Acne: o que é?

Artigo de:

Dr. Rui Tavares Bello - Dermatologista - 6-Nov-2000

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Tão frequente quanto maçadora, a Acne é situação exclusiva da espécie humana que atinge potencialmente todas as pessoas em alguma fase da vida. Com efeito, quantos se poderão gabar de nunca terem experimentado esta afecção?

 

A sua prevalência na adolescência é tão elevada (> 50% no sexo feminino após os 14 anos e >80% no masculino após os 18 anos) que, num plano meramente estatÌstico, quase se pode considerar "normal", como um verdadeiro estado fisiológico!

 

A Acne é uma Doença?

A "normalidade estatística" não nos deve induzir em erro! Atràs dos números estão pessoas e, nestas, as "borbulhas" podem representar verdadeiras brechas na muralha do ego. A ansiedade, a depressão, a quebra na auto-estima e inerente desinvestimento social, são traços frequentemente encontrados nestes doentes, particularmente nessa fase da vida (adolescência) em que se toma consciência da transformação do corpo, num contexto de individualização psicosexual em que a Pele desempenha papel primordial.

 

Igualmente, não se deve subestimar o carácter permanente das cicatrizes cutâneas ("marcas") e morais resultantes da doença, se não forem tratados de forma consistente nas dimensões física e psicológica.

 

Podemos assim dizer que a Acne é, de facto, uma doença que, pela elevada prevalência, impacto psicológico, atingimento preferencial da adolescência com as vulnerabilidades inerentes, consumo de fármacos e de cosméticos que gera, deve ser incluída no grupo das doenças socialmente relevantes.

 

Mas o que é a Acne?

A Acne é uma doença das unidades pilo-sebáceas de tipo sebáceo, as quais se agrupam na face, peito, dorso e ombros. São anexos cutâneos caracterizados por grandes glândulas que se ligam a um canal folicular com um pequeno pêlo. Estes folÌculos pilosebáceos desenvolvem-se a partir da puberdade por estimulação hormonal - amdrogénios procedentes das glândulas suprarrenais e das gónadas - com um aumento da produção de sebo (seborreia) que se traduz por uma pele mais oleosa e brilhante.

A seborreia induz, por mecanismos ainda incompletamente esclarecidos, a formação de "rolhão" no orifício de saída do folículo (ostium folicular), o qual impede a sua saída para a superfície. Como consequência, a estase do sebo e restos celulares favorece a proliferação de bactérias, as quais são responsáveis pela inflamação. A este encadeamento de eventos corresponde, no plano clínico, na fase retencional os "pontos negros ou brancos" (comedões abertos e fechados) e, na fase inflamatória, as "borbulhas de pús" (pústulas), e as lesies inflamatórias de pequenas e de grandes dimensões (pápulas e nódulos inflamatórios).

 

A sequencia de fenómenos atrás referida - seborreia, oclusão folicular,proliferação bacteriana e inflamação - está na base do POLIMORFISMO CLÍNICO da Acne, isto é, que em cada doente se possam encontrar, em regra simultaneamente, todos estes elementos.

 

A acne é exclusiva da adolescência?

De facto, é nesta fase da vida que a Acne assume expressão dominante. No entanto, também pode ocorrer em recém-nascidos e lactentes (Acne Neo-Natal), mulheres e homens adultos. 

 

Nestes grupos, a Acne pode resultar da acção de agentes farmacológicos administrados com intuitos terapêuticos ou outros (por exemplo, esteróides anabolizantes) bem como de cosméticos faciais ou capilares ("Acne Cosmética").

 

A acne deve ser tratada?

Já que na maioria dos casos a Acne Juvenil é auto-limitada, desaparecendo espontaneamente a partir dos 20 anos de idade, será que se justifica efectuar tratamento em todos os casos?  

 

A resposta é afirmativa. Com o tratamento ou os cuidados diários - individualizados caso-a-caso - pretende-se controlar a expressão da doença, favorecer a afirmação psicosocial dos indivíduos e prevenir o desenvolvimento de cicatrizes permanentes.  

 

Os medicamentos são múltiplos, de tipo local (tópicos) ou para administração sistémica, sendo, na generalidade, dotados de excelente eficácia, desde que administrados de forma consistente, em "equipa" com o médico, e nunca desligados de uma conduta que inclua normas adequadas de higiene pessoal, de exposição solar, de uso de cosméticos, etc...

 

Como se retiram a sujidade e as impurezas da pele?

A Acne não é provocada por impurezas ou sujidade! Os pontos negros são apenas constituídos por sebo e restos de células e de pigmento melânico e o sebo é elemento essencial para assegurar a hidratação, elasticidade, resistência e beleza da pele.  

