Cancro da mama

Artigo de:

Dr Filipe Basto - Internista - 8-Abr-2009

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O que é e qual a sua importância


O cancro da mama é um tumor maligno – um cancro – que afecta sobretudo as mulheres e que, em Portugal, condiciona cerca de 4 500 novos casos por ano. É provavelmente a doença que as mulheres mais temem e este receio resulta da sua frequência, do impacto em termos de mortalidade – cerca de 1500 casos/ano – e das importantes implicações que o diagnóstico e o tratamento vão condicionar na mulher e no seu corpo.

 

Dito isto, é importante salientar que, nas últimas décadas, se vêm registando enormes avanços científicos e novas formas de organizar o combate a esta doença que permitiram, de forma significativa, aumentar a esperança de vida, reduzir a mortalidade e minorar o impacto da doença na vida da mulher.
 

Entre as contribuições mais decisivas encontram-se os avanços no diagnóstico precoce, a descoberta de novas armas terapêuticas e a utilização de diferentes técnicas cirúrgicas, mais conservadoras, que poupam a mama e evitam as complicações das cirurgias mais radicais.

 

Mas o que acontece, então, na mama para explicar o aparecimento de tal lesão?
 

Pode dizer-se que, a certa altura, há um “grupo” de células que começa, ao contrário do que seria normal, a crescer e a dividir-se de forma descontrolada, destruindo e ocupando o espaço das células normais que lhe são vizinhas e acabando por invadir, directa e indirectamente – por exemplo, através dos gânglios linfáticos –, outros locais do corpo, mais ou menos distantes.

 

Os mecanismos que permitem iniciar este processo não estão completamente esclarecidos, mas acredita-se que resultem de influências entre a herança genética de cada indivíduo e a interacção destes factores genéticos com causas ambientais.
 

Convêm, contudo, salientar que apenas 5-10% dos tumores da mama são consequência directa de uma herança genética.

 

Factores de risco
 

Por factores de risco entendem-se as características próprias de cada indivíduo que lhe condicionam uma maior probabilidade de desenvolver uma determinada doença.
 

De acordo com a possibilidade que temos de os corrigir ou influenciar, dividimo-los em dois grupos: os modificáveis e os não modificáveis.
 

Neste último grupo, encontramos os factores que mais influências podem ter no aparecimento da doença: o sexo feminino, a idade, a raça e a história pessoal ou familiar de cancro da mama. Podem aqui ser incluídos também o início precoce dos ciclos menstruais, a menopausa tardia, a ocorrência de uma primeira gravidez numa idade mais avançada e a exposição a alguns agentes tóxicos, como, por exemplo, a radiação. A utilização de hormonas anticoncepcionais ou de terapêuticas hormonais de substituição também pode, em especial se for mantida durante períodos prolongados, condicionar um risco acrescido de doença.
 

Nos factores modificáveis incluem-se características cujo peso relativo pode ser menos importante, mas cujo controlo pode ser mais fácil: o tabagismo, o excesso de peso, uma dieta desequilibrada ou o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
 

A presença de um ou de vários destes factores contribui para fazer crescer o risco de uma determinada pessoa desenvolver cancro da mama, mas não implica necessariamente esse desenvolvimento. Em boa verdade, a maior parte destes tumores ocorrem em pessoas em que é conhecido apenas um factor de risco: o de serem mulheres.
 

É, de qualquer forma, muito importante que a sua presença seja tida em conta nas estratégias de diagnóstico que se definem para cada mulher e que estes factores sejam, sempre que possível, corrigidos.

 

Sintomas
 

Vimos atrás que uma das grandes conquistas na luta contra o cancro da mama é o diagnóstico precoce, que nos garante uma maior probabilidade de cura e um maior leque de opções terapêuticas.
 

É por isso essencial conhecer os sinais de alerta para a doença e reconhecer os sintomas que se lhe associam.
 

O sinal mais importante e mais sensível é a presença de qualquer tipo de tumefacção, espessamento ou mudança na textura da mama, que não se relacione com as mudanças naturais que ocorrem com o ciclo menstrual ou com a gravidez.
 

Estas tumefacções podem (ou não!) ser acompanhadas de dor ou desconforto, motivo pelo qual só se tornam aparentes por acaso ou se a mama for regularmente observada através da auto-palpação dos seios.
 

Há alguns outros sinais que representam importantes pistas para o diagnóstico: qualquer tipo de escorrência mamária; a retracção da pele da mama ou do mamilo; ou as mudanças no tamanho, cor ou consistência da mama ou de partes da mama.
 

Embora muitas destas alterações possam ser benignas, só o médico poderá, com certeza, ajuizar da sua importância.

 

Testes e diagnóstico
 

Vimos que o diagnóstico precoce é um dos passos mais definitivos para um adequado controlo do cancro da mama.
 

Este diagnóstico pode mesmo ser feito antes que os sinais e os sintomas que atrás descrevemos se manifestem.
 

