Imunoglobulinas endovenosas

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Abr-2001

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Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 26-Jun-2009

O que são? 

Os preparados de imunoglobulinas são derivados do plasma humano. São, em geral, estéreis não existindo o risco de transmissão de doenças víricas (por exemplo, hepatites B e C, HIV, citomegalovírus - CMV). As preparações actuais incluem formulações para uso endovenoso (IgIV) e para uso subcutâneo (IgSC), estas últimas permitindo o uso domiciliário em bomba perfusora. As imunoglobulinas são aquilo que comummente se chama de anticorpos, ou seja, proteínas produzidas pelos linfócitos B e que têm numerosas funções no organismo. Essas funções podem ser traduzidas em duas grandes linhas: primeiro, combate a infecções e, segundo, promoção da homeostasia (equilíbrio) do nosso sistema imune, de maneira a que este não agrida o nosso próprio organismo. As imunoglobulinas apresentam subclasses com actividade biológica distinta – IgG, IgM, IgA, IgE e IgD. Porém, os preparados de imunoglobulinas têm sobretudo IgG, que é a imunoglobulina com actividade biológica mais importante no combate a infecções e no reconhecimento do próprio. As IgIV têm uma semi-vida longa (3 a 4 semanas), o que permite infusões mensais e as IgSC necessitam de infusões semanais.

 

Indicações 

As IgIV e as IgSC são terapêuticas alternativas umas das outras e têm, de uma forma geral, as mesmas indicações. Têm essencialmente dois tipos de indicação: terapêutica substitutiva, como fonte de anticorpos em indivíduos com doenças associadas a deficiente produção endógena de anticorpos (hipogamaglobulinemia) e, portanto, susceptíveis a infecções recorrentes, e terapêutica imunomodeladora em indivíduos com doenças auto-imunes graves, como o lúpus eritematoso sistémico. Na primeira indicação usam-se pequenas doses, na maioria das vezes, para o resto da vida e, nessas circunstâncias, as formulações IgSC permitem uma maior autonomia do doente e não ter que usar acessos venosos durante toda a vida. Podemos dividir as hipogamaglobulinémias em 2 tipos: congénitas e adquiridas. As primeiras são doenças que necessitam de terapêutica toda a vida e as segundas são, normalmente, transitórias ou aparecem na fase final de doenças crónicas.

 

Hipogamaglobulinémias congénitas: 

-Agamaglobulinemia congénita. 

-Imunodeficiência variável comum. 

-Imunodeficiência combinada severa. 

-Síndrome de Wiskott-Aldrich. 

-Imunodeficiência ligada ao X. 

-Síndrome de Hiper IgE.

 

Hipogamaglobulinémias adquiridas: 

- Leucemia linfóide crónica. 

- Mieloma múltiplo.
 

Para a segunda indicação, são numerosas as possibilidades para o uso de imunoglobulinas. Normalmente, são usadas em circunstâncias especiais de resistência ao tratamento ou agressividade anormal da doença de base com risco de vida, como, por exemplo: púrpura trombocitopénica idiopática (ITP), síndrome de Kawasaki, síndrome de Guillain-Barré, púrpura pós-transfusão, aplasia medular de glóbulos vermelhos secundária a infecções por parvovírus, lúpus eritematoso sistémico, miopatias inflamatórias, vasculites sistémicas, etc.

 

Contra-indicações e precauções 

 

Reacções adversas durante a infusão incluem dores de cabeça, fadiga, arrepios, tonturas, febre, vasodilatação da face e náuseas. Ocasionalmente, ocorrem reacções alérgicas de hipersensibilidade imediata (rash urticariforme cutâneo, angioedema) e reacções anafilácticas generalizadas, como broncospasmo e colapso cardiovascular. Os doentes com uma história de deficiência de IgA têm contra-indicação relativa ao seu uso. No entanto, as formulações actuais são praticamente desprovidas de IgA, pelo que, em caso de necessidade, podem ser usadas com maior precaução (por exemplo, ritmo de perfusão mais lento). A preparação intramuscular está em desuso actualmente. Em relação às IgSC, as precauções são idênticas às IgIV e o doente deve ter acesso fácil a um hospital e um kit de emergência domiciliária em caso de reacção anafiláctica. No entanto, as reacções alérgicas nas IgSC são muitos menos frequentes que nas IgIV, sendo a maior preocupação as reacções no local da infusão, que podem ser apenas de rubor e prurido, mas podem ser também de dor impeditiva do uso dessa via.

 

Dose e administração 

A dose depende da condição subjacente. A dose substitutiva IV é de 0,5 mg/kg/peso mês com acerto posterior para os níveis sanguíneos de IgG necessários (> 500 mg/dl). A dose subcutânea é equivalente à IV divida em 4 infusões semanais e o número de infusões semanais depende do volume a infundir, ou seja, depende do peso do doente. A dose imunomodeladora segura é 0,4 g/kg/peso 5 dias seguidos; doses mais elevadas em menos dias podem ser usadas, mas com maior risco de fenómenos trombóticos pela hiperviscosidade provocada.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 22-Abr-2001

Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 26-Jun-2009



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