Cancro da próstata

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Fev-2002

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Revisto por:

Dr. Filipe Basto - Internista - 27-Jul-2009

O que é e qual a sua importância 

A próstata é uma glândula do aparelho genito-urinário masculino que se localiza anteriormente ao recto e sob a bexiga, local onde envolve a parte inicial da uretra – o canal que permite ao homem o seu fluxo habitual de urina e também a ejaculação.

 

A próstata cresce e desenvolve-se com a idade pelo efeito das hormonas sexuais masculinas, apresentando no adulto o tamanho aproximado de uma noz.
 

Depois dos 50 anos este crescimento, fisiológico, pode condicionar alguma compressão da uretra, originando os sintomas urinários que caracterizam a hiperplasia benigna da próstata (HBP) e se associam ao envelhecimento.
 

Nalgumas circunstâncias, contudo, pode existir um “grupo” de células prostáticas que começa, ao contrário do que seria normal, a crescer e a dividir-se de forma mais rápida e descontrolada. Este processo, ocupa e destrói o espaço das células normais que lhe estão adjacentes, acabando por invadir, directa ou indirectamente - através do sangue ou dos gânglios linfáticos, outros locais no corpo, mais ou menos distantes.
 

Estamos, neste caso, a falar do cancro da próstata.
 

Esta é uma doença muito temida. É o cancro mais frequente e a segunda causa de morte por cancro no homem. Para além disso, o seu tratamento apresenta importantes efeitos laterais, como a incontinência urinária, a disfunção eréctil ou as alterações do trânsito intestinal.

 

Factores de risco 

Os mecanismos que levam ao aparecimento do cancro da próstata não estão completamente esclarecidos, mas acredita-se que resultem de influências entre a herança genética de cada indivíduo e a interacção desses factores com causas ambientais.

 

A idade é o factor de risco mais importante, em especial a partir dos 50 anos, com a maioria dos diagnósticos a serem feitos depois dos 65 anos.
 

Os níveis altos de testosterona ou o tratamento com esta hormona podem também condicionar risco acrescido.
 

Por razões que não estão ainda esclarecidas, este tumor é muito mais comum em países da América do Norte e da Europa Ocidental (e nestes, nos indivíduos negros) do que, por exemplo na Ásia, África ou América do Sul.
 

A história familiar é também muito importante, em especial se o diagnóstico da doença é feito em idades jovens e em múltiplos parentes directos. Esta relação parece reforçar a importância de um componente genético.
 

O papel da dieta, do exercício, do excesso de peso e da toma de alguns fármacos e, ainda, o papel de infecções ou inflamações prostáticas prévias no risco específico de cancro prostático ou na gravidade do seu curso são muito debatidos, mas as informações disponíveis ainda são pouco consistentes.
 

Os alimentos ricos em substâncias denominadas “licopenos”- como o tomate ou a melancia - representam uma área de especial interesse e investigação pelo relevo do seu efeito anti-oxidante na protecção do material genético (DNA) das células prostáticas.

 

Sinais e sintomas 

A evolução inicial do cancro da próstata é habitualmente silenciosa. Alguns tipos de tumor crescem tão lentamente que o seu diagnóstico nunca chega a ser feito ou sequer considerado durante toda a vida.

 

Há, contudo, situações em que a este curso insidioso se seguem manifestações causadas pela disseminação do tumor, num crescimento que ultrapassa os limites da própria glândula e condiciona sintomas e manifestações de doença à distância. Estes sintomas são sinal tardio do progresso da doença e prenunciam maior dificuldade no seu controlo.
 

A dificuldade em urinar, as micções frequentes durante a noite, a necessidade de interromper o jacto de urina durante a micção ou a diminuição da força do jacto de urina são sintomas mais comuns na HBP, mas podem traduzir, num número reduzido de casos, uma fase inicial de evolução do tumor. Não devem, por isso, ser menosprezados.
 

A estes sintomas pode juntar-se outros importantes sinais de alerta, como a presença de sangue na urina ou no sémen.
 

O envolvimento dos gânglios linfáticos regionais, numa fase mais adiantada da doença, pode condicionar edemas dos membros inferiores ou dor na região pélvica.
 

O aparecimento de impotência, de dores ou fracturas ósseas, da perda do controlo em urinar ou defecar ou mesmo a fraqueza ou adormecimento dos membros inferiores são sinais que podem prenunciar uma fase avançada e de generalização da doença.

 

Diagnóstico 

O diagnóstico de certeza implica colher, por biopsia, uma pequena amostra de tecido prostático, que, ao microscópio e com o auxílio de outras técnicas, permita identificar as células malignas e classificar o tumor de acordo com a sua agressividade e extensão. Esta avaliação é decisiva para delinear o tratamento indicado em cada caso.

