Estatísticas do cancro

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologia - 20-Jun-2002

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Revisto por:

Dr. José Davide - Cirurgião Geral - 28-Dez-2009

Durante o século XX, praticamente duplicou em Portugal a esperança média de vida à nascença para ambos os sexos. Em 2005, ela cifrava-se em 78,2 anos. Este incremento reflecte o progresso nos recursos humanos, materiais e financeiros dedicados aos cuidados de saúde, assim como a melhoria generalizada das condições socioeconómicas da população. Apesar dos esforços incessantes na prevenção, na detecção precoce e no tratamento do cancro, esta entidade continua a constituir um problema de saúde pública. As principais causas de morte, em Portugal, são as doenças cardiovasculares e o cancro. As doenças cardiovasculares constituem as principais causas de morbilidade, incapacidade e mortalidade na população portuguesa, no entanto, regista-se um aumento progressivo do peso do cancro, que se mantém como a segunda maior causa de morte em Portugal. No nosso país, o instrumento de luta contra o cancro é o Plano Oncológico Nacional, que contempla todas as fases que acompanham a doença, desde a prevenção e rastreio ao diagnóstico e tratamento, terminando na reabilitação e nos cuidados paliativos.

 

Epidemiologia

São limitadas as estatísticas nacionais actualmente disponíveis sobre o cancro. Relativamente à incidência de cancro, de acordo com dados recentemente publicados, no nosso país a taxa de incidência de cancro padronizada pela idade é de 428 em 100.000 no sexo masculino e 289 em 100.000 no feminino. De acordo com dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, pode dizer-se que, em Portugal, a mortalidade por cancro estabilizou em cerca de 10 mortes por dez mil habitantes. Apesar de se registar um decréscimo na mortalidade provocada por determinados tumores, nomeadamente pelo cancro do estômago, outros, como o mieloma múltiplo, o cancro da próstata, do pulmão e do cólon e recto, continuam com mortalidades consideráveis e crescentes. A mortalidade global é mais elevada no sexo masculino. Em 2005, foram registadas 107.839 mortes na população residente em Portugal, sendo 23.232 causadas por cancro (21.5%). Em termos comparativos, no mesmo ano, as mortes derivadas de acidentes de viação foram cerca de 1.100 e o cancro só foi ultrapassado pelas doenças cardiovasculares (34%) em termos de principal causa de morte a nível nacional.
 

A principal causa de morte oncológica é o cancro do cólon e recto (10 pessoas por dia, de acordo com os dados de 2005), que representa uma fatia de 14% do total das mortes por cancro. Ainda de acordo com as estatísticas disponíveis, o cancro do cólon e recto vitimou, em 2005, mais mulheres do que o cancro da mama e mais homens do que o cancro da próstata. A média anual de incremento da mortalidade causada pelo cancro do cólon e recto é superior a 4%. O cancro do pulmão surge, logo depois, com 13,9%, seguido pelo do estômago, com 11%, e pelo da mama, com 7%. É de salientar que o cancro do pulmão é o que mais afecta o sexo masculino (19%), enquanto o da mama é o que mais atinge a mulher (17%). De acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, os distritos que apresentam a maior taxa de mortalidade por cancro são Beja, Setúbal, Lisboa, Porto e Viana do Castelo. Até 2020, estima-se que as taxas de cancro possam aumentar cerca de 20%.

 

No que diz respeito à Europa, no ano de 2006, verificou-se um aumento significativo da incidência global de cancro. As estimativas apontavam para 3.191.600 casos de cancro, não contando com o cancro de pele não-melanoma, e 1.703.000 óbitos atribuíveis à doença. Os tipos mais comuns foram o cancro da mama (13,5%), o cancro do cólon e recto (12,9%) e o cancro do pulmão (12,1%). Entre as causas de mortalidade do foro oncológico, a causa mais comum foi o cancro do pulmão, seguido do cancro do cólon e recto e do cancro gástrico. De acordo com dados relativos ao ano de 2006, foram gastos 3.284 milhões de euros em medicamentos, representando este gasto cerca de 22,7% da despesa total em saúde (9,7% do produto interno bruto). O custo do tratamento do cancro atingiu 565 milhões de euros, que correspondem a 53,33 euros per capita. Estes valores só são comparáveis aos de países como a República Checa, a Hungria e a Polónia. Os medicamentos para as doenças cardiovasculares representam cerca de 21,6% da despesa total em medicamentos, enquanto os medicamentos para o cancro, apenas, constituíram 5,6%. Embora os medicamentos oncológicos sejam um componente importante nas despesas do cancro, a sua proporção não ultrapassa os 34% dos custos totais da doença, enquanto os medicamentos para as doenças cardiovasculares representam 60% da despesa total. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, em Portugal o cancro representou, em 2002, cerca de 23% do total de anos de vida potencial perdida, enquanto as doenças cardiovasculares contribuíram para 14%. As projecções para 2010 demonstram que os anos de vida potencial perdida associados ao cancro irão representar o dobro dos atribuídos às causas cardiovasculares.

