regimes intensivos usados nos transplantes de medula óssea produzem severa e prolongada diarreia que pode ser sanguinolenta, uma síndrome de má absorção e, ocasionalmente, uma síndrome de inflamação severa, distensão e necrose do cólon, associada a um alto risco de perfuração intestinal e sépsis, com elevada mortalidade, denominada enterocolite necrosante.

 

Doentes com diarreia severa e prolongada são tratados com descanso do tubo digestivo, uso de alimentação total parentérica, antibióticos, hidratação e terapêutica sintomática com antidiarreicos. De salientar que estes doentes têm um marcado défice de glóbulos brancos, são incapazes de montar uma resposta inflamatória eficiente e, portanto, os sinais clínicos de infecção intra-abdominal (p. ex. peritonite) podem estar ausentes. É, pois, necessário um alto índex de suspeição no diagnóstico de infecções nestes doentes. Exames como o Rx abdominal simples, a tomografia axial computorizada - TAC, ou a ultrasonografia abdominal são importantes neste contexto. Se possível, devem-se evitar exames invasivos nestes doentes (p. ex. endoscopias, clister opaco). Uma intervenção cirúrgica pode ser necessária, mas está associada a significativa morbilidade e mortalidade.

 

Conclusão: Em termos gerais, quanto mais agressiva é a quimioterapia mais severa é a mucosite. Cada caso deve ser tratado individualmente. O ponto crítico é que estes efeitos tóxicos da quimioterapia/radioterapia não devem interferir significativamente com o estado de nutrição dos doentes, que pode ser medido facilmente com o exame clínico e testes simples. Estudos demonstram que doentes com um elevado grau de desnutrição não suportam bem regimes terapêuticos intensivos e isso reflecte-se, em última análise, na resposta ao tratamento e, portanto, na sobrevivência dos doentes.
 

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Jul-2001

Revisto por:

Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009



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