 

A pele oleosa deve ser limpa 2 a 3 vezes por dia com recurso a água tépida e geles de limpeza para peles acneicas e efectuada de forma suave e atraumática.  

 

No sexo masculino, a barba deve ser rapada com suavidade após prévio amolecimento com água tépida e mousse de barbear. A opção por máquina de barbear eléctrica ou lâmina será individualizada em função do conforto sentido individualmente com uma ou a outra técnica.

 

Devem as "borbulhas" ser espremidas?

 

A expressão digital das pápulas inflamatórias e dos comedões abertos é actividade tão prevalente que, no plano etológico, deve conter conotação atávica particularmente apelativa, reminiscente da actividade de catar dos símios.  

 

Na práctica, deve ser banida, já que dela resultam cicatrizes permanentes de difícil resolução bem como, no plano mais imediato, agravamento da componente inflamatória das lesões. Existem tópicos com actividade comedolítica e anti-inflamatória. é a eles que deverá recorrer.

 

Podem ser utilizadas bases de côr para a camuflagem das lesões? Que cosméticos devem ser usados?

 

Os cuidados diários devem ser individualizados pelo seu Dermatologista, tendo em conta as características da sua Acne e a terapêutica que está a efectuar. No entanto, deverá recorrer a produtos cosméticos que contenham as referências "oil free", "non comedogenic" ou "non acnegenic". Tais produtos devem sempre ser removidos por água tépida e detergentes adequados ou, alternativamente, por loções de limpeza de linhas cosméticas com aquelas especificações.

 

Que cuidados a ter na praia. Qual o protector solar a utilizar?

A exposição solar é globalmente prejudicial. Se bem que um tom bronzeado contribua para disfarçar muitas lesies ("camuflagem natural"), o que é facto é que a exposição solar repetida determina agravamento da Acne, com exacerbação da sua componente retencional e inflamatória.

 

Assim, a exposição solar (não sendo banida) deve ser moderada, progressiva e adaptada ao tipo de Acne e ao tratamento em curso. A escolha do protector solar deverá decorrer do fototipo (tom de pele e comportamento perante o sol) mas deverá ter sempre em conta preparações "oil free" e "non acnegenic".

 

Qual a dieta a seguir? Pode-se comer chocolate e carne de porco?

Está provado que regimes dietéticos mais ou menos estritos não curam a Acne. Alguns doentes, no entanto, relacionam agravamentos da acne com a ingestão de alguns alimentos.

Tendo presente que a intensidade da Acne pode sofrer oscilações ao longo do tempo e na ausência de elementos cientÌficos sólidos que consubstanciem tal relação, é, no entanto, aconselhável a evicção, nesses doentes, de tais alimentos.

 

Aconselharam-me a usar a pílula para controlar a minha Acne. Devo fazê-lo?

Nas adolescentes com acne e sinais cutâneos de hiperandrogenismo [excesso de pêlos (hirsutismo), seborreia, alopécia (queda do cabelo)] e com irregularidades menstruais significativas, impõe-se efectuar uma avaliação hormonal que incluirá exames laboratoriais ao sangue e, eventualmente, ecografia pélvica. No caso de se detectarem alterações hormonais funcionais significativas, uma pílula anticoncepcional ou outro fármaco poderá ser prescrita pelo seu Ginecologista ou Endocrinologista.  

 

Tal avaliação poderá estar igualmente indicada em mulheres acneicas com mais de 25 anos de idade, mesmo na ausência de tais alterações clínicas.

 

Para ter a minha Acne controlada quantas consultas são necessárias?

Tal depende da forma da Acne, sua gravidade e duração. Poder-se-á dizer que, pelo menos, 2 avaliações devem ser efectuadas, tendo em conta que os fármacos tópicos e cosméticos devem ser ajustados às condições meteorológicas. Alguns medicamentos estão contraindicados no Verão pelo seu potencial fotosensibilizante e outros no Inverno pelas suas propriedades irritantes e sicativas.  

 

Qualquer agravamento inopinado deve igualmente levar à observação com o objectivo de corrigir os factores de instabilização.

 

A acne, em qualquer das suas formas clínicas, é doença susceptível de ser corrigida mediante a utilização criteriosa dos diversos e excelentes agentes terapêuticos disponíveis. Deste tratamento, individualizado pelo seu Dermatologista, não devem estar desligadas normas e condutas de comportamento (higiene diária, cosméticos, exposição solar...) nem a avaliação da dimensão de sofrimento psicosocial vivido. Uma abordagem terapêutica fundada numa só relação médico-doente que inclua um amplo esclarecimento constituem condições essenciais para ultrapassar com sucesso esse interminável mar de escolhos que é a Acne na adolescência.

Artigo de:

Dr. Rui Tavares Bello - Dermatologista - 6-Nov-2000



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