Eritropoetina

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologia - 07-Nov-2001

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Definição

A eritropoietina pertence a um vasto grupo de factores hematopoiéticos de crescimento que regulam a proliferação e diferenciação das células hematopoiéticas da medula óssea, que são as precursoras das células do sangue (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). Os factores de crescimento celular são genericamente divididos em dois subgrupos: citoquinas e interleucinas. As citoquinas são moléculas moduladoras da proliferação e maturação das células hematopoiéticas. As interleucinas transmitem sinais de comunicação entre diferentes tipos de células. A eritropoietina pertence ao subgrupo das citoquinas.

 

Fisiologia

A eritropoietina é, quimicamente, uma glicoproteína e é o principal factor regulador da produção de glóbulos vermelhos (eritrócitos), um processo chamado eritropoiese. A eritropoietina é produzida principalmente no rim e, em menor quantidade, no fígado, e circula livremente no sangue. A hipóxia (deficiente oxigenação sanguínea) é o estímulo principal para a sua produção. A hipóxia, qualquer que seja a sua causa (por exemplo, insuficiência respiratória ou cardíaca, anemia, etc.), é detectada por um sensor de oxigénio em certas células renais que, como resposta, aumentam a produção de eritropoietina que, a nível da medula óssea, estimula a síntese e diferenciação de eritroblastos. Estas células - eritroblastos - sofrem um processo de multiplicação e diferenciação complexo na medula óssea, até atingirem o seu estado definitivo de maturação, altura em que entram na corrente sanguínea sob a forma de eritrócitos. Os eritrócitos são, basicamente, células com uma única função - o transporte de hemoglobina. Esta é uma proteína complexa que possui no seu interior um anel bioquímico fechado (grupo heme), no centro do qual se encontra um átomo de ferro que pode assumir duas formas (oxidada e reduzida) e que transporta oxigénio dos pulmões para os tecidos do organismo.

 

Uso terapêutico

A eritropoietina é usada no tratamento adjuvante de certas anemias, aproveitando a sua capacidade de estimulação da eritropoiese medular e, portanto, aumentar a massa circulante de eritrócitos, melhorar a anemia e reduzir a frequência de transfusões de sangue. O seu uso está definido apenas para certas formas de anemia, em que estudos clínicos demonstraram a sua eficácia. Não é, pois, uma panaceia miraculosa para o tratamento de qualquer anemia.

 

Algumas conclusões se podem extrair:

Anemia da insuficiência renal crónica. Em doentes com falência renal avançada, submetidos ou não a diálise, a anemia é uma constante. A terapêutica com eritropoietina resulta numa significativa elevação do hematócrito e da hemoglobina, cujos níveis baixos são índices quantitativos numéricos do grau de anemia. A resposta à eritropoietina demora cerca de 8 semanas e muitos doentes não necessitam de transfusões de eritrócitos, desde que se mantenha o tratamento. A dose usual recomendada é de 50 a 100 Unidades/Kg de peso corporal, 3 vezes por semana. A via subcutânea é mais eficaz do que a endovenosa, devido a uma superior farmacocinética. Anemia em doentes com SIDA. A anemia é uma complicação frequente do síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA). É particularmente frequente em doentes tratados com zidovudine (AZT), um dos fármacos mais eficazes no controlo da doença, devido à sua acção mielosupressiva. A administração de eritropoietina resulta numa subida do hematócrito ao fim de 8 semanas, numa redução do número de transfusões sanguíneas e numa sensação melhorada de bem-estar.

 

Anemia das doenças malignas. Doentes com cancro ou doenças malignas hematológicas (por exemplo, linfoma, mieloma múltiplo, leucemias) sofrem com frequência de anemias de causas multifactoriais. Uma delas é uma resposta inadequada à eritropoietina endógena, produzida nos rins. A quimioterapia é um outro factor adjuvante, devido ao efeito mielotóxico sobre a eritropoiese medular.

 

Estudos evidenciam um efeito benéfico da eritropoietina sobre a anemia destes doentes, com redução da necessidade de transfusões sanguíneas, particularmente em doentes submetidos a quimioterapia ou com infiltração da medula óssea por células malignas. A dose usual é de 10.000 unidades, 3 vezes por semana, ou 40.000 unidades/semana.

 

Doenças da medula óssea. Doenças primárias da medula óssea (por exemplo, anemia aplástica, síndromes mielodisplásticos ou mieloproliferativos) acompanham-se com frequência de anemia. Os resultados do uso de eritropoietina nestes casos têm sido decepcionantes e o seu uso não está indicado a não ser em ensaios clínicos de investigação. Doação de sangue autólogo. É uma prática comum antes de intervenções cirúrgicas electivas em que se antecipa a necessidade de um grande número de transfusões sanguíneas (por exemplo, cirurgia cardíaca, transplantes hepáticos). Consiste em que, meses antes da operação, os próprios doentes sejam os dadores do seu sangue que é, em seguida, congelado e reinfundido no doente durante ou após a intervenção cirúrgica. Há evidência de que a administração de eritropoietina antes da doação do sangue autólogo promove um aumento do número de unidades de sangue doadas pelo doente.

 

Efeitos adversos A terapêutica com eritropoietina está associada a alguns efeitos adversos, nomeadamente: hipertensão diastólica (33% dos doentes), devido ao aumento do volume sanguíneo; deficiência de ferro (50% dos doentes), secundária ao uso excessivo de ferro, que requer suplementos terapêuticos de ferro; convulsões (5% dos doentes).

 

 

Conclusões

Algumas conclusões se podem extrair do uso clínico de eritropoietina. A eritropoietina é uma citoquina útil no tratamento de certas formas de anemia moderada a severa. O seu uso reduz significativamente a frequência de transfusões de eritrócitos e, portanto, as complicações daí resultantes (por exemplo, reacções alérgicas, reacções hemolíticas, febre e transmissão de doenças infecciosas, como os vírus das hepatites B e C, HIV, citomegalovírus). O tratamento com eritropoietina é ambulatório, pode ser administrado em casa do doente, e é mais barato do que o uso frequente de transfusões de sangue. Há evidências que sugerem que a utilidade da eritropoietina é particularmente importante em doentes que têm níveis plasmáticos no pré-tratamento de eritropoietina inferiores a 500 unidades/L. Doentes com níveis superiores a 500 unidades/L não beneficiam do tratamento. Isto deve-se ao facto de os níveis de eritropoietina superiores a 500 unidades/L significarem que a medula óssea já está maximamente estimulada e que, portanto, não responderá a doses farmacológicas adicionais de eritropoietina. É, pois, importante fazer a determinação dos níveis de eritropoietina antes do início do tratamento. Como toda a medalha tem um reverso, o uso de eritropoietina em indivíduos normais, sem anemia, no sentido de aumentar a massa total de glóbulos vermelhos e, portanto, a capacidade de transporte de oxigénio e a oxigenação dos tecidos (por exemplo, pulmões, coração, músculos), tem sido indevidamente utilizado para extrair dividendos competitivos, em desportos como o ciclismo, halterofilismo, atletismo e outros. A eritropoietina pode aumentar o hematócrito para valores acima de 60. Nestas circunstâncias, o sangue torna-se espesso, circula mais lentamente nos vasos sanguíneos e existe o perigo potencial de formação de coágulos de sangue e consequentes tromboses e embolias, associadas a significativa morbilidade e mortalidade. O seu uso neste contexto deve, pois, ser condenado.

 

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologia - 07-Nov-2001



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