Gripe dos suínos

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 27-Abr-2009

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O que é?

A gripe dos suínos é uma doença respiratória dos porcos causada pelo vírus Influenza e que foi identificada pela primeira vez em 1930. Estes vírus, do tipo “RNA”, pertencem a uma família – os Ortomixoviridae – composta por múltiplos géneros, que incluem, entre outros, os vírus Influenza A, B e C. Estes vírus afectam aves e mamíferos, incluindo o homem, classificando-se em múltiplas estirpes de acordo com as variações nas suas duas proteínas de superfície – as hemaglutininas (H) e neuraminidases (N). Por exemplo, o vírus identificado em 1930 era um vírus H1N1.

 

Como acontece com todos os vírus Influenza, o vírus da gripe suína muda constantemente, o que impede a imunidade permanente para este tipo de infecções.

 

Trata-se de uma infecção com grande relevo na economia da produção suína, pois condiciona uma grande morbilidade e é muito contagiosa, embora a mortalidade dos animais seja habitualmente baixa. O contágio resulta da disseminação de partículas víricas em aerossóis respiratórios ou do contacto directo ou indirecto entre animais. Pode também ser transmitida por animais infectados mas que não apresentem quaisquer sinais de doença.

 

Existem desde os anos 50, casos descritos de transmissão a humanos, embora posteriormente a doença só se tenha transmitido de homem para homem em condições especiais.

 

Os porcos são também extremamente sensíveis aos vírus Influenza das aves e dos humanos, podendo mesmo existir no porco uma infecção simultânea com vírus de qualquer destas três diferentes espécies. Neste caso, o material destes diferentes vírus encontra condições favoráveis para se misturar, podendo produzir um rearranjo genético que facilite a emergência de um vírus completamente novo.
 

A proximidade entre aves, porcos e humanos facilita este risco, que pode ter graves consequências: a transmissão ao homem de um novo vírus para o qual este não apresenta qualquer tipo de imunidade; a possibilidade de o agente causar doença significativa e ser capaz de se transmitir de forma eficiente de homem para homem; e, finalmente, a possibilidade de condicionar uma grande disseminação geográfica, originando uma pandemia. As pandemias de gripe de 1957 e 1968 resultaram do rearranjo genético, no porco, entre genes de vírus Influenza aviário e humano.
 

As consequências de uma nova pandemia são sempre difíceis de prever e dependem de múltiplos factores, como a virulência do vírus, a existência de alguma imunidade residual na população, a eventual protecção cruzada por anticorpos produzidos pela vacina para a gripe sazonal e, também, as condições específicas de cada indivíduo.

 

Factores de risco

Os vírus da gripe suína não costumam afectar o homem, tendo sido descritos poucos casos nas últimas décadas. Estes casos resultam normalmente do contacto directo ou de grande proximidade com os animais (até 1,8 metros), não tendo qualquer relação com o consumo de alimentos cozinhados.
 

A transmissão posterior de pessoa a pessoa é rara, mas pode acontecer e já foi descrita, embora os seus detalhes sejam pouco conhecidos. Assume-se que seja semelhante à da gripe “clássica”, nomeadamente através das gotículas respiratórias emitidas pela tosse ou espirro e pelo contacto com superfícies contaminadas com o vírus (por exemplo, mexer na boca ou nariz após contacto com um lenço utilizado por uma pessoa infectada).
 

A transmissão pode ocorrer enquanto uma pessoa está sintomática ou nos primeiros 7 dias após o início da doença. As crianças possam ser infecciosas durante mais tempo.

 

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas no homem são semelhantes aos da gripe “clássica” e podem condicionar casos clínicos muito variados.
 

Podem encontrar-se queixas constitucionais, como fadiga, anorexia, febre ou dores musculares, associadas a perturbações respiratórios, como odinofagia, corrimento nasal, tosse ou espirros, e sintomas gastrointestinais, como náuseas, vómitos ou diarreia.
 

Nos casos mais graves pode mesmo haver evolução para pneumonia, insuficiência respiratória e morte. Tal como na gripe comum, a infecção pode condicionar o agravamento de problemas médicos ou doenças crónicas subjacentes.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é habitualmente clínico, embora possam realizar-se múltiplos testes, de acordo com as circunstâncias clínicas e epidemiológicas.
 

Existem testes rápidos que detectam os antigénios dos vírus Influenza em cerca de 30 minutos e testes de imunofluorescência que permitem, em 2 a 4 horas, o diagnóstico dos tipos de Influenza A e B.
 

Os testes diagnósticos de referência permanecem a cultura do vírus ou a PCR por transcríptase reversa (RT-PCR), que está apenas disponível num número muito limitado de laboratórios. Estes testes são demorados mas essenciais para distinguir as diferentes estirpes de vírus, determinar a sua sensibilidade a fármacos antivíricos e definir o padrão antigénico que permita elaborar a preparação de vacinas específicas.
 

As amostras respiratórias para o diagnóstico devem colher-se nos primeiros 4 a 5 dias da infecção, altura em que a probabilidade de o vírus estar a ser disseminado é maior.

 

Tratamento

O tratamento é essencialmente sintomático, embora possam utilizar-se fármacos antivíricos como a amantadina, a rimantadina, o oseltamivir e o zanamivir no tratamento da infecção e na sua profilaxia. Estes fármacos têm uma eficácia relativa, existindo resistência crescente destas infecções ao seu efeito, em especial à amantadina e à rimantadina. Devem, por isso, utilizar-se de acordo com uma análise de risco / benefício que é necessário efectuar em cada caso e em face da situação clínica e epidemiológica concreta. Para ser eficaz, o tratamento deve iniciar-se nos dois primeiros dias após o início dos sintomas.
 

Não existem vacinas humanas contra a gripe suína, desconhecendo-se se a vacina sazonal da gripe garante alguma protecção cruzada, ainda que parcial, contra estes vírus.
 

Há várias medidas que podem contribuir para minimizar a disseminação do vírus e prevenir a doença que se lhe associa. Entre estas destacam-se:
 

- Tapar a boca e o nariz com um lenço de papel ao tossir ou espirrar, deitando o lenço usado ao lixo. Lavar, de seguida, as mãos com água e sabão ou algum desinfectante à base de álcool;
 

- Evitar o contacto com os olhos, nariz ou boca, que podem facilitar a disseminação do vírus e a transmissão da doença;
 

- Evitar o contacto com pessoas doentes;
 

- No caso de estar doente, não ir à escola ou trabalhar. Permanecer em casa e limitar o contacto com outras pessoas para minimizar a possibilidade de transmitir a infecção;
 

- As dúvidas em relação à importância dos sintomas devem motivar o contacto com o médico assistente, a quem se devem pedir conselhos quanto à forma de agir e aos locais onde procurar ajuda adicional.

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 27-Abr-2009



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