Viver na cidade conferiu imunidade contra algumas doenças
04 outubro 2010
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A vida urbana tem inúmeras desvantagens: a poluição, o ruído, a falta de espaços verdes, as muitas horas perdidas no trânsito… A nível de doenças, também é longa a lista de patologias associadas à vida citadina, desde uma maior prevalência de alergias, passando por uma maior disseminação de doenças infecciosas, a um maior défice de saúde mental. Mas foi o facto de, ao longo da história humana, vivermos em grupos nas cidades que, curiosamente, nos conferiu imunidade contra algumas doenças.

 

Um estudo publicado na revista “Evolution” traz dados interessantíssimos sobre o assunto, ao demonstrar que uma variante genética – que reduz a probabilidade de contrair doenças como a tuberculose e a lepra – é mais prevalente nas populações com longas histórias de vida urbana.

 

Tanto a tuberculose como a lepra são doenças bem documentadas ao longo da história da humanidade. Pensa-se que a tuberculose, cuja forma mais comum é a pulmonar, tenha evoluído há 15 mil ou 20 mil anos. Quanto à lepra, doença que produz severas lesões na pele, os primeiros registos escritos conhecidos datam de 1350 a.C.

 

Neste estudo, cientistas do University College London e do Royal Holloway, no Reino Unido, constataram que, nas áreas com uma longa história de povoamento urbano, os actuais habitantes são mais propensos a apresentar uma variante genética que lhes confere imunidade às infecções.

 

Nas cidades antigas, as parcas condições sanitárias e a alta densidade populacional teriam propiciado um terreno fértil para a disseminação de doenças. Deste modo, a selecção natural deveria ter conferido ao homem a capacidade de apresentar defesas contra as doenças, em especial nos habitantes descendentes de populações urbanizadas há mais tempo. Mas à falta de provas, esta associação tem sido muito difícil de avaliar, em especial no período pré-histórico.

 

Para chegarem a estas conclusões, os investigadores londrinos analisaram amostras de ADN (onde está contida a informação genética individual) de 17 diferentes populações que vivem na Europa, Ásia e África. Paralelamente, procuraram documentação arqueológica e histórica para analisarem os registos mais antigos da primeira cidade ou aglomerado urbano nessas regiões.

 

Ao compararem as taxas de resistência genética à doença com a história urbana, os investigadores verificaram que a exposição aos patogénios no passado era espelhada nas populações através de um maior grau de resistência à doença. Este facto faz pressupor que, além de outras características genéticas, os antepassados (que viviam na cidade) passaram também essa informação genética aos seus descendentes.

 

Os cientistas verificaram que a variante genética “protectora” de doenças está presente em quase toda a população desde o Médio Oriente até à Índia e em certos locais da Europa, onde as cidades têm por volta de alguns milhares de anos.

 

Segundo explicou, em comunicado de imprensa, o líder do estudo, Ian Barnes, para chegar a estas conclusões, a equipa usou os novos dados históricos e arqueológicos para explicar a distribuição e a frequência de uma variante genética e também para identificar uma fonte da selecção natural. "Este parece ser um exemplo muito aperfeiçoado da evolução em acção, ao destacar a importância de um aspecto muito recente da nossa evolução como espécie: o desenvolvimento das cidades como uma força selectiva. Também poderá ajudar a explicar algumas das diferenças que observamos na resistência à doença em todo o mundo", acrescentou ainda o cientista da Escola de Ciências Biológicas do Royal Holloway.

 

Para outro membro da equipa de investigadores, Mark Thomas, do Departamento de Genética, Evolução e Meio Ambiente da University College London, a densidade populacional parece desempenhar um papel importante na formação de muitos aspectos da vida humana: "Foi um factor vital na manutenção das capacidades complexas e da cultura da nossa espécie, factores que nos distinguem dos outros primatas; conduziu a muitas das diferenças genéticas que vemos actualmente entre as diferentes populações de todo o mundo. Agora, ao que parece, também influenciou o modo de propagação das doenças infecciosas no passado e a forma como evoluímos para lhes resistir".

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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