Cancro, contactos ocupacionais, poluição ambiental

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 31-Mai-2002

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I - Contactos ocupacionais

Foram identificados muitos factores de natureza ocupacional associados ao cancro. O estudo de grupos ocupacionais identificou mais carcinogénios que outro qualquer ramo da epidemiologia das doenças malignas e levou à prevenção do cancro através da redução ou eliminação de exposições perigosas no local de trabalho. Exposições ocupacionais são responsáveis por cerca de 5% de todas as mortes por cancro, embora estas percentagens sejam mais elevadas para certos cancros, nomeadamente os cancros do pulmão e bexiga. Algumas importantes associações emergiram de estudos epidemiológicos: asbestos e cancro do pulmão, arsénico inorgânico e cancro do pulmão, e couros/cabedais e cancro nasal. 

 

Asbestos constituem o principal carcinogénio ocupacional em muitos países, e é causa de cancros do pulmão e uma variedade rara de cancros das membranas serosas ( pleura, peritoneu ) denominados mesoteliomas. O risco relativo para o cancro do pulmão é de um factor 2, mas para os mesoteliomas é bem acima de um factor 100. Asbestos são fibras minerais. Há várias formas de asbestos mas os mais usados comercialmente são a crisotile, crocidolite e amosite. O seu efeito carcinogénico parece resultar das suas propriedades físicas e não da sua estrutura química. As fibras são muito pequenas e acumulam-se nos pulmões e pleura, onde iniciam um processo inflamatório mediado pela libertação de factores solúveis - as citokinas - que são libertados por células como os macrófagos alveolares activados. O processo inflamatório é crónico e, eventualmente, conduz a uma transformação maligna dos tecidos. Há um sinergismo evidente entre a exposição aos asbestos e o fumo do tabaco na génese do cancro do pulmão, com o risco de cancro do pulmão aumentando exponencialmente em indivíduos fumadores e expostos aos asbestos. São necessárias exposições aos asbestos prolongadas, durante várias décadas, até ao desenvolvimento dum cancro. Profissões de risco incluem minas, trabalhos de insulação nas habitações e estaleiros navais. Familiares dos trabalhadores expostos aos asbestos estão também em risco devido à exposição passiva a fibras de asbestos trazidas para casa nas roupas e corpos dos indivíduos expostos. O risco de desenvolvimento de mesoteliomas está relacionado com o grau de exposição aos asbestos e é maior em pessoas expostas a fibras longas de crocidolite.

 

II - Poluição ambiental Asbestos Agentes poluidores atmosféricos ( e.g., fumos dos tubos de escape, poluentes industriais ) têm sido estudados como agentes etiológicos do cancro do pulmão. Produtos da combustão de combustíveis fósseis, especialmente hidrocarbonetos policíclicos, são particularmente suspeitos. O estudo destes agentes é complexo, já que é difícil separar o seu eventual efeito carcinogénico do efeito do fumo do tabaco. Há evidência que a poluição atmosférica tem um papel limitado no cancro do pulmão. Os asbestos são comuns nas populações urbanas, mas o risco de cancro, com excepção das exposições ocupacionais, é incerto. Um exemplo marcante de um carcinogénio ambiental é a exposição a fibras de zeolite, que ocorrem naturalmente em certas partes da Turquia, e que causam uma alta mortalidade por mesotelioma da pleura. Outro agente é o arsénico presente na atmosfera. Há uma mortalidade excessiva por cancro do pulmão nas proximidades de fundições e fornalhas que emitem arsénico para a atmosfera.

 

O papel da poluição do ar nas habitações por um gás radioactivo - rádon - que é um gás natural presente nas caves das casas e em minas debaixo do solo, tem sido relacionado com o cancro do pulmão e linfomas. Na China, há uma alta incidência de cancro do pulmão em mulheres não-fumadoras, que tem sido atribuída a vapores químicos que são efluentes de fogões aquecidos a carvão. Outros carcinogénios potenciais incluem contaminantes na água potável, especialmente certos compostos orgânicos halogenados produzidos durante o tratamento das águas com cloro, e que são carcinogénicos e mutagénicos em testes laboratoriais. Em resumo:

 

A nossa civilização criou um " oceano de carcinogénios " que certamente não existiam no tempo dos dinossauros ou do Homem de CroMagnon. Quando a Terra ficar inabitável, resta-nos o recurso de viajar na galáxia à procura de novos planetas. Para isso, temos de ultrapassar a velocidade da luz, o que significa renegar Einstein. Não vai ser fácil.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 31-Mai-2002



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