Diabetes insípida

Artigo de:

Dr. Jorge Dores - Endocrinologista - 27-Mai-2009

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O que é?

A Diabetes Insípida (DI) é uma doença caracterizada por um aumento do débito urinário, sede e ingestão excessiva de líquidos. Esta doença surge devido a uma deficiente produção de uma hormona pelo lobo posterior da hipófise (hormona antidiurética ou vasopressina) ou devido a uma redução da eficácia da sua acção a nível do rim, levando a uma incapacidade de concentrar a urina.

 

A DI não é sinónimo de uma doença muito mais frequente, a diabetes mellitus. Assemelham-se pelo facto de se manifestarem por urinar e beber em excesso, mas as causas e o tratamento são completamente distintos. A primeira é também conhecida como “diabetes aquosa” porque a urina parece água e a segunda, como “diabetes açucarada” porque a urina é doce.

 

Causas

A DI é dividida em quatro tipos, de acordo com a sua causa, tendo, consequentemente, tratamento e prognóstico diferentes.
 

A DI central ou neurogénica é o tipo mais comum e é causada pela deficiente produção de vasopressina, por destruição do lobo posterior da hipófise (tumores, cirurgia da hipófise, infecções, traumatismos cranianos, doenças infiltrativas e defeitos hereditários). Muitas vezes a causa é desconhecida (idiopática). Ocasionalmente, a DI de causa hipofisária pode estar associada a outras anomalias da secreção hormonal hipofisária, sendo necessária a sua exclusão.
 

A DI gestacional pode, por vezes, surgir por insuficiente secreção de vasopressina durante a gravidez, sobretudo se houver alguma lesão hipofisária ligeira ou se a vasopressina sofrer uma metabolização demasiado rápida pela placenta. Esta insuficiência desaparece, geralmente, dentro de 4 a 6 semanas após o parto, podendo reaparecer em gravidezes subsequentes.
 

A DI nefrogénica surge por incapacidade de resposta dos rins ao efeito “anti-diurético” da vasopressina. Surge como consequência do uso de determinados medicamentos (lítio, anfotericina B), doenças renais (rim poliquístico) ou defeitos genéticos hereditários.
 

A polidipsia primária ou DI dipsogénica é causada por uma anomalia do centro regulador da sede. É difícil distingui-la da DI neurogénica, uma vez que estes 2 tipos podem resultar do mesmo tipo de lesão cerebral. Na DI dipsogénica a terapêutica com vasopressina também reduz o débito urinário mas, contrariamente à DI neurogénica, não elimina completamente a sede e a ingestão excessiva de líquidos, podendo originar uma intoxicação pela água e baixa de sódio no sangue (hiponatrémia). Outro subtipo de polidipsia primária pode surgir não por anormal percepção do mecanismo da sede mas por causas psicossomáticas, sendo também conhecida como polidipsia psicogénica ou potomania.

 

Sinais e sintomas

Os sintomas clássicos da DI são a sede excessiva, com ingestão de líquidos em grande quantidade para repor o que se perde pela urina. Os doentes chegam a urinar 5 a 20 litros por dia. Este grande débito urinário leva a que o doente tenha que se levantar muitas vezes durante a noite, impedindo um sono reparador. Por vezes, surge a enurese (micção involuntária nocturna, enquanto se está a dormir).
 

Se existirem deficiências hormonais hipofisárias concomitantes, podem surgir outros sinais clínicos como o cansaço fácil, o desaparecimento precoce da menstruação (amenorreia), diminuição da libido e potência, perda generalizada dos pêlos, palidez ou sintomas de hipoglicemia.
 

Não há excesso de glicose no sangue e não há glicose na urina, o que a diferencia da diabetes mellitus.
 

Se o doente perde o acesso fácil à água, não há a reposição conveniente dos líquidos perdidos e surgem sinais de desidratação com sódio elevado no sangue (hipernatrémia). O doente nesta situação apresenta-se letárgico, com depressão do estado de consciência, a pele é seca e pregueável, as mucosas também estão secas e as tensões arteriais baixas.

 

Diagnósticos

O diagnóstico da DI é baseado na colheita da história clínica do doente, dando especial ênfase ao uso de certos medicamentos e à história familiar (muitas vezes, a doença é hereditária).
 

Os exames complementares são solicitados não só com o objectivo de confirmar o diagnóstico da DI, mas sobretudo também para saber qual a sua causa.
 

Recorre-se habitualmente ao doseamento dos electrólitos do sangue e ao cálculo da osmolaridade, bem como à osmolaridade urinária.
 

O teste diagnóstico utilizado chama-se “Teste de privação da água”. Este teste consiste numa monitorização rigorosa, sob supervisão de um médico familiarizado com esta prova, da evolução do peso do doente e da concentração de iões (osmolaridade) no sangue e na urina, após a suspensão da ingestão de líquidos durante algumas horas e a resposta destes parâmetros a uma injecção da hormona vasopressina.
 

Os meios de imagem como a TAC ou ressonância magnética cerebral podem identificar alguma alteração estrutural que justifique a DI.

 

Tratamentos

O tratamento da DI deverá ser efectuado em função da causa. Quando esta é provocada por medicamentos, o tratamento passa pela sua suspensão ou substituição.
 

Perante uma DI central (neurogénica), o tratamento apropriado é a forma sintética da vasopressina conhecida como DDAVP. Pode ser administrada sob a forma injectável, spray nasal ou comprimidos. A dose e a frequência de administração são ditadas pelo controlo do débito urinário e da sede.
 

O tratamento com DDAVP, em regra, não deverá ser efectuado em doentes com DI dipsogénica visto que, por persistência da ingestão de líquidos, pode surgir a intoxicação pela água, com hiponatrémia. Deverá ser restringida dentro do possível a ingestão excessiva de líquidos. A DDAVP poderá estar indicada ao deitar, para reduzir a frequência das micções nocturnas.
 

Em doentes com DI nefrogénica, o tratamento com DDAVP não é eficaz porque há uma resistência à sua acção. Se a causa da DI não pode ser eliminada, os sinais e sintomas podem ser aliviados através da redução do sal na dieta e da administração de certos diuréticos que têm um efeito antidiurético paradoxal nesta doença.

 

Prognóstico

O prognóstico da DI é excelente, desde que o doente cumpra a medicação e as indicações fornecidas pelos profissionais de saúde que o tratam. Poderão surgir intercorrências agudas se o doente perder o acesso à ingestão de líquidos, pelo que deverá trazer sempre consigo algo que indique que é portador desta doença (cartão, pulseira), para situações que cursem com obnubilação ou perda de consciência.
 

Por vezes, o prognóstico da diabetes insípida poderá ser mais reservado, não devido à DI per se mas devido à causa que a originou (por exemplo, doenças cancerosas infiltrativas).

 

 

 

Artigo de:

Dr. Jorge Dores - Endocrinologista - 27-Mai-2009



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