Gripe A

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 31-Jul-2009

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O que é?

A gripe A (H1N1) é uma doença respiratória, causada pelos vírus Influenza A (H1N1), que pode condicionar atingimento sistémico.
 

Esta nova estirpe de Influenza A (H1N1) foi identificada em Abril de 2009 e a sua rápida disseminação pelo mundo levou a Organização Mundial de Saúde a declarar, em Junho de 2009, a existência de uma pandemia global de gripe.

 

Este vírus, do tipo “RNA”, pertence a uma família – os Ortomixoviridae – composta por múltiplos géneros, que incluem, entre outros, os vírus Influenza A, B e C.
 

Estes vírus afectam aves e mamíferos, incluindo o homem, mas os vírus Influenza A e B são os únicos que causam doença humana de forma epidémica. O hemisfério Norte é mais afectado de Setembro a Maio e o hemisfério Sul de Maio a Setembro.

 

Os vírus Influenza A classificam-se em múltiplas estirpes, de acordo com variações nas suas duas proteínas de superfície – as hemaglutininas (H) e neuraminidases (N). Estas variações antigénicas resultam de problemas no rearranjo dos genes destes vírus durante o processo em que eles se multiplicam nos seus hospedeiros – trata-se de “mutações pontuais” ou de “recombinações genéticas” que ocorrem, assim, durante a sua replicação. São, aliás, estas variações, por serem muito frequentes, que impedem o desenvolvimento de uma imunidade eficaz e permanente.

 

Há evidência, desde 1977, de circulação global de vírus Influenza A (H1N1), Influenza A (H3N2) e Influenza B. Foram também identificados vírus Influenza A (H1N2) que provavelmente emergiram da recombinação genética entre as duas estirpes já referidas.

 

O que há de novo nesta estirpe de Influenza A (H1N1), que é antigenicamente distinta dos vírus que estão em circulação desde 1977, é que ela parece derivar, em parte, de vírus Influenza A que circulam no porco, numa recombinação genética interespécies. Vírus do porco, das aves e do homem combinam-se, originando um novo vírus que é capaz de se disseminar de homem para homem.

 

A importância particular do porco nesta cadeia de eventos resulta da sua enorme sensibilidade aos vírus Influenza das aves e dos humanos. O porco pode abrigar, em simultâneo, uma infecção com vírus de qualquer destas três diferentes espécies. Neste contexto, o material destes diferentes vírus encontra condições favoráveis para se misturar, podendo produzir, como parece ter sido o caso, um rearranjo genético que facilitou a emergência de um vírus completamente novo.

 

As consequências da pandemia de gripe são difíceis de antecipar, pois a sua caracterização epidemiológica está ainda em curso. Até ao momento, o perfil de complicações é, apesar do carácter pandémico, grosseiramente semelhante ao da gripe sazonal. O impacto da pandemia irá depender de futuras recombinações que possam afectar a virulência do vírus, da importância de alguma imunidade residual na população e da eventual oportunidade e protecção conferidas pela nova vacina específica que se encontra em produção.

 

Factores de risco

Os vírus Influenza podem causar doença em qualquer pessoa, em qualquer idade. As taxas de infecção são maiores nas crianças, sendo o risco de morte e de complicações graves mais significativo quando as crianças são muito pequenas (com menos de 2 anos), nos idosos (em especial, com mais de 65 anos) e em todos os que possam apresentar condições fisiológicas, profissões ou doença subjacente que os tornem mais vulneráveis.
 

Falamos, nestes casos, de grupos particulares de risco como as grávidas, os profissionais de saúde ou as pessoas que contactam com crianças muito pequenas, os indivíduos com doença cardíaca, pulmonar ou renal crónica, os diabéticos e os imunodeprimidos.
 