 

Portugal representa na União Europeia uma das excepções à tendência actual da mortalidade por cancro, que é de crescimento, no sexo masculino. Comparando os indicadores de Portugal com os dos melhores países da União Europeia, é previsível que seja possível reduzir a mortalidade prematura em 38% nos homens e em 10% nas mulheres. O cancro da mama continua a ser a principal causa de morte por cancro no sexo feminino. No entanto, em Portugal a mortalidade sofreu uma redução. Em relação aos melhores resultados europeus (13,5 por 100.000, em 1998), é possível formular a hipótese de reduzir, consideravelmente, a mortalidade precoce. O cancro do cólon e recto representa a terceira causa de morte mais comum para os homens e a segunda para as mulheres. A mortalidade que lhe é atribuída tem vindo a aumentar. O cancro do colo do útero não tem sofrido aumento nas mulheres mais jovens.

 

Actualmente, uma em cada quatro mortes ocorridas nos Estados Unidos da América é motivada por cancro. Cerca de 1.479.350 novos casos de cancro e 562.340 mortes de causa oncológica estão previstos para o ano de 2009 nesse país. A incidência global do cancro sofreu um decréscimo em ambos os sexos, cifrado em 1,8% nos homens e em 0,6% nas mulheres, essencialmente devido à diminuição dos cancros do pulmão, da próstata, do cólon e do recto, no sexo masculino, e da mama, do cólon e do recto, no sexo feminino. Em termos globais, entre 1990 e 2005, as mortes por cancro diminuíram 19,2% nos homens, com decréscimos no cancro do pulmão (37%), da próstata (24%), do cólon e do recto (17%), que, em conjunto, perfazem 80% da redução global. Nas mulheres, entre 1991 e 2005, verificou-se uma diminuição de 11,4% com o cancro da mama (37%) e o do cólon e recto (24%) responsáveis por 60% do decréscimo global. Esta redução na mortalidade por cancro permitiu poupar cerca de 650.000 mortes durante um período estimado em 15 anos. No entanto, apesar dos progressos, o cancro continua a vitimar mais pessoas abaixo dos 85 anos do que as doenças cardiovasculares.

 

Factores de risco

Existem inúmeros factores de risco identificados como cancerígenos, de onde sobressai o tabaco. Os factores de risco são específicos para cada tipo de cancro e são o principal alvo das campanhas de prevenção.

 

Prevenção

A prevenção do cancro tem encontrado dificuldades que se relacionam com factores de ordem diversa. Esta situação leva à necessidade de ponderação na identificação dos alvos a atingir com as campanhas de prevenção. Todas as pessoas podem contribuir para diminuir o impacto da doença oncológica, através da prevenção, da alimentação, de um estilo de vida saudável e de rastreios.

 

Rastreio

A política nacional de rastreios de cancro, na dependência do Ministério da Saúde, incide sobre o cancro do colo do útero, da mama e do cólon e recto. O principal método de rastreio do cancro do colo do útero é a citologia cervicovaginal. Em relação ao cancro da mama, o auto-exame das mamas e axilas é amplamente promovido. A mamografia anual, a partir dos 40 anos, antecipada para os 35 nos casos de história familiar, é o principal meio diagnóstico de rastreio. O rastreio do cancro do cólon e do recto incide, essencialmente, sobre doentes com história pessoal ou familiar de pólipos adenomatosos, doença inflamatória intestinal e história familiar de cancro do cólon e recto. Pode incluir a pesquisa de sangue oculto nas fezes, mas a modalidade de eleição é a colonoscopia.

 

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologia - 20-Jun-2002

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Dr. José Davide - Cirurgião Geral - 28-Dez-2009



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