 

O incómodo e desconforto desta biopsia e as implicações do diagnóstico de cancro da próstata obrigam a um adequado juízo clínico para o qual contribuem a história e o exame médico, bem como o esclarecimento de cada indivíduo acerca dos benefícios e implicações dos diferentes métodos diagnósticos e estratégias terapêuticas.
 

Para o diagnóstico é especialmente importante considerar:
 

-A presença de sinais e sintomas da doença, já atrás descritos. 

 

-As características e consistência da glândula prostática ao toque rectal ¿ a presença de irregularidades e a consistência pétrea da glândula sugerem a presença de cancro (o toque rectal é um exame médico, digital, que permite palpar a próstata através do recto). 

 

-Testes laboratoriais, como o PSA – “ Prostatic Specific Antigen”, uma substância produzida na próstata mas também encontrada no sangue e cuja elevação permite, de forma muito precoce, suspeitar de cancro da próstata.
 

A avaliação morfológica pormenorizada da próstata por ecografia transrectal.
 

Todos estes métodos podem concorrer para o diagnóstico precoce do cancro da próstata, e para uma maior probabilidade de sucesso no seu tratamento, mas são, infelizmente, falíveis. É, por isso, importante salientar que, em alguns casos, estas informações podem ser muito tardias e, noutros casos, não serem suficientemente precisas para evitar intervenções que procuram confirmar a existência de um tumor que afinal não existe.
 

Por outro lado, não permitem distinguir os tumores mais agressivos, em que o tratamento poderá ser mais útil, daqueles em que, pela lentidão da evolução do tumor, o tratamento não confere benefícios significativos, mas apenas contribui com efeitos laterais que limitam a qualidade de vida da pessoa em causa.
 

São, por isso, aceites algumas recomendações que ajudam a ultrapassar estes problemas. Em primeiro lugar, a imprescindibilidade do esclarecimento e da discussão prévia com o médico assistente. A conversa com o médico permite enquadrar as vantagens e inconvenientes das diversas intervenções, de acordo com a situação e as preferências de cada indivíduo e tendo em conta a história médica pessoal e familiar – que permite caracterizar os factores de risco pessoais, e a idade ¿ importante para relativizar as consequências futuras da doença.
 

Se a decisão é fazer o diagnóstico precoce, então, devem realizar-se, a partir dos 50 anos, um toque rectal e um doseamento de PSA, anuais. Este despiste tem valor para os indivíduos cuja esperança de vida seja de, pelo menos, 10 anos.
 

Em situações de maior risco, o despiste poderá ser antecipado para os 40 ou 45 anos.

 

Tratamento 

A terapêutica vai depender do tipo de tumor, da sua extensão, da idade do doente e das preferências de cada indivíduo. A heterogeneidade da história natural do cancro da próstata e os importantes efeitos laterais associados ao seu tratamento dão especial valor à máxima hipocrática de “primum non nocere”.

 

Há, por isso, circunstâncias em que se deve privilegiar, como alternativa a terapêuticas específicas do tumor, uma observação médica continuada e a abordagem integrada de problemas associados.
 

Os objectivos da terapêutica específica incluem o controlo da massa tumoral e do seu crescimento e a melhoria dos sintomas provocados pela doença no local e à distância.
 

Como o crescimento das células prostáticas é muito sensível às hormonas sexuais masculinas, um dos principais objectivos da terapêutica é o de diminuir a produção destas hormonas ou de antagonizar o seu efeito. Podem, para tal, utilizar-se diversos fármacos hormonais, no seu conjunto denominados de “hormonoterapia” e que incluem, entre outros, os estrogénios, os análogos de uma hormona hipotalâmica denominada LHRH (como o leuprolide ou goserelin) ou os antiandrogénios (como a flutamida). A cirurgia de castração ou orquiectomia bilateral (remoção de ambos os testículos) poderá ter efeitos semelhantes.
 

O método cirúrgico de eleição nas situações em que o controlo local da doença é ainda possível é a prostatectomia radical. Esta pode, por si só ou em combinação com a hormonoterapia ou a radioterapia (raios X de alta potência), condicionar um bom controlo da doença.
 

A radioterapia pode ser emitida a partir de uma fonte externa de radiações ou através da colocação de pequenas sementes radioactivas no próprio tecido prostático, uma técnica denominada de braquiterapia, e que parece promissora na maximização do efeito terapêutico local, minimizando os efeitos laterais nos tecidos adjacentes.
 

A quimioterapia está reservada para situações muito pontuais.
 

Todas estas medidas terapêuticas podem provocar efeitos laterais que vão desde a impotência e a incontinência urinária aos que resultam da destruição de outros tecidos vizinhos, como, por exemplo, o recto.
 

O grande objectivo é, por isso, o de individualizar as terapêuticas de forma a encontrar, para cada indivíduo, o tratamento mais eficaz no prolongamento e melhoria da qualidade de vida, minimizando os efeitos laterais associado.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Fev-2002

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Dr. Filipe Basto - Internista - 27-Jul-2009



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