Os métodos mais comuns de diagnóstico inicial incluem a auto-palpação da mama, o exame clínico da mama feito pelo médico especialista, a mamografia e a ecografia mamária.

 

 

A auto-palpação pode ser feita mensalmente por cada mulher, constituindo-se como um primeiro passo para o diagnóstico de pequenas lesões que, de outra forma, passariam despercebidas. Esta observação deverá ser sempre complementada com uma adequada relação com o médico especialista e com o exame clínico mamário.

 

De acordo com os seus factores de risco e a sua idade mas, de uma maneira geral, a partir dos 40 anos, a mulher deve efectuar mamografias de rastreio, que permitem detectar lesões que podem não ser palpáveis ou aparentes. A utilização adicional da ecografia mamária pode, nalguns casos, ser muito útil para distinguir a natureza sólida ou quística destas lesões.
 

Estas técnicas de diagnóstico são também utilizadas para esclarecer qualquer lesão que a mulher ou o seu médico tenham encontrado.

 

Quando existem dúvidas, podem efectuar-se citologias aspirativas ou biopsias mamárias das lesões suspeitas. Pode, por vezes, ser importante utilizar outros métodos de diagnóstico complementar, como a ressonância magnética nuclear.

 

Caso o diagnóstico seja confirmado, é necessário realizar os exames complementares que caracterizem a extensão e atingimento provocado pela doença no organismo e alguns testes laboratoriais – por exemplo, a pesquisa de receptores hormonais ou determinados marcadores moleculares – importantes para distinguir os diferentes tipos de cancro da mama e permitir a individualização da terapêutica a seguir.

 

Tratamento

O tratamento do cancro da mama pode representar um enorme desafio para a mulher, não apenas pela ameaça que representa para a sua vida e a sua auto-estima, mas também pela complexidade e pela incerteza que podem associar-se às escolhas que é necessário efectuar.
 

A mulher deve, por isso, escolher um médico que possa acompanhá-la durante todo este processo, que possa ajudá-la a consultar os diferentes especialistas (relevantes para as escolhas que é necessário efectuar) e que possa encaminhá-la para grupos de apoio que a enquadrem numa experiência vivida da doença.
 

Os tratamentos podem ser muito diversos, de acordo com o tipo de tumor e a sua extensão. Incluem, de uma maneira geral, uma combinação entre cirurgia e outras modalidades terapêuticas como a quimioterapia, a radioterapia, a terapêutica hormonal ou as terapêuticas biológicas.
 

É importante salientar que a cirurgia é hoje muito menos radical, tentando preservar o máximo de tecido mamário e das estruturas adjacentes. Se, no caso concreto, for necessário efectuar uma mastectomia total, podem colocar-se hoje múltiplas opções em termos de reconstrução mamária.
 

Como o cancro da mama pode disseminar-se de forma preferencial para os gânglios linfáticos na axila, é hoje habitual que esta região seja explorada através da observação do chamado “gânglio sentinela”. Este é o primeiro gânglio a receber a drenagem das células do tumor e, por isso, se este estiver livre de doença, obvia à necessidade de uma cirurgia mais extensa e agressiva.

 

A radioterapia utiliza hoje raios-X de alta energia, muito selectivos, que ajudam a destruir as células específicas do tumor, preservando ao máximo as estruturas envolventes.
 

Pode ser utilizada de forma isolada ou em combinação com outras terapêuticas como, por exemplo, a quimioterapia.
 

Os seus efeitos são cumulativos e podem associar-se, tal como todas as outras terapêuticas, a alguns efeitos laterais sobre os quais a mulher deve estar informada na altura em que efectua as suas decisões.

 

A quimioterapia utiliza, em geral, uma combinação de fármacos que condicionam um efeito sistémico. Isto é, para além do efeito nas células do tumor inicial, a quimioterapia afecta todo organismo, atingindo células cancerosas e células normais.
 

Este efeito é importante para o controlo da doença à distância, mas é também este facto que explica alguns dos efeitos laterais mais comuns em termos de toxicidade gastrointestinal, perda de cabelo ou atingimento das células sanguíneas na medula óssea.
 

Muitos destes efeitos podem, hoje em dia, ser minimizados ou mesmo totalmente evitados.

 

A terapêutica hormonal pode ser útil em mulheres cujos tumores são sensíveis a determinadas hormonas, como o estrogénio e a progesterona. Esta sensibilidade pode ser determinada pelo doseamento de receptores específicos e, nestes casos, esta terapêutica pode contribuir para diminuir a probabilidade de recorrência da doença e optimizar o seu controlo.

 

As terapêuticas biológicas são muito recentes e aproveitam as diferenças que se detectam entre as células normais e as células cancerosas de alguns tumores. Nestes casos, os tumores produzem determinados tipos de proteínas que se tornam o alvo selectivo deste tipo de terapêuticas.

 

 


 

 

Artigo de:

Dr Filipe Basto - Internista - 8-Abr-2009



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