Hepatites virais

Artigo de:

Prof. Armando Carvalho - Internista - 04-Jun-2001

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Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 27-Jul-2009

O que são?

As hepatites virais são doenças inflamatórias do fígado provocadas por vírus. As mais comuns são a hepatite A, hepatite B e hepatite C, provocadas precisamente pelos vírus da hepatite A, B e C, respectivamente. A hepatite A só tem forma aguda de doença, com gravidade variável mas, em geral, autolimitada e benigna. As hepatites B e C podem dar formas agudas, mas também crónicas (mais de 6 meses de duração), com risco de evolução para cirrose e carcinoma hepatocelular. Muito raramente podem dar hepatites fulminantes, que são formas supergraves de inflamação, que evoluem para a falência das funções do fígado e para a necessidade de um transplante urgente. De uma maneira geral, a maior morbilidade destas hepatites, centra-se na história natural das hepatites crónicas B e C: evolução para cirrose e cancro do fígado, se não forem tratadas.

 

Factores de risco

Dependendo do tipo de hepatite, existem diferentes formas e veículos de transmissão. Nos países ocidentais, as principais formas são:
 

Hepatite A – Água e comida contaminada. O vírus da hepatite A é excretado pelas fezes e, portanto, transmitido por comida e águas contaminadas. São fontes comuns a água, gelo, frutos, vegetais e mariscos contaminados. Outras fontes são contactos anais-orais ou a via sexual. As pessoas de maior risco são utilizadores de drogas de abuso, viajantes internacionais (sobretudo, para países subdesenvolvidos), empregados de creches, homossexuais e pessoas em contacto directo com infectados em fase aguda.
 

Hepatite B – Transmissão sexual pelo sémen ou secreções vaginais e transmissão sanguínea. Assim sendo, as pessoas de maior risco são os que têm relações sexuais desprotegidas e as que partilham seringas ou itens pessoais (por exemplo, lâminas de barbear e escovas de dentes). Também é possível a transmissão vertical de uma mãe contaminada para um bebé.
 

Hepatite C – Através de contacto com sangue infectado (partilha de agulhas, por exemplo). Menos comum é a transmissão por via sexual, vertical ou através de objectos de casa, como lâminas de barbear. Também devemos admitir como factores de risco e rastrear para a hepatite C os seguintes: seropositivos para o HIV, doentes em hemodiálise e pessoas que sofreram transfusões de sangue antes de 1987, ou seja, anteriores aos testes de rastreio.

 

Quais são as manifestações clínicas?

Hepatite A
 

Os sintomas são normalmente ligeiros, especialmente em crianças, e aparecem 4 a 6 semanas após a exposição ao vírus. Em adultos, a hepatite C pode ter maior gravidade e ser mais prolongada. Nestes pode surgir febre, icterícia, fadiga, náuseas, vómitos e urina escura, sintomas que podem durar meses. Após a infecção, as pessoas ficam imunes, não existindo formas de hepatite crónica. Raramente evoluem para hepatite fulminante (<0,1%).
 

Hepatite B
 

Na hepatite aguda B, a maioria dos doentes não tem sintomas, ou apresentam apenas um quadro gripal. Se os sintomas surgirem, aparecem entre as 6 semanas e 6 meses de exposição ao vírus. Quando muito sintomática, pode surgir febre, icterícia, dores musculares, articulares, fadiga intensa e urina escura. A maioria fica imune num período de 6 meses desde a hepatite aguda (seroconversão), evoluindo com “cura” e com imunidade duradoura, não transmitindo o vírus. A hepatite crónica pode ser a evolução de 5% das infecções, que, se não for tratada, evolui na sua história natural para cirrose e carcinoma hepatocelular. A hepatite crónica B é, muitas vezes, apanhada em análises de rotina em pessoas assintomáticas.
 

