Eczema atópico

Artigo de:

Dr. Miguel Taveira - Dermatologista - 20-Abr-2001

  |  Partilhar:

O que é?

É um tipo de eczema caracterizado por se manifestar em indivíduos com predisposição individual ou familiar para o “estado atópico” ou “atopia”, na forma de asma, rinite vasomotora ou conjuntivite alérgica.

 

Quem é mais atingido?

A doença inicia-se por volta dos 4 a 6 meses de idade em 75% dos casos, constituindo a dermatose mais prevalente na infância, cifrando-se em 10-15% neste escalão etário, podendo nos países nórdicos e no Reino Unido atingir cerca de 20 a 23 % da população jovem. Durante a infância e adolescência, os rapazes são mais atingidos, invertendo-se a tendência na idade adulta.

 

Quais são as causas?

O eczema atópico constitui manifestação de susceptibilidade cutânea exagerada, a qual resulta de factores constitucionais alérgicos do tipo de hipersensibilidade imediata e retardada a ácaros, pólen, e alguns alimentos.

 

Existe uma predisposição genética para a dermite atópica, havendo uma probabilidade de 70% de uma criança cujos progenitores manifestam a doença ser também atópica, descendo para 30% no caso de apenas um dos pais a manifestar.

 

No desencadear dos surtos de eczema atópico intervêm com frequência diversos estímulos, nomeadamente o stress psíquico, os traumatismos locais de natureza física e química (acto de coçar, contacto de lã e fibras sintéticas, cosméticos e perfumes), a exposição ao pó doméstico proveniente de alcatifas e brinquedos, condições climáticas extremas (ar muito seco ou demasiadamente húmido) e as infecções cutâneas ou sistémicas.

 

Como prevenir?

A prevenção dos surtos da dermite atópica inclui a evicção dos factores desencadeantes acima referidos, incluindo suporte emocional, uso de roupa de algodão, a manutenção de um ambiente doméstico relativamente seco, bem ventilado, com temperaturas de 18-20C°uso de substâncias acaricidas, disponíveis em spray. Recomenda-se ainda a evicção de certos alimentos - chocolate, bacalhau, conservas, frutos secos e, nos primeiros 12 meses de vida, também a clara de ovo.

 

Como se manifesta a doença?

Os factores dominantes do perfil clínico são o prurido, por vezes com acentuação nocturna e sempre presente, bem as lesões eritematosas, por vezes descamativas ou liquenificadas, localizadas inicialmente à face, predominando nas regiões malares. Por volta dos 18-20 meses as lesões tendem a ficar circunscritas característicamente às pálpebras e nuca, aos punhos, pregas dos cotovelos e cavados poplíteos.

 

No adulto apresentam topografia semelhante, atingindo também as virilhas, os orgãos genitais externos e o contorno peri-anal. As áreas atingidas apresentam-se secas, a pele pigmenta-se, com acentuação da textura normal da superfície cutânea – liquenificação.

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é essencialmente clínico, apoiando-se na história familiar e pessoal na pequisa de antecedentes atópicos (asma, rinite e eczema); no perfil evolutivo da doença e na topografia das lesões, a simetria e o acantonamento das mesmas e finalmente, no tipo de pele e sua reactividade particular.

 

Os estigmas atópicos, ou critérios minor, para o diagnóstico incluem a palidez e tendência para a vasoconstrição mediante a estimulação física por atrito, a xerose, a existência de dupla prega palpebral, o reforço das pregas palmares e plantares e a intolerãncia à lã e fibras sintéticas quando em contacto directo com a pele.

 

Os exames complementares de diagnóstico podem também ser utilizados para melhor documentar o quadro clínico e incluem a realização de testes cutâneos mediante picada, para testar reacções de hipersensibilidade imediata a ácaros, pólen, látex e alimentos, bem como a pesquisa no soro de anticorpos específicos (IgE) para esses alergéneos.
 

O diagnóstico diferencial faz-se fundamentalmente com a dermite seborreica, da qual se distingue pelo prurido muito mais acentuado e pelo perfil evolutivo das lesões.

 

Qual o tratamento?

A terapêutica visa essencialmente eliminar o prurido e actuar sobre a inflamação. Os anti-histamínicos por via oral, de preferência com acção sedativa, associados aos corticosteróides de potência intermédia por via tópica, em creme, pomada ou loção constituem a pedra angular da terapêutica.

 

Em fase aguda e difusa do eczema, com intenso componente exsudativo, é recomendável a corticoterapia sistémica, não obstante os seus efeitos colaterais, e, mais recentemente de ciclosporina – A, um agente imunossupressor, administrado por via oral durante 8 a 12 semanas, o qual parece diminuir de forma significativa a frequência e severidade dos surtos, exigindo no entanto cuidadosa monitorização clínica e laboratorial.

 

Em fase de acalmia clínica, devem ser usados regularmente produtos de limpeza e cosmética dermatológica para pele seca, constituídos por ureia e lactato de amónio em concentrações variáveis, bem como por ácidos gordos insaturados g-linoleico e ceramidas. A radiação ultra-violeta, mediante a exposição solar ou efectuada em cabines adaptadas a esse efeito, tem também indicação terapêutica.

 

Qual o prognóstico?

Em cerca de 60% a 75% dos casos verifica-se a remissão da sintomatologia do eczema atópico por volta dos 13- 14 anos de idade, apesar de 20% dos doentes com eczema atópico poderem manifestar a doença, ou alguns dos seus estigmas, durante a idade adulta. De referir que a asma brônquica se associa ao eczema atópico em 30 a 40% dos casos.

 

 

 

Artigo de:

Dr. Miguel Taveira - Dermatologista - 20-Abr-2001



Partilhar: