Febre neutropénica

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 02-Jul-2001

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Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 27-Jul-2009

O que é?

A neutropenia febril é definida como uma temperatura superior a 38 ºC e uma contagem de neutrófilos menor 500/ul. Trata-se de uma complicação previsível de qualquer quimioterapia, pelo que o doente que inicia tratamento antineoplásico deve estar avisado sobre os riscos e alertado para as medidas de vigilância.
 

O que significa neutropenia? Os neutrófilos são parte dos glóbulos brancos do nosso organismo e são as primeiras células a montar a resposta imune e inflamatória às infecções. A sua ausência implica um risco muito acrescido de se contrair uma infecção grave e fatal, sem que, na maioria das vezes, se identifique o seu foco. Não é necessariamente um motivo de internamento, podendo a infecção ser tratada em ambulatório, desde que o doente esteja clinicamente estável e capaz de uma boa vigilância do quadro. No entanto, é uma emergência clínica, um doente em quimioterapia com febre deve, de imediato, procurar um médico, confirmar a neutropenia, estadiar a gravidade da infecção e iniciar antibiótico o mais precocemente possível.

 

Factores de risco

Os factores de risco para uma neutropenia febril estão praticamente todos relacionados com a quimioterapia, sendo raras outras causas, pelo que não as consideraremos.
 

Estes incluem:
 

(1) Lesões das mucosas – Mucosite. Relacionado com o efeito tóxico dos tratamentos nas mucosas gastrointestinais, promovendo portas de entrada para bactérias dessa flora disseminarem no organismo.
 

(2) Neutropenias graves ou super graves (<100/ul) reduzem, de forma muito significativa, a capacidade de combate às infecções. Por outro lado, o uso de cateteres centrais de longa duração para quimioterapia é um risco acrescido de infecção grave.
 

(3) Internamentos recentes prolongados – Os doentes saem dos ambientes hospitalares colonizados nas mucosas, pele e tracto respiratório por agentes multirresistentes, que serão causa de infecções graves quando houver neutropenia. É recomendável, se possível, atrasar os tratamentos por algumas semanas, de forma a diminuir esses riscos.
 

(4) Socioeconómicos – As condições sanitárias associadas a baixo índice socioeconómico são também factores de risco muito importantes. Durante o período de quimioterapia e, sobretudo, nos períodos de previsível neutropenia, os doentes devem estar em ambientes saudáveis, com bom apoio sanitário e ter uma alimentação cuidada (os alimentos frescos devem ser cozinhados, legumes frios bem desinfectados, iogurtes devem ser evitados, comer fruta sem casca e, se possível, cozida…), repouso e uma boa hidratação.

 

Manifestações clínicas

A febre no período de neutropenia não é a única forma de apresentação de uma infecção, pelo que é necessário estar atento a outros sinais. Por outro lado, o seu médico deve prevenir quais as épocas de maior risco e quais os cuidados de vigilância a ter nesses períodos. Deve ter sempre presente um termómetro para vigiar a temperatura. Nesses períodos, é fundamental reconhecer os seguintes equivalentes a febre:
 

Arrepios e calafrios.
 

Sudorese aumentada.
 

Tonturas – que pode ser sinal de infecção mais grave, com hipotensão.
 

Além disso, devem estar atentos a alguns sintomas de infecção sistémica:
 

(1) Sintomas urinários – ardência, dificuldade em iniciar a micção, urinar às pingas, urinar sangue.
 

(2) Feridas ou cateter central ruborizado ou com drenagem de pus.
 

(3) Tosse seca ou raiada de sangue ou, mesmo, com expectoração purulenta (verde ou amarela).
 

(4) Dor de garganta ou aftas com febre ou equivalente.
 

(5) Diarreia com febre ou equivalente.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é feito em bases simples: sintomas inflamatórios equivalentes a febre ou febre >38 ºC e a presença em contagem de leucócitos no sangue periférico de <500 neutrófilos/ul.

 

Tratamento
 

O tratamento inicial é sempre empírico e baseia-se em 3 pontos:
 

(1) Antibióticos de largo espectro.
 

(2) Factores de crescimento dos neutrófilos.
 

(3) Estabelecer a necessidade de internamento.
 

Um doente estável, que não esteja a vomitar, com boas tensões, a alimentar-se normalmente e com acesso fácil a um hospital, pode ser tratado no domicílio com vigilância clínica, usando-se antibióticos que cubram os agentes mais prováveis em primeira intenção (gram negativos anaeróbicos). Paralelamente, pode fazer factores de crescimento dos neutrófilos subcutâneos diários para aumentar as contagens de neutrófilos e melhorar o combate à infecção. Os doentes sem condições para antibióticos orais ou gravemente doentes devem ser internados e iniciar antibióticos de largo espectro endovenosos. Estes devem inicialmente incluir empiricamente a cobertura de gram negativos aeróbios, posteriormente cobertura para Staphylococcus aureus Meticilino Resistente e, na persistência de febre, incluir antifúngico sistémico. Os antibióticos são depois acertados, de acordo com as culturas colhidas para identificação do agente infeccioso.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 02-Jul-2001

Revisto por:

Dr. António Marinho - Internista - 27-Jul-2009



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