Hiperprolactinemia

Artigo de:

Dr. Jorge Dores - Endocrinologista - 15-Mai-2009

  |  Partilhar:

O que é?

Hiperprolactinemia é uma condição caracterizada por elevação dos níveis de prolactina no sangue. A prolactina é uma hormona produzida pela hipófise, cuja função primária é aumentar o desenvolvimento das glândulas mamárias durante a gravidez e induzir a produção de leite materno após o parto.
 

Este problema ocorre em menos de 1% da população geral e em 10 a 40% de mulheres com amenorreia secundária (mulheres em idade fértil que deixaram de menstruar).

 

Causas


Existem várias causas para a hiperprolactinemia, tanto fisiológicas como patológicas.
 

Causas fisiológicas
 

Gravidez e aleitamento.
Estimulação manual dos mamilos.
Stress físico ou psicológico.
Colheita de sangue sem ser em jejum.
Efeito de medicamentos (estrogénios, antiandrogénios, fenotiazinas e butirofenonas, risperidona, domperidona, metoclopramida, sulpiride, cimetidina, metildopa, antidepressivos tricíclicos, opióides, cocaína).

 

Causas patológicas


Lesão na parede torácica por cirurgia ou trauma, insuficiência renal ou hepática, hipotiroidismo. Tumor benigno da hipófise, produtor de prolactina (prolactinoma) ou não secretor.
 

Geralmente não existe um teste específico que ajude, com segurança, a definir a causa da hiperprolactinemia. No entanto, quando os níveis de prolactina são superiores a 250 ng/ml, é provável que seja um prolactinoma, sendo essa probabilidade muito reduzida se os níveis de prolactina forem inferiores a 100 ng/ml. Quando existe um tumor da hipófise com níveis de prolactina inferiores a 100 ng/dl, trata-se muito provavelmente de um tumor não secretor de prolactina.
 

Os prolactinomas podem ser divididos em 2 grupos: microprolactinomas (mais comuns em mulheres pré-menopáusicas), se o tumor for inferior a 10 mm, e macroprolactinomas (mais comuns nos homens e mulheres pós-menopáusicas), quando o tumor tem dimensões iguais ou superiores a 10 mm. Quando não se encontra uma causa fisiológica (stress, medicamentos) para a hiperprolactinemia e o exame de imagem não mostra qualquer tumor da hipófise, dizemos que se trata de uma hiperprolactinemia idiopática.

 

 

Sinais e Sintomas

A hiperprolactinemia manifesta-se de forma diferente em ambos os sexos. Na mulher, o quadro clínico é mais expressivo e caracteriza-se por irregularidade das menstruações ou mesmo paragem do fluxo menstrual (amenorreia), saída de líquido leitoso pelos mamilos (galactorreia). Uma vez que a função dos ovários fica afectada com a hiperprolactinemia, pode haver dificuldade em engravidar (infertilidade), diminuição da libido (desejo sexual), dor vaginal durante as relações sexuais (dispareunia) e, a médio prazo, uma descalcificação dos ossos (osteoporose) devido à redução dos níveis das hormonas femininas (estrogénios).
 

No homem, a hiperprolactinemia, devido à sua acção inibitória sobre a produção da hormona masculina (testosterona) pelos testículos, pode causar diminuição da libido, da potência sexual e/ou infertilidade que, com frequência, são interpretados pelo doente como consequências inevitáveis da idade. Se a causa da hiperprolactinemia for um prolactinoma (tumor secretor de prolactina), este, não sendo identificado, vai crescendo e vão aparecer outras manifestações clínicas relacionadas com o crescimento tumoral (cefaleias, vómitos, perturbações visuais).

 

Diagnósticos

O diagnóstico é efectuado pela determinação da prolactina em jejum. Por vezes, o stress induzido pela colheita de sangue leva a que o médico peça dois a três doseamentos da prolactina espaçados 30 minutos cada um, após a colocação de uma cânula de teflon dentro da veia, para evitar nova picada.
 

O diagnóstico da causa da hiperprolactinemia é baseado na colheita da história clínica (a causa mais frequente da hiperprolactinemia é a induzida por medicamentos) e na interpretação das análises da função renal, hepática e tiroideia. O diagnóstico de um prolactinoma ou de um tumor hipofisário não secretor é feito através de uma Ressonância Magnética ou TAC da hipófise, conseguindo-se com a ressonância magnética imagens mais detalhadas.

