Álcool e cancro

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Hematologista, Internista, Oncologista - 7-Jun-2002

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O papel do álcool na génese do cancro não está bem definido, ao contrário do que acontece com agentes carcinogénicos como o tabaco e as radiações. Em animais de laboratório não se provou que o álcool é directamente carcinogénico.

 

Em contrapartida, está demonstrado que o álcool é um importante agente potenciador do efeito carcinogénico de certos agentes. O consumo excessivo de álcool potencia os efeitos do tabaco (cigarros) na génese dos cancros da cavidade oral, faringe, laringe e esófago. Estima-se que o álcool seja responsável por cerca de 3% de todas as mortes por cancro, o que está longe das percentagens associadas ao tabaco mas, ainda assim, é significativo.

 

Mecanismos

O mecanismo de actuação do álcool não é claro. Pode estar relacionado com: (1) múltiplas deficiências nutricionais  e.g., deficiências de vitaminas, oligoelementos, proteínas) comuns em alcoólicos crónicos; (2) agentes contaminantes de bebidas alcoólicas como as nitrosaminas e hidrocarbonetos que são carcinogénios provados; (3) permeabilidade aumentada das membranas mucosas do tubo digestivo e tracto respiratório, o que facilita a difusão de carcinogénios na corrente sanguínea. Há evidência em favor de um efeito tópico do álcool sobre as mucosas. Uma análise recente sugere um risco excessivo de cancro da cavidade oral associado ao uso repetido de antisépticos orais líquidos com um alto teor de álcool. Álcool e tabaco A associação álcool/tabaco é particularmente alarmante. Fumadores inveterados que são, também, consumidores excessivos de bebidas alcoólicas têm um risco de cancro que é 35 vezes o de uma pessoa que não bebe e não fuma.

 

Exposições combinadas são responsáveis por cerca de 75% de todos os cancros da faringe e cavidade oral, que são particularmente frequentes em pessoas pertencentes a um baixo estrato sócioeconómico. Os riscos aparentemente são maiores com licores pesados, de alto teor alcoólico, ou cerveja do que com vinho. No cancro do esófago, um risco particularmente elevado está associado com o consumo de sumo de maçã fermentado em destilarias artesanais no noroeste de França. No cancro da laringe, o efeito do álcool é mais proeminente na patogénese de tumores no segmento supraglótico (acima das cordas vocais).

 

Álcool e outros cancros

O álcool é uma causa importante de cirrose hepática, uma doença crónica e lentamente progressiva do fígado associada a uma alta mortalidade, em países onde o consumo de álcool é elevado, como Portugal, França e Itália. Uma das complicações da cirrose hepática é o carcinoma hepatocelular (cancro do fígado). É possível ainda que o abuso do álcool tenha um efeito carcinogénico directo e seja um factor etiológico na transformação maligna das células do fígado. O papel do álcool na patogénese de outros cancros continua incerto. O cancro do recto no homem mostra algumas correlações geográficas com o consumo de cerveja, mas estudos analíticos têm sido inconsistentes.

 

Conclusões

A taxa de mortalidade por doenças malignas nos países desenvolvidos é apenas ultrapassada pela taxa de mortalidade das doenças cárdiovasculares. O álcool é um agente etiológico na génese de vários cancros, sózinho ou em associação com outros agentes carcinogénicos, nomeadamente o tabaco. O facto de 3% de todas as mortes por cancro serem devidas ao álcool assume um significado importante em termos absolutos, se considerarmos a alta prevalência das doenças malignas. Como no caso do tabaco, as populações mais vulneráveis à dependência alcoólica são os adolescentes e os jovens adultos. Isto constitui um grave problema de saúde pública. Campanhas promocionais contra o abuso do álcool devem actuar a diferentes níveis da nossa sociedade, incluindo as escolas, locais de trabalho, consultórios médicos e hospitais. Organizações como os Alcoólicos Anónimos (A ) têm um papel a desempenhar. É irónico que, depois de ter controlado as principais causas de morte no passado, como as infecções (cólera, malária, disenterias, peste, tifo), a sociedade humana tenha criado factores de risco totalmente evitáveis (álcool, tabaco ) que são grandes responsáveis pelas duas principais causas de morte actualmente, ou seja, as doenças cárdiovasculares e as doenças malignas. Como diria Astérix, estes humanos são loucos.

Artigo de:

Dr. António Fontelonga - Hematologista, Internista, Oncologista - 7-Jun-2002



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