Cancro e radiações ionizantes

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 01-Ago-2002

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Existe considerável informação científica sobre a relação cancro-radiações ionizantes (XRTs). XRTs é uma forma de energia que inclui o grupo das radiações electromagnéticas de baixo comprimento de onda e alta frequência, como os raios X, classicamente usados como técnica de diagnóstico radiológico, e a radiação gama, usada no tratamento de radioterapia das doenças malignas.

 

Outras radiações classicamente consideradas corpusculares, embora tenham associado um componente ondulatório, incluem a radiação alfa (núcleos de átomos de hélio constituídos por dois protões e dois neutrões ) e os raios beta, que são feixes de electrões. XRTs são agentes carcinogénicos e mutagénicos, que interactuam com o ADN nuclear e causam mutações genéticas e anomalias cromossómicas que têm um papel fundamental na génese das doenças malignas.

 

Muitos dados empíricos foram obtidos através de observações sobre o efeito da exposição prolongada a doses baixas de radiações em radiologistas, sobre os sobreviventes das bombas atómicas no Japão, e sobre doentes que recebem radioterapia para tratamento de cancros ( e.g., cervix uterina ) e doenças benignas ( e.g., pelvispondilite anquilosante ).

 

O risco parece maior se uma dose de radiação é acumulada durante um curto intervalo de tempo do que durante longos períodos. Não existem muitos dados firmes sobre os riscos de pequenas doses de radiação usadas com fins diagnósticos, com excepção de um aumento de 50% em leucemias e outros cancros das crianças associados com exposições pré-natais do feto. Em termos gerais, o cancro radiogénico é pouco frequente, e é responsável por menos de 30 cancros por milhão de pessoas por ano.

 

Cerca de 5% de todas as mortes por cancro podem ser atribuídas às XRTs, embora esta percentagem possa ser de facto um pouco maior se se confirmarem certas recentes estimativas sobre o risco de cancro do pulmão associado a níveis atmosféricos de um gás radioactivo natural - o rádon, que é um produto da desintegração radioactiva do urânio - nas habitações, devido a emanações de rádon emitidas por depósitos de urânio no solo.

 

Estudos de mineiros que trabalham no subsolo expostos a doses relativamente elevadas de radiação alfa mostram um aumento do risco de cancro do pulmão, mesmo a níveis que podem ser atingidos através de uma exposição prolongada nas habitações. Estudos estatísticos ( case-control ) estão em curso, relacionando o cancro do pulmão com medições cuidadosas dos níveis habitacionais de rádon. Estima-se que acima de 2% das casas nos EUA têm níveis de rádon que são 8 vezes o valor normal. O risco correspondente de cancro do pulmão é de um factor 4, particularmente em fumadores. Em áreas onde o rádon é detectável, o risco é maior em pessoas que vivem perto do solo. O rádon é quimicamente inerte, mas tem sido identificado no tabaco.

 

Quase todos os departamentos do organismo são vulneráveis aos efeitos carcinogénicos da radiação, mas os tecidos mais rádiosensíveis são a medula óssea, glândulas mamárias e tiróide. Existem certos padrões de risco bem definidos. Por exemplo, o risco de leucemias induzidas por XRTs começa 2-4 anos após a exposição, tem um pico de incidência aos 6-8 anos, e declina para valores normais no espaço de 25 anos.

 

Em contraste, carcinomas radiogénicos têm um período latente mínimo de 5-10 anos, e uma distribuição temporal que é semelhante à natural curva de incidência dos carcinomas em função da idade, o que sugere a influência de outros factores actuando num estádio mais tardio da carcinogénese. Exposições no útero, durante a infância ou em mulheres jovens resultam num risco maior de doenças malignas hematológicas ( e.g., leucemias ), da tiróide e das glândulas mamárias. Existe alguma preocupação com o uso em larga escala da mamografia, que é uma excelente técnica de diagnóstico precoce ( " screening" ) do cancro da mama.

 

Embora exista uma curva relativamente linear de dose-resposta em relação ao cancro da mama, o efeito das XRTs é mais pronunciado em mulheres jovens e não é evidente nas mulheres que foram expostas após a idade de 40 anos, o que é tranquilizador, já que as indicações para o despiste do cancro da mama pela mamografia começam em geral aos 40 anos em mulheres de alto risco e aos 50 anos na população feminina em geral. Os efeitos carcinogénicos dos campos electromagnéticos devidos aos aparelhos eléctricos nas casas ( e.g., televisões, écrans de computadores, telefones celulares ) e linhas de alta tensão continuam a ser especulativos e controversos.

 

Os estudos existentes dão resultados conflituosos. Estudos ocupacionais sugerem um risco aumentado de leucemia aguda mielóide e gliomas em electricistas, mas os resultados não são conclusivos. Até à data, não existe evidência de risco excessivo de doenças malignas em indivíduos submetidos a ressonâncias nucleares magnéticas ( MRI ) ou tomografias axiais computorizadas ( TAC ). As novas técnicas radiológicas, aplicando tecnologias de ponta, minimizam o risco de cancro associado aos testes diagnósticos de imagem.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 01-Ago-2002



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