 

Tratamentos

O tratamento da hiperprolactinemia é dirigido à causa que a originou (por exemplo: tratar o hipotiroidismo, retirar ou substituir os medicamentos responsáveis pela hiperprolactinemia). O objectivo do tratamento é a resolução dos sinais e sintomas causados pela hiperprolactinemia. Se a hiperprolactinemia não der qualquer sintomatologia relevante clinicamente, não é necessária a redução dos níveis de prolactina.
 

O tratamento dos prolactinomas é primariamente médico. Este tipo de tratamento é eficaz em cerca de 80% dos doentes. Pode-se optar por várias atitudes, dependendo do tamanho do tumor, da idade do doente e da sintomatologia que este apresente.
 

Vigilância clínica - Os microprolactinomas não necessitam de tratamento porque geralmente não têm tendência a crescer. Esta atitude é mais frequente na mulher após a menopausa, sem produção espontânea de estrogénios. Na mulher jovem, o tratamento médico é importante visto que a hiperprolactinemia inibe a função ovárica e, consequentemente, reduz a produção de hormonas sexuais femininas, essenciais à função reprodutora e sexual, bem como a uma boa calcificação dos ossos. Os macroprolactinomas devem ser sempre tratados devido à sua tendência para o crescimento.
 

Tratamento com medicamentos – Os medicamentos disponíveis, bromocriptina mais antigo e comparticipado, e cabergolina melhor tolerado mas não comparticipado, são altamente eficazes na redução dos níveis de prolactina e das dimensões do tumor, em poucos dias ou semanas. Com a redução dos níveis de prolactina e a redução do volume do tumor, há o reaparecimento das menstruações na mulher, melhoria da fertilidade, da função sexual, das cefaleias e da visão em ambos os sexos. Este tratamento deve, na maioria das situações, ser encarado como uma terapêutica crónica. Os efeitos laterais mais frequentes são as náuseas, vómitos, cefaleias e tonturas, que são reduzidos ao mínimo quando se inicia a terapêutica com uma dose baixa e se aumenta progressivamente ao longo de semanas.
 

Cirurgia – Geralmente este tratamento apenas é usado como forma de recurso para os casos que não respondem ao tratamento médico ou com intolerância à medicação e em situações de urgência para grandes tumores que estão associados a compromisso da visão. Esta modalidade terapêutica está indicada como de primeira linha nos tumores da hipófise não secretores de prolactina.
 

Radioterapia – Este tratamento só muito raramente é utilizado neste tipo de tumores, estando indicado nas situações em que os tratamentos médico e cirúrgico falharam ou não foram possíveis.

 

Gravidez
 

A correcção da hiperprolactinemia restitui a fertilidade, mesmo que não desejada. É imperativo quando se procede ao tratamento da hiperprolactinemia que o médico informe a mulher do risco que corre de uma gravidez indesejada se não utilizar adequadamente um método contraceptivo.
 

Quando as mulheres com hiperprolactinemia pretendem engravidar, deverão continuar a tomar os medicamentos que baixam a prolactina até que consigam esse objectivo. Logo que saibam estar grávidas, devem informar o seu médico. Até agora, não foram reportadas malformações ou alteração do desenvolvimento dos bebés nas mulheres medicadas com bromocriptina ou cabergolina, o primeiro com muitos mais anos de experiência.
 

Nos microprolactinomas, o tratamento geralmente é interrompido visto que o risco de crescimento desses tumores durante a gravidez é inferior a 5%, o mesmo não acontecendo com os macroprolactinomas. A vigilância da grávida é baseada nas eventuais manifestações clínicas que possam aparecer (cefaleias, alterações da visão) e na interpretação de exames de oftalmologia (campos visuais). Poderá raramente ser necessária a realização de um exame de imagem à hipófise, que, na gravidez, está limitada à ressonância magnética. O doseamento da prolactina como valor prognóstico é desprovido de interesse porque os valores normais na gravidez se podem sobrepor aos do prolactinoma.
 

Artigo de:

Dr. Jorge Dores - Endocrinologista - 15-Mai-2009



Partilhar: