Anorexia nervosa e bulimia: distúrbios do comportamento alimentar

Artigo de:

Dr. João Breda - Nutricionista - 9-Nov-2000

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Revisto por:

Dr. Pedro Silva Carvalho - Psiquiatra - 15-Jun-2009

O que é?

A anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado por uma rígida e insuficiente dieta alimentar (caracterizando-se em baixo peso corporal). É uma doença complexa, envolvendo componentes psicológicos, fisiológicos e sociais.

 

O diagnóstico de anorexia repousa sobre alguns critérios essenciais:

-Perda de peso acentuada, superior a 15% do peso inicial;

-Aparecimento da patologia antes dos 25 anos de idade;

-Uma distorção implacável do comportamento alimentar;

-A ausência de qualquer outra patologia orgânica ou psiquiátrica;

-Um medo terrível de ganhar peso e de se tornar obeso.

 

Ainda segundo alguns investigadores é também importante juntar a estes critérios anteriores, a existência de, pelo menos, dois dos seguintes sinais:

-Amenorreia;

-Lanugo;

-Bradicardia (menos de 60 batimentos por minuto);

-Hipotermia;

-Hiperactividade física;

-Vómitos;

-Episódios bulímicos (em cerca de 1/3 dos casos). Infelizmente, o diagnóstico continua, em muitos casos, a ser estabelecido em presença de perdas de peso consideráveis, os primeiros sintomas passando despercebidos ou sendo até banalizados não só pelos doentes mas também pela família e pelos que os rodeiam.

 

A bulimia é uma desordem severa caracterizada por episódios de consumo desenfreado de comida e vómito provocado, associado com perda de controlo sobre a ingestão de alimentos e com uma preocupação enorme com a imagem corporal e o peso. Esta desordem acontece essencialmente em jovens do sexo feminino. Formas atenuadas deste tipo de comportamento podem acontecer em mulheres de peso normal.

 

Factores de risco

A anorexia habitualmente tem início na adolescência, mas pode ter início na infância ou, posteriormente, dos 20 aos 40 anos de idade.

 

Raparigas oriundas de meios socioeconómico-culturais mais elevados e diferenciados têm uma maior incidência desta perturbação. Têm muitas vezes características obsessivas, com tendência para o perfeccionismo intelectual. Frequentemente, outros membros da família já tiveram sintomas semelhantes.

 

Ocorrência de anteriores eventos traumáticos, como rejeição familiar ou abuso físico e/ou sexual, pode ser um factor de risco para desenvolvimento da doença.

 

Influência da comunicação social, em termos de definições de padrões estéticos baseados na magreza.

 

É comum a anorexia ter início nas vulgares dietas que as adolescentes fazem. O quadro avança para anorexia quando a dieta e a perda de peso subsistem até que a pessoa atinge níveis de peso muito inferiores aos esperados para a sua idade, perdendo a autocrítica sobre a situação.

 

Sinais e sintomas

Na anorexia:

-Medo de engordar intenso e irracional;

-Negação quando questionado sobre o transtorno;

-Restrição da alimentação;

-Perda excessiva de peso (Peso corporal em 85% ou menos do nível normal);

-Prática excessiva de exercício físico;

-Os períodos menstruais tornam-se irregulares ou mesmo inexistentes.

 

Na bulimia:

-Medo de engordar;

-Alimentação compulsiva (incapacidade de controlar tais episódios);

-Peso normal;

-Os períodos menstruais tornam-se irregulares;

-Uso excessivo de laxantes e/ou indução do vómito.

 

Tal como as anorécticas, as bulímicas sofrem de um medo excessivo de ganhar peso mas, ao contrário das primeiras, normalmente estas conseguem manter o seu peso normal. Através da indução do vómito e do uso de laxantes, as bulímicas conseguem perder peso mas, por outro lado, têm episódios de alimentação compulsiva que não conseguem controlar (comem em pouco tempo vários pacotes de bolachas, chocolates, etc.). Depois destes episódios, a bulímica irá induzir o vómito e sentir-se-á muito culpada e deprimida. Surge, então, um ciclo vicioso e este padrão caótico de alimentação instala-se.

 

Diagnósticos

Quando ocorre marcada limitação a nível de calorias que são ingeridas, com uma restrição cada vez mais acentuada de alimentos até ao ponto de só serem ingeridas saladas, fruta ou vegetais, e, portanto, ter uma ingestão desequilibrada, a prática vigorosa de exercício físico, a tomada de comprimidos dietéticos e a provocação de vómitos devem ser vistas como sintomas claros de uma possível anorexia nervosa.

 

A anorexia mental pode ser considerada como moderada se o Índice de Massa Corporal (IMC) rondar os 17,5; severa se ele for inferior a 15 e critica se a anorexia se acompanha de um IMC à volta de 12,5. As complicações da anorexia mental podem ser ligadas ao desequilíbrio energético prolongado e ao estado de caquexia que se segue, mas também a episódios de vómitos repetidos, observados em 1/3 dos casos.

 

O quase desaparecimento do tecido adiposo, uma atrofia muscular considerável, uma pele seca acompanhada de problemas de microcirculação, acrocianose, lanugo disseminado e uma hipotensão arterial são alguns dos factores que contribuem para a gravidade da doença. Os edemas aparecem em casos extremos, acompanhados de hipoalbuminemia severa.

 

Sob o ponto de vista biológico, sobretudo se existem vómitos, é importante pesquisar anemia ferripriva e hipokaliemia, porque o risco de morte se intensifica.

 

Tratamentos

É importante a noção de que a anorexia nervosa é difícil de ser tratada. Uma vez diagnosticada, o anoréxico passa por terapia individual ou terapia em grupo e eventual terapia familiar, em casos leves e moderados. A negação do problema é frequente e, por isso mesmo, o percurso pode ser longo para a sua recuperação. As recaídas são comuns. Em casos mais graves, o tratamento hospitalar é indicado.

 

A anorexia possui um índice de mortalidade alto, entre 15 a 20%, geralmente mata por paragem cardíaca, devido à falta de potássio ou sódio (que ajudam a controlar o ritmo normal do coração).

 

Existem alguns objectivos incontornáveis e intimamente ligados que se devem ter em conta aquando da abordagem e tratamento longo e difícil destes doentes:

-Obter um peso mínimo aceitável: IMC de 18,5;

-Obter aportes energéticos compatíveis com a necessidade de manutenção de peso;

-Obter um comportamento alimentar normal “sem medo e sem culpa”;

-Abrir portas mentais: direito à palavra, luta contra a angústia e a desvalorização de si, mas também contra o narcisismo e o perfeccionismo.

 

A fim de alcançar um peso mínimo normal seria importante obter do doente a concordância no preenchimento de um diário de registo alimentar para que o técnico de saúde possa avaliar o mais rigorosamente possível, qualitativa e quantitativamente, a ingestão alimentar quotidiana.

 

Devem promover-se refeições com os amigos e com os familiares, sobretudos os menos ansiosos com estas situações, com os quais a doente poderá encontrar maior serenidade à volta de refeições simples e partilhadas.

Artigo de:

Dr. João Breda - Nutricionista - 9-Nov-2000

Revisto por:

Dr. Pedro Silva Carvalho - Psiquiatra - 15-Jun-2009



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