Dislipidemia

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 30-Set-2009

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O que é?

O termo “dislipidemia” utiliza-se para descrever alterações, isoladas ou combinadas, nos níveis de determinadas gorduras do sangue. Estas gorduras influenciam o risco cardiovascular de cada indivíduo e podem favorecer o desenvolvimento dos processos de aterosclerose, acelerando o aparecimento de doenças do coração e cerebrovasculares.
 

Incluem-se neste grupo as elevações dos valores de colesterol total, de colesterol LDL e de triglicerídeos, bem como a diminuição dos níveis de colesterol HDL.
 

As vantagens que resultam do reconhecimento e do tratamento destas alterações relacionam-se com a situação clínica específica de cada indivíduo, com a presença de outros factores de risco e com os benefícios que decorram do seu tratamento. Podem, por isso, definir-se diferentes valores “alvo” e diferentes estratégias de intervenção para diferentes pessoas, o que obriga a relativizar os valores de referência standard para estes parâmetros.

 

Factores de risco

A dislipidemia pode resultar de causas genéticas – também denominadas “primárias” – ou de causas secundárias. Estas últimas explicam a larga maioria das situações, especialmente nos adultos, embora seja necessário ressaltar a importante interacção de factores ambientais com factores genéticos e familiares.
 

O estilo de vida sedentário e um padrão nutricional irregular, com ingestão excessiva de gorduras, nomeadamente saturadas, constituem os factores de risco mais importantes para o desenvolvimento de dislipidemia secundária nos países ditos “ocidentais”. Estas circunstâncias estão também subjacentes ao desenvolvimento de obesidade e de diabetes mellitus, esta última, uma outra causa, cada vez mais importante, de dislipidemia.
 

A nutrição hipercalórica, a ingestão excessiva de álcool, a utilização de alguns medicamentos, como corticóides, ou algumas hormonas e outras doenças, como por exemplo do rim, do fígado ou da tiróide, podem também favorecer o aparecimento de dislipidemias.

 

Sinais e sintomas

A dislipidemia pode cursar de forma silenciosa, isto é, sem que seja fácil detectar precocemente as manifestações específicas de doença. Podem, nestes casos, diagnosticar-se mais tarde os sinais e sintomas das patologias para as quais ela pode contribuir de forma significativa: as doenças cárdio e cerebrovasculares. Incluem-se aqui os sintomas e sinais de doença coronária – como a angina de peito ou o enfarte do miocárdio; os que podem resultar de um acidente vascular cerebral ou de outras doenças vasculares, como o aneurisma da aorta ou a isquemia arterial dos membros.
 

O colesterol elevado pode favorecer a acumulação de depósitos de gordura nas pálpebras ou nos tendões, os denominados “xantelasmas” e ” xantomas tendinosos”, respectivamente.
 

A hipertrigliceridemia severa pode promover o aparecimento destes xantomas em múltiplos e diferentes locais do corpo ou conferir aos vasos que se observam na retina do nosso olho um aspecto cremoso, a que se denomina “lipemia retinalis”. Uma das complicações clássicas da hipertrigliceridemia severa é a ocorrência de pancreatite aguda, uma doença grave, com grande letalidade.
 

Os níveis muito altos de gordura no sangue podem ainda dar ao plasma do sangue um aspecto macroscópico leitoso.

 

Diagnóstico

O diagnóstico de dislipidemia é feito através da medição, no plasma sanguíneo, dos níveis de triglicerídeos e dos diferentes tipos de colesterol. Estes doseamentos devem efectuar-se em jejum para maximizar o seu rigor.
 

Os sinais que caracterizam a dislipidemia ou a presença das suas complicações podem fornecer uma primeira pista para o diagnóstico. Podem, nestes casos, ser importantes a história pessoal ou familiar de aterosclerose precoce – por exemplo, a existência de doença cardíaca coronária antes dos 55 anos no homem ou 65 anos na mulher.
 

Como a dislipidemia pode cursar de forma silenciosa, é importante despistá-la logo no início da idade adulta e ir repetindo estas medições de forma regular ao longo da vida. Deve enquadrar-se esta avaliação no contexto da presença de outros factores de risco cardiovascular como o tabagismo, a hipertensão, a diabetes ou a obesidade.
 

Nalgumas situações particulares, pode equacionar-se a utilização de outros testes – como o doseamento da lipoproteína a, a proteína c reactiva ou a homocisteína – que permitem refinar com maior detalhe o risco de cada indivíduo.
 

Nas pessoas a quem se diagnostica uma dislipidemia deve sistematicamente procurar-se a presença de doenças que a possam explicar ou de outros factores de risco que possam agravá-la, realizando para tal os testes que, em cada situação concreta, se revelem mais adequados.

 

Tratamento

O tratamento da dislipidemia deve passar por uma avaliação cuidadosa e integrada do risco cardiovascular total de cada indivíduo, procurando também corrigir todos os outros factores modificáveis entretanto identificados, como, por exemplo o tabagismo, a obesidade ou a hipertensão.
 

O objectivo geral da avaliação é o de introduzir modificações favoráveis no estilo de vida, promovendo o aumento da actividade física regular, optimizando o padrão nutricional e contribuindo para a manutenção do peso ideal. Muitos destes benefícios passam pela regularização do padrão de ingestão alimentar ao longo do dia; pela diminuição da ingestão de gorduras, álcool e açúcares; e pelo aumento da percentagem de fibras, anti-oxidantes e hidratos de carbono de absorção lenta na dieta.
 

O tratamento farmacológico específico está indicado para todos os que já apresentem doença cardiovascular e para alguns que, ainda não a tendo, possam nele encontrar redução substancial do seu risco. Estas situações devem ser discutidas, caso a caso, com o médico assistente, na sequência da avaliação integrada atrás referida.
 

Podem neste contexto ser utilizados muitos fármacos, tendo nos últimos anos adquirido particular importância o grupo das “estatinas”. Estes medicamentos interferem favoravelmente com a regulação do metabolismo das gorduras e apresentam um importante efeito anti-inflamatório, o que, por certo, contribui para o extraordinário impacto na diminuição da mortalidade cardiovascular que se lhes vem associando.

Artigo de:

Dr. Filipe Basto - Internista - 30-Set-2009



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