Leucemia

Artigo de:

Dr. José Mário Mariz - Hematologista - 06-Jul-2001

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O que é?

Os primeiros diagnósticos de leucemia reportam-se à primeira metade do séc. XIX, altura em que alguns investigadores notaram, em observações de autópsia, uma descoloração branca do sangue. Com o auxílio do microscópio, rapidamente perceberam que essa descoloração resultava de uma alteração na proporção normal entre os elementos celulares. O sangue é constituído por três elementos celulares diferentes: os leucócitos, também conhecidos por glóbulos brancos, e com um papel primordial no combate às infecções; os eritrócitos, ou glóbulos vermelhos, importantes no transporte do oxigénio; e as plaquetas, importantes no controle das hemorragias. As leucemias são doenças malignas dos leucócitos, podem ser classificadas em agudas ou crónicas que, por sua vez, se podem dividir em mielóides e linfóides.

 

Quais são as causas?

A sua causa não é ainda conhecida, acredita-se que possa existir mais do que um factor, não são hereditárias nem contagiosas. Por um processo não totalmente conhecido, uma das muitas células que dão origem aos leucócitos sofre uma alteração e passa a crescer de forma não controlada. Quando a alteração acarreta uma paragem precoce no processo de desenvolvimento das células surge a leucemia aguda, quando se dá numa fase mais tardia surge a leucemia crónica.

 

Quais os seus sintomas?

Os sintomas da leucemia resultam da diminuição dos elementos normais do sangue. Assim, à medida que as células leucémicas se multiplicam começam por ocupar, em primeiro lugar, a medula óssea (cavidade interior dos ossos onde é produzido o sangue), posteriormente o sangue e, por vezes, outros orgãos (gânglios, baço, fígado, etc.). Como a multiplicação das células leucémicas é superior à das células normais, rapidamente conquistam o espaço utilizado por estas últimas, levando à diminuição do seu número. Uma diminuição dos leucócitos normais tem como consequência um aumento no risco e número de (amigdalites, pneumonias, etc.); uma diminuição dos eritrócitos corresponde a uma anemia (o doente sente-se cansado); uma diminuição no número de plaquetas pode levar ao aparecimento de hemorragias. No entanto, nenhum destes sinais é específico de leucemia, pode estar associado também com patologias benignas.

 

Qual é o tratamento?

Perante o diagnóstico de leucemia é necessário distinguir entre as formas crónicas (nem sempre necessitam de tratamento), das formas agudas em que o tratamento é quase sempre necessário e intensivo.

 

Passados que estão mais de cento e cinquenta anos da identificação das leucemias, as armas terapêuticas desenvolvidas nos últimos anos transformaram a leucemia de uma doença fatal numa doença com elevado potencial de cura, dependendo da idade do doente e das características da leucemia.

 

O tratamento tem várias componentes: a quimioterapia propriamente dita (uso de várias drogas, conhecidas como citostáticos, com a finalidade de destruir as células leucémicas); os antibióticos para combater as infecções; e as tranfusões de eritrócitos para corrigir a anemia e de plaquetas para prevenir hemorragias.

 

O primeiro tratamento é designado de indução (pretende induzir o equilíbrio à medula), é habitualmente o mais complexo já que nesta altura o doente apresenta assuas defesas muito diminuídas (as células normais foram substituídas pelas leucémicas).

 

Efeitos secundários da quimioterapia: O início da quimioterapia traz consigo problemas adicionais: numa primeira fase são os enjoos, a falta de apetite e mais raramente os vómitos (hoje em dia existem medicamentos potentes para contrariar estes efeitos); posteriomente surge a inflamação das mucosas (a nível da boca e do intestino) que, para além do desconforto (controlado com morfina), abre a porta a muitas infecções o que obriga a cuidados especiais como seja o isolamento do doente (não por ser contagioso, mas para que as outras pessoas não lhe transmitam infecções), restrições alimentares e higiene reforçada.

 

Numa segunda fase aparece a queda do cabelo (transitória) e instala-se a aplasia medular, nesta altura os valores do sangue atingem os níveis mais baixos porque a medula não está a produzir e as poucas células normais foram destruídas pela quimioterapia. Este período poderá durar dias ou semanas e corresponde à fase mais crítica do tratamento, sendo as infecções as complicações mais temíveis. A fase da aplasia medular termina com a normalização do funcionamento da medula. A pouco e pouco, as células normais retomam a multiplicação e recuperam o seu território na medula, amadurecem e reconstituem os valores do sangue, diminui o risco de infecção e o doente deixa de estar dependente de transfusões. No exame da medula já não se visualizam células leucémicas, o doente atingiu a remissão completa, o primeiro objectivo do tratamento foi atingido. Porém, isto não significa que o doente esteja, nesta altura, curado. Serão necessários mais ciclos de quimioterapia, nesta fase designada de consolidação, para que a cura possa ser alcançada.

 

Artigo de:

Dr. José Mário Mariz - Hematologista - 06-Jul-2001



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