O vírus da gripe transmite-se pelas gotículas aéreas que são disseminadas pelas pessoas infectadas quando estas tossem, espirram ou conversam. Estas gotículas víricas podem ser inaladas directamente ou contaminar as mãos e/ou objectos inanimados que nos rodeiam. Neste caso, ao tocarmos num telefone ou numa maçaneta da porta podemos contaminar as nossas mãos e criar condições para que estas, num contacto subsequente com os nossos olhos ou as mucosas da boca ou do nariz, possam propagar a infecção.

 

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas são semelhantes aos da gripe “clássica” e podem, por isso, condicionar situações clínicas muito variadas.
 

Os sintomas tendem a aparecer 3 a 5 dias depois da exposição ao vírus e podem prolongar-se por uma semana.
 

Podem encontrar-se queixas constitucionais, como fadiga, anorexia, febre ou dores musculares, associadas a perturbações respiratórias, como odinofagia, corrimento nasal, tosse ou espirros, e sintomas gastrointestinais, como náuseas, vómitos ou diarreia.
 

Nos casos mais graves, pode mesmo haver evolução para pneumonia, insuficiência respiratória e morte. Tal como na gripe sazonal, a infecção pode condicionar o agravamento de problemas médicos ou doenças crónicas subjacentes.
 

Regra geral, a infecção pode transmitir-se desde o dia que antecede os sintomas até que haja uma completa recuperação, num período médio de cerca de 8 dias.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é habitualmente clínico, embora possam realizar-se múltiplos testes, de acordo com as circunstâncias clínicas e epidemiológicas.
 

Existem testes rápidos que detectam os antigénios dos vírus Influenza em cerca de 30 minutos e testes de imunofluorescência que permitem, em 2 a 4 horas, o diagnóstico dos tipos de Influenza A e B.
 

Os testes diagnósticos de referência permanecem a cultura do vírus ou a PCR por transcríptase reversa (RT-PCR), que estão apenas disponíveis num número muito limitado de laboratórios. Estes testes são, no seu conjunto, mais demorados mas essenciais para distinguir as diferentes estirpes de vírus, determinar a sua sensibilidade a fármacos antivíricos e definir o padrão antigénico que permita elaborar a preparação de vacinas específicas.
 

As amostras respiratórias para o diagnóstico devem colher-se nos primeiros 4 a 5 dias da infecção, altura em que a probabilidade de o vírus estar a ser disseminado é maior.

 

Tratamento

O tratamento é essencialmente sintomático, embora possam utilizar-se fármacos antivíricos como o oseltamivir e o zanamivir no tratamento da infecção e na sua profilaxia.
 

Estes fármacos têm uma eficácia relativa, existindo um risco crescente de resistências ao seu efeito.
 

Devem, por isso, utilizar-se de acordo com uma análise de risco/benefício que é necessário efectuar em cada caso e em face da situação clínica e epidemiológica concreta. Para ser eficaz, o tratamento deve iniciar-se nos dois primeiros dias após o início dos sintomas.
 

Está, entretanto, a ser desenvolvida uma vacina humana específica contra a gripe A (H1N1).
 

Há, contudo, várias medidas que podem contribuir para minimizar a disseminação do vírus e prevenir a doença que se lhe associa. Entre estas, destacam-se:

 

-Tapar a boca e o nariz com um lenço de papel ao tossir ou espirrar, deitando o lenço usado ao lixo. Lavar, de seguida, as mãos com água e sabão ou algum desinfectante à base de álcool;

 

-Evitar o contacto com os olhos, nariz ou boca, que podem facilitar a disseminação do vírus e a transmissão da doença;

 

-Evitar o contacto com pessoas doentes;

 

-No caso de estar doente, não ir à escola nem ir trabalhar. Permanecer em casa e limitar o contacto com outras pessoas, para minimizar a possibilidade de transmitir a infecção;

 

-As dúvidas em relação à importância dos sintomas devem motivar o contacto com a linha Saúde 24 ou o seu médico assistente, a quem se devem pedir conselhos quanto à forma de agir e aos locais onde procurar ajuda adicional.

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 31-Jul-2009



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