Hepatite C
 

A maioria das pessoas não tem sintomas e a hepatite C crónica pode estar presente durante 30 anos sem ser detectada, sendo efectuado o diagnóstico só quando há sinais clínicos e analíticos de cirrose. A hepatite aguda, se sintomática, surge em média 6 a 7 semanas após a exposição ao vírus e é, normalmente, um quadro igual ao gripal. Os infectados, mesmo assintomáticos, podem transmitir o vírus. Cerca de 60 a 70 % das infecções evoluem para a cronicidade, destas 20% para cirrose e 4 % para carcinoma hepatocelular.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado na clínica e em definitivo pelo pedido de testes específicos para anticorpos das hepatites. Para além disso, o médico vai pedir análises para avaliar a função do fígado, ou seja, avaliar a repercussão da infecção no fígado, o que vai para além do âmbito deste texto.
 

HEPATITE A – A hepatite aguda é baseada na presença no soro de IgM anti-HAV, que são anticorpos produzidos pelo organismo para combater a hepatite A.
 

HEPATITE B – Existem diferentes testes e anticorpos para detectar o vírus da hepatite B. Os habituais são:
 

Antigénio de superfície da hepatite B (Ag HBs) que, quando positivo, indica infecção activa, seja aguda ou crónica.
 

Anticorpo para o core do vírus (Anti-HBC) – indica contacto recente ou prévio com o vírus.
 

Anticorpo para o antigénio de superfície (Anti-HBs) – a positividade indica imunidade, seja por infecção prévia ou por vacina.
 

Antigénio E de superfície (Ag HBe) – indica replicação vírica, seja em hepatite aguda ou crónica.
 

Anticorpo para o antigénio E de superfície (Anti- HBe) – indica baixa probabilidade ou ausência de replicação do vírus B.
 

DNA do vírus da hepatite B – Teste definitivo para confirmar a existência de replicação. Especialmente útil para os doentes com testes específicos a favor de hepatite crónica em que há dúvidas na existência de replicação vírica. Este doseamento é também importante para a monitorização do tratamento da hepatite crónica.
 

HEPATITE C - O teste standard é o teste ELISA para anticorpos para o vírus da hepatite C (anti-VHC). Dado o carácter flutuante na inflamação hepática, a traduzir replicação flutuante, a hepatite crónica (ou a ausência dela) só pode ser afirmada após doseamento do RNA do vírus C por PCR. Se a replicação vírica for positiva e em caso de ser candidato a tratamento, deveremos pedir o subtipo de vírus (genótipo), os mais comuns são o 1, 2, 3 e 4, e uma biopsia hepática, pois ambos têm implicações na estratégia de tratamento.

 

Tratamento

As hepatites agudas são, na sua maioria, para tratamento sintomático, sendo a grande aposta a sua prevenção. A vacina da hepatite B faz parte do plano nacional de vacinações, não existe vacina para a hepatite C e para a hepatite A, a vacina deve ser oferecida aos indivíduos não imunes que vão viajar para áreas endémicas (por exemplo, África).
 

As hepatites crónicas B e C carecem de tratamentos mais complexos, com estratégias que devem ser geridas por especialistas. O espectro da cura ainda não é realista, mas sim o da resposta virológica sustentada, ou seja, o máximo de tempo que o vírus se mantém suprimido após tratamento. Para a hepatite C, a estratégia baseia-se na associação de interferão pegilado com Ribavarina por 24 ou 48 semanas; e na B Interferão pegilado isolado ou outras drogas para uso oral, cuja escolha depende do perfil do doente e das tentativas de tratamento prévio (lamivudina, entecavir, adefovir…). É de salientar que estes tratamentos são complexos e com muitos efeitos laterais, pelo que devem ser rigorosamente acompanhados. Por fim, o transplante hepático pode ser oferecido a doentes com cirrose avançada cujo tratamento falhou ou não foi possível realizar.

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Prof. Armando Carvalho - Internista - 04-Jun-2001

Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 27-Jul-2009



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