Hematúria

Artigo de:

Dr. Serafim Guimarães - Nefrologista - 27-Abr-2009

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O que é?

Chama-se hematúria ao aparecimento de sangue na urina. Pode ser macroscópica, se for visível a olho nu, sendo normalmente descrita pelo doente como urina vermelha ou da cor da coca-cola, ou microscópica, quando é apenas detectável em exames da urina. A hematúria é indicadora de lesão com hemorragia em algum ponto das vias urinárias: nefrónio, bacinete, ureteres, bexiga ou uretra.

 

Como é detectada?

A hemoglobina na urina revela-se, normalmente, através do exame sumário de urina, também designado “urina tipo II”. A fita que se embebe numa amostra de urina ocasional contém uma substância cromogénea que reage com a porção heme da hemoglobina, alterando-se e mostrando pintas verdes, que são devidas a eritrócitos intactos ou um padrão homogéneo difuso, o que ocorre com o aumento de eritrócitos que vão cobrindo completamente a área. Este padrão difuso também pode ocorrer quando há lise eritrocitária, em urina alcalina, baixa densidade urinária e, ainda, devido à hemoglobinúria liove secundária a hemólise intravascular ou, mesmo, mioglobinúria secundária a rabdomiólise. Por este motivo, o aparecimento de positividade do exame sumário de urina obriga à realização do exame do sedimento urinário, no qual se observa ao microscópio uma amostra do sedimento urinário, depois de centrifugado, na qual se pode confirmar a presença dos elementos figurados na urina, designadamente os eritrócitos. Note-se que é normal o aparecimento de 0 a 2 eritrócitos por campo de grande ampliação no sedimento urinário. É ainda importante excluir contaminação da vagina ou de lesões da pele.

 

Eritrócitos na urina

Na urina podem aparecer dois tipos de eritrócitos: isomórficos e dismórficos. Os primeiros apresentam forma e contornos regulares, ao contrário dos segundos. Esta divisão é essencial para localizar a origem da hematúria. Quando mais de 80% dos eritrócitos observados são isomórficos, a hematúria é definida como não glomerular. Os eritrócitos de origem glomerular ficaram deformados na passagem pelas fendas da membrana basal glomerular, ou sofreram agressão físico-química na sua passagem pelos túbulos. Também os túbulos podem deixar a sua marca na hematúria, através da formação de cilindros hemáticos. Os cilindros são um molde dos túbulos, feitos por uma proteína neles produzida, a proteína de Tamm-Horsfall, que aprisiona os eritrócitos que percorrem o trajecto dos túbulos. A presença de cilindros hemáticos é a prova de que o ponto de partida da hematúria se situa no nefrónio.
 

Já os eritrócitos isomórficos não sofreram estas agressões, reflectindo o seu menor percurso pelas vias urinárias de maior calibre. Traduzem normalmente causa urológica para a hematúria, ao contrário dos primeiros, que indiciam causa nefrológica para a mesma. Ainda assim um método bastante antigo permite distinguir as hematúrias de origem vesical das de origem uretral. A esta prova chama-se “a prova dos três vasos de Guyon” e ela requer que o doente urine sucessivamente para três recipientes. Se apenas o primeiro tiver sangue, trata-se de hematúria com origem na uretra. Se, pelo contrário apenas o terceiro estiver corado, o sangue veio das paredes da bexiga. Se o sangue estiver nos três, a hematúria é provavelmente de origem renal ou do uréter.

 

Diagnósticos

A idade é um importante factor discriminador das causas de hematúria. As causas mais frequentes têm idades de aparecimento distintas: infecção (cistite, pielonefrite, prostatite), cálculos, neoplasias do tracto urinário (em indivíduos mais velhos) e doenças glomerulares (geralmente associadas a outros indicadores de lesão renal).

 

Enquadramento diagnóstico da hematúria

A hematúria pode aparecer isolada, associada a proteinúria ou a clínica de doença sistémica. Pode fazer parte de uma síndrome nefrítica, ou associar-se a uma síndrome nefrótica (embora não faça parte desta síndrome). Associa-se, por vezes, a insuficiência renal rapidamente progressiva. Faz normalmente parte do quadro clínico de neoplasias, infecções sistémicas, tuberculose, litíase…
 

 

 

 

 

 

 

Artigo de:

Dr. Serafim Guimarães - Nefrologista - 27-Abr-2009



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