Feridas infectadas: tratamento e cuidado

Artigo de:

M. Jorge Guimarães - Tradução e adaptação de Madeleine Flanagan - 01-Nov-2000

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Revisto por:

Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009

O que é?

A pele constitui a barreira natural do corpo humano à penetração de agentes patogénicos, nomeadamente bactérias, no organismo. Quando se verifica um ferimento da pele, essa barreira é comprometida, sendo assim possível a entrada de micróbios na circulação a partir dos tecidos expostos e infectados. Para além disso, a infecção desses tecidos atrasa o processo de cicatrização da ferida.

 

Tratamento

A detecção precoce de infecção nas feridas irá limitar a quantidade de tecido local destruído e minimizar a interrupção do processo de cura. Os objectivos do tratamento das feridas infectadas são:

 

- Identificação do organismo infectante;

 

- Eliminação da infecção da ferida através de agentes antimicrobianos;

 

- Remoção de tecido desvitalizado e de exsudado em excesso do leito da ferida;

 

- Protecção da pele circundante dos efeitos da maceração.

 

O tratamento das feridas infectadas deve ter como objectivo providenciar condições de cicatrização ideais. Isto pode ser conseguido pela remoção de tecido necrosado (células mortas) pus e exsudado excedente, que, em si mesmo, providenciam um ambiente propício à multiplicação de bactérias e interrupção de actividade de "limpeza" dos glóbulos brancos, prolongando a fase inflamatória do processo de cura.

 

Limpeza das feridas

Limpar de cima para baixo ou de dentro para fora simplesmente redistribui as bactérias na ferida, para além de o acto mecânico de limpeza poder desalojar tecido solto e desvitalizado, embora não remova os agentes patogénicos activamente. Materiais tradicionais usados para limpar as feridas, como o algodão em rama ou gaze, introduzem fibras na superfície da ferida que podem ser responsáveis por reacções a corpos estranhos, resposta inflamatória prolongada e um risco acrescido de infecção. Hoje recomenda-se algodão não filamentado, gaze ou espumas para a limpeza de feridas.

 

Tratamentos tópicos

O uso de tratamentos tópicos para as feridas infectadas continua a ser um assunto polémico. Os antimicrobianos continuam a ser usados em certos tipos de feridas infectadas, embora, para se atingir um efeito terapêutico sustentado, eles devessem ser usados como coadjuvantes de antibióticos sistémicos. Os anti-sépticos são soluções químicas usadas para reduzir a infecção nos tecidos vivos: por vezes, precisam de ser aplicadas em concentrações altas para que possam destruir eficazmente os patogénicos invasores.

 

Os clínicos têm um interesse renovado no uso selectivo de anti-sépticos tópicos para tratamento de feridas, uma vez que as bactérias estão a tornar-se resistentes aos antibióticos. Alguns estudos demonstram que iodopovidona e clorhexidina têm efeitos bactericidas mesmo contra organismos multirresistentes, como os MRSA (estafilococos aureus meticilina-resistentes, bactérias especialmente resistentes ao tratamento com antibióticos). Existem, por outro lado, provas de que os anti-sépticos são tóxicos para tipos específicos de células.

 

No entanto, o significado clínico de qualquer perigo potencial deve ser cuidadosamente considerado quando se trata de feridas infectadas, uma vez que se encontram na fase inflamatória de cicatrização. Se o uso de um anti-séptico for considerado apropriado para o tratamento de uma ferida particular, os princípios descritos abaixo deveriam ser seguidos para minimizar a hipótese de potenciais efeitos adversos:
 

- Os anti-sépticos não deveriam ser usados para limpar feridas limpas e com tecido de granulação.
 

- Os anti-sépticos deveriam ser usados por períodos limitados de tempo e o seu uso deveria ser revisto regularmente.
 

- Deveria ser prestada a devida atenção aquando da consideração das vantagens e desvantagens do seu uso.
 

- Todas as opções alternativas de tratamento deveriam ser cuidadosamente consideradas.

 

Antibióticos

As feridas infectadas deveriam ser tratadas sistematicamente usando a terapêutica antibiótica adequada. Os organismos patogénicos deveriam ser identificados o mais rapidamente possível após colheita de amostras para cultura e estudo de sensibilidade. Os antibióticos tópicos não têm lugar no tratamento de feridas. Não existem ensaios controlados que demonstrem a sua superioridade relativamente aos anti-sépticos. O seu uso nas feridas não se justifica e tem conduzido, em muitos casos, ao desenvolvimento de bactérias resistentes. A resistência à iodopovidona, todavia, é desconhecida apesar de o seu uso remontar a 1839. As reacções alérgicas a antibióticos de aplicação tópica são comuns e os riscos de toxicidade, sensibilização e resistência bacteriana ultrapassam em larga escala os potenciais benefícios no tratamento da infecção de feridas.

 

Pensos

A colonização nas feridas infectadas é comum e não constitui uma contra-indicação à utilização da maior parte dos pensos. Quando houver suspeita de infecção local ou sistémica, deverá ser iniciada terapêutica apropriada e adjuvante e o progresso da ferida deve ser monitorizado diariamente, ainda que isso signifique uma mudança mais frequente de pensos, devido à monitorização, do que seria em princípio necessário. Pensos oclusivos podem representar um papel importante na minimização da propagação de bactérias. As feridas infectadas produzem, normalmente, quantidades elevadas de exsudado, tornando os pensos com pouca capacidade de absorção pouco recomendados. Se o exsudado repassar os pensos, a propriedade de barreira contra as bactérias será comprometida e o penso deverá ser mudado.

 

Bibliografia: Bajaja, A.K., Gupta, S.C. Contact hypersensitivity to topical antibacterial agents. International Journal of Dermatology 1986; 25: 103-105 Deas, J., Bilings,P., Brennan, S.S. et al. The toxicity of commonly used antiseptics on fibroblasts in tissue culture. Phlebology 1986; 1: 205-209. Drug and Therapeutics Bulletin. Local applications to wounds: 1. Cleansers, antibacterials, debriders. Drug and Therapeutics Bulletin 1991; 29: 24, 93-95. Gilchrist, B. Should iodine be reconsidered in wound management? Journal of Wound Care 1997; 6:3, 148-150. Hutchinson, J., Lawrence, J. Wound infection under occlusive dressings. Journal of Hospital Infection 1991; 17: 83-94. Lawrence, J.C. The use of iodine as an antiseptic agent. Journal of Wound Care 1998; 7:8, 421-425. Lineweaver, W., Howard, R., Soucy, D. et al. Topical antimicrobial toxicity. Archives of Surgery 1985; 120: 267-270. Peel, A.L., Taylor, E.W. Proposed definition for the audit of post-operative infection: a discussion paper. Annals of the Royal College of Surgeons of England 1991; 73:6, 385-388. Thomlinson, D. To clean or not to clean? Nursing Times 1987; 83: 9,71-75. R. A. B. Disintegration of cellulose dressings in open granulating wounds. British Medical Journal 1976; 1: 6023, 1444-1445. Madelein Flanagan, MA, BSc (Hons), Dip N (Lon), Cert Ed (HE), RGN, is Principal Lecturer, Post-Registration Nursing, Faculty of Health and Human Sciences, University of Hertfordshire

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M. Jorge Guimarães - Tradução e adaptação de Madeleine Flanagan - 01-Nov-2000

Revisto por:

Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009



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