Cancro do rim

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 30-Abr-2001

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O que é?

O cancro dos rins é uma neoplasia maligna que afecta as células dos túbulos renais, levando a um crescimento anárquico e desorganizado dessas células, com compromisso da função renal e, em casos avançados, invasão de outros órgãos distantes. Patologicamente, a maior parte dos cancros do rim são adenocarcinomas. O carcinoma de células de transição da pelvis renal é o segundo em frequência. Sarcomas e linfomas são raros.

 

Quem é mais atingido?

O cancro renal constitui 2% de todas as doenças malignas. A incidência aumentou lentamente durante a última década. Os homens são duas vezes mais afectados do que as mulheres. A doença é rara antes dos 40 anos de idade. A mais alta incidência encontra-se nos países ricos da Europa do Norte e América do Norte.

 

Quais são as causas?

A causa do cancro dos rins é desconhecida. No entanto, existem factores associados a um risco aumentado de cancro renal: o tabaco (cigarros, charutos e cachimbo), uma história familiar de cancro do rim e a exposição ao thorotrast, um agente de contraste radiográfico usado no passado. Os factores genéticos raramente têm um papel relevante, com excepção do síndroma de von Hippel-Lindau, que é uma doença hereditária rara, de transmissão autossómica dominante, caracterizada pela presença de hemangioblastomas do cerebelo e retina, e que tem uma incidência até 25% de cancro dos rins.

 

Como prevenir?

Não existe nenhum método de prevenção do cancro dos rins, já que as suas causas são desconhecidas. De igual modo, não existe nenhum método efectivo de diagnóstico precoce que seja barato, sensível e específico, e que possa ser fácilmente aplicado a um grande número de indivíduos em risco.

 

Como se manifesta?

O sintoma mais frequente é a hematúria (sangue na urina), e está presente em 50% dos doentes. Uma dor persistente e surda nos flancos, e a presença de uma massa abdominal palpável são, também, queixas frequentes. A perda de peso é outro sinal frequente, em 30% dos doentes. A tríada clássica de hematúria, dor no flanco e massa palpável ocorre apenas em 10-15% dos doentes. Em 10 a 25% dos casos, os sintomas representam doença metastática disseminada, envolvendo o fígado, pulmões, ossos ou cérebro. Em alguns casos, a doença é assintomática e é detectada ocasionalmente no decurso de um exame médico de rotina ou através da avaliação de hematúria microscópica. Os sinais mais frequentes no exame físico incluem uma massa palpável no flanco (50% dos casos), febre (20% dos casos), e palidez devido a uma anemia (40% dos doentes).

 

Qual é a evolução?

A sobrevivência depende do estado evolutivo da doença. Cerca de 30% dos doentes têm um tumor confinado aos rins. A ressecção radical do rim afectado (nefrectomia) produz uma sobrevivência, ao fim de 5 anos, de 65-70%. Outros 30% apresentam-se com doença localmente avançada, mas não metastática. A taxa de sobrevivência desce para valores entre 20% e 50%. Finalmente, 25 a 33% dos doentes têm doença disseminada a outros órgãos distantes (doença metastática). O prognóstico é grave e a sobrevivência média é de apenas 6 meses. No entanto, em alguns doentes, o cancro tem um curso marcadamente indolente e, em certas séries, 10% dos doentes podem estar vivos, 5 anos após a detecção das metástases. Os sítios metastáticos mais frequentes são os gânglios linfáticos, pulmões, ossos, glândulas supra-renais, fígado, o rim oposto e o cérebro. Recorrências tardias, mais de 10 anos após a ressecção cirúrgica primária, ocorrem em cerca de 10% dos doentes, sugerindo a presença de células tumorais de crescimento extremamente lento, ou a presença de factores imunitários que são capazes de controlar a doença por longos períodos. Muito raramente, têm sido descritos alguns casos bem documentados de regressão espontânea do cancro do rim, sem tratamento, ou de regressão de lesões metastáticas após ressecção do tumor primário. O mecanismo é desconhecido. Infelizmente, na grande maioria dos casos, a presença de metástases implica a progressão inexorável da doença, independentemente de intervenções terapêuticas activas.

 

Como é feito o diagnóstico?

Um teste simples e económico para avaliação inicial de hematúria ou outros sintomas sugestivos é a pielografia endovenosa, que pode demonstrar uma massa renal ou distorção da silhueta renal. A tomografia axial computorizada - TAC -, a ultrasonografia ou a ressonância nuclear magnética são exames mais sensíveis que permitem uma melhor definição de anomalias renais. A confirmação definitiva, que se torna imperioso obter, consiste na remoção de um fragmento de tecido para exame histológico (biópsia ou peça cirúrgica).

 

Como tratar?

A unica terapêutica curativa é a ressecção cirúrgica completa de um cancro renal localizado, através de uma nefrectomia radical. Em geral, a presença de metástases em órgãos distantes contraindica a ressecção cirúrgica do tumor primário. No entanto, ocasionalmente, consegue-se uma sobrevivência prolongada após nefrectomia e ressecção cirúrgica de metástases solitárias, em doentes com um bom estado geral. Recorrências solitárias, muitos anos após uma nefrectomia, devem também ser removidas cirúrgicamente, o que pode assegurar um sobrevivência prolongada. A radioterapia tem um papel menor na cura desta doença. No entanto, é uma boa técnica paliativa que permite o alívio de sintomas, em casos de metástases ósseas ou cerebrais. A hormonoterapia e a quimioterapia não são eficazes nesta doença. As respostas são parciais, de curta duração e a taxa de sobrevivência não é afectada. Recentemente, terapêuticas biológicas têm sido investigadas, incluindo estudos com a Interleukina-2 (IL-2) e altas doses de Interferon alfa, com respostas, em regra, apenas parciais numa pequena percentagem de doentes. Devido a estes fracos resultados, aconselha-se a entrada de doentes com cancro do rim metastático em protocolos de investigação clínica, que permitem testar novas drogas. Todos os doentes com cancro dos rins devem ser referidos a Departamentos de Oncologia para avaliação e discussão da terapêutica óptima.

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 30-Abr-2001



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