Hidatidose hepática

Artigo de:

Dr. José Davide - Cirurgião geral - 25-Fev-2009

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O que é?

Também designada por cisto ou quisto hidático do fígado, é uma parasitose endémica em vários países da Europa (essencialmente países mediterrânicos), África, Médio Oriente, Austrália, América Central e do Sul, sendo predominante no Alentejo e Nordeste Transmontano do nosso país. Provocada pela ingestão dos ovos de um céstodo da família dos Platelmintas e do género Echinococcus chamado Taenia Echinococcus granulosus.

 

Epidemiologia

Trata-se de um pequeno parasita com cerca de 5 a 8 mm de tamanho, que vive ancorado nas vilosidades do intestino delgado do hospedeiro definitivo (cão), onde pode durar entre 6 meses a 2 anos, existindo frequentemente num grande número de exemplares, na ordem das centenas ou milhares. O ser humano é um hospedeiro intermediário no ciclo de vida deste parasita, tal como o carneiro, o porco, a vaca e o camelo, entre outros, sendo geralmente o cão doméstico o seu hospedeiro definitivo. Este último, geralmente contaminado pela ingestão de vísceras (pulmão e fígado) de animais doentes deixados ao seu alcance, é responsável pela contaminação do hospedeiro intermediário humano, seja pelo contacto directo com o animal infectado, ingerindo os ovos transportados na mão com que acabou de afagar o mesmo, ou ingerindo alimentos contaminados com resíduos das suas fezes. Os ovos do parasita podem sobreviver no meio exterior durante longos períodos, dependendo das condições de temperatura e humidade dos solos, não sendo destruídos pela maioria dos desinfectantes que se utilizam na agricultura e confecção alimentar. Quando ingeridos pelo hospedeiro intermediário, ocorre a libertação de uma larva (oncosfera) no estômago e no duodeno, que penetra nas paredes dos órgãos e caminha na corrente sanguínea da veia porta até ao fígado ou na corrente linfática até ao pulmão. Nestes órgãos, desenvolve-se finalmente a lesão designada de cisto ou quisto hidático. Se bem que a maioria das lesões (50 a 70%) se encontram no fígado, podem virtualmente localizar-se em qualquer parte do organismo humano, havendo, em 25% dos casos, localização em mais do que um órgão simultaneamente.

 

Factores de risco

São factores de risco para contrair a doença a residência ou viagem em zona endémica, o contacto directo com cães domésticos vadios ou não desparasitados e a ingestão de alimentos frescos cultivados em locais contaminados com fezes de animais doentes.

 

Sinais e sintomas

Actualmente trata-se, na maioria das vezes, de uma descoberta acidental em exames de imagem prescritos no contexto da investigação de uma sintomatologia banal não relacionada. Pode, por vezes, ser um achado operatório, no decurso do tratamento cirúrgico de outras afecções, ou resultado de um rastreio levado a cabo em zona endémica da doença. Frequentemente acaba por se manifestar em termos semiológicos, seja devido à sua localização e tamanho, resultando em dor no quadrante superior direito do abdómen, seja por se tornar acessível à palpação no exame físico do abdómen, seja por conduzir a sintomas de compressão de estruturas vitais do órgão onde se localiza ou de órgãos de vizinhança ou, finalmente, devido a complicações próprias como a ruptura espontânea ou traumática, a extensão secundária, a infecção secundária ou a reacção de hipersensibilidade sistémica por libertação de componentes tóxicos na corrente sanguínea.

 

Diagnóstico

Assenta na existência de um contexto epidemiológico (residência ou viagem recente a zona endémica, contacto com animais potencialmente doentes e ingestão de alimentos potencialmente contaminados), nos achados da ecografia hepática (lesão cística típica) e nos resultados da serologia sanguínea (presença de anticorpos específicos no sangue).

 

Tratamento

Existem várias alternativas para o tratamento desta doença. O tratamento médico consiste na administração diária, por via oral, dividida em duas tomas, de 10 a 12 mg/kg de peso corporal de albendazol durante ciclos de 28 dias separados de 14 dias de repouso e por um período total de tempo não determinado (ideal de 3 a 4 ciclos). Ao fim de 12 meses, é possível considerar curadas cerca de 30% das lesões, cerca de 40 a 50% melhoram e 20 a 30% não têm resposta. O tratamento percutâneo, actualmente designado de PAIR (Punção, Aspiração, Injecção e Reaspiração), compreende a punção do cisto através da pele com controlo ecográfico, a aspiração do seu conteúdo, a injecção de um escolicida (soro fisiológico hipertónico, nitrato de prata a 0.05% ou solução de albendazol a 10%) no seu interior e finalmente a reaspiração. O tratamento cirúrgico compreende a exérese parcial ou total da lesão por cirurgia aberta convencional ou por laparoscopia.

Artigo de:

Dr. José Davide - Cirurgião geral - 25-Fev-2009



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