Usar o sol com moderação
03 agosto 2010
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Os malefícios da exposição solar exagerada têm sido amplamente divulgados, especialmente ao longo das últimas décadas. Contudo, é preciso não esquecer que apanhar os tão reconfortantes raios de sol, desde que seja feito com moderação, também tem inúmeros benefícios para a saúde.

 

O tom da pele funciona, desde há muito tempo, como um símbolo de estatuto social. Inicialmente, apresentar a tez bronzeada era sinal de trabalho braçal. Os endinheirados não queriam ser confundidos com os camponeses: as senhoras passeavam-se nos dias quentes de Verão pela baixa da cidade com sombrinhas protectoras e os senhores usavam manga comprida e chapéu. Quando os camponeses se tornaram operários, fechados dentro das fábricas todo o dia, a cor da tez manteve-se como um sinal distintivo das classes, tendo, no entanto, ocorrido uma inversão no seu significado: o corpo bronzeado passou a ser sinónimo de poder financeiro, de quem tinha dinheiro para fazer férias na praia ou na neve. Como era de esperar nesta nossa era em que se preza muito a imagem e em que todo o mundo quer parecer o que não é, dispararam os casos de melanoma, o mais letal dos cancros.

 

Estas pessoas, normalmente urbanas, cuja pele não é exposta ao sol durante todo o ano, na ânsia de ficarem rapidamente morenas, recebem doses desaconselháveis de radiação que as coloca em perigo de desenvolver o tão temível tumor da pele. Este é um dos piores perigos da radiação, dado que o que aumenta o risco de aparecimento dos tumores de pele são as doses acumulativas, isto é, a soma das exposições excessivas ao sol desde a infância, aquilo a que, na gíria, chamamos de “escaldões”.

 

Ao longo dos últimos anos, somos bombardeados no início da época balnear com os números assustadores dos novos tumores, bem como com recomendações para uma exposição moderado à luz solar. O nosso bom senso já deveria ter percebido que o contacto com a natureza tem regras: que a melhor protecção para as desagradáveis queimaduras solares - que aumentam o risco da doença - é a exposição em horários adequados, geralmente antes das 10 horas e após as 16 horas; que, nas horas de maior calor, nos devemos resguardar à sombra e que, caso seja imperativo andar ao sol, devemos usar roupa que nos cubra, óculos de sol e protector solar nas zonas expostas.

 

Mas não é, de todo, aconselhável temer o sol. Também sabemos que, quanto mais o homem se afasta da sua relação natural com a natureza, maiores são as probabilidades de adoecer. Se recuarmos até às nossas origens, vamos verificar que o sol tem sido determinante para a nossa existência. E, se é verdade que o cancro da pele é actualmente um grave problema de saúde pública, consequência da mudança de hábitos sociais, historicamente os relatos de problemas relacionados com o sol falam, sobretudo, da sua falta para o organismo.

 

O sol promove a síntese da maior parte da vitamina D, e é a fonte principal deste nutriente. Esta vitamina também se encontra em vários produtos alimentares, mas o seu consumo não assegura o fornecimento da dose necessária para o organismo. Está comprovado que a vitamina D promove a absorção de cálcio, essencial para o desenvolvimento normal dos ossos e músculos, mas a sua acção vai muito além disso, existindo provas científicas que a relacionam com um risco menor de desenvolver cancro, esclerose múltipla, hipertensão, diabetes e outras doenças.

 

Um estudo recente acrescentou ainda mais um benefício à longa lista. Um trabalho divulgado recentemente na revista “Clinical Endocrinology” sugeriu que o banho de sol pode aumentar a libido masculina, dado que a vitamina D aumenta os níveis de testosterona no sangue. Os cientistas verificaram, ao analisar amostras de sangue de 2.299 homens, que, durante o Inverno, eles apresentavam uma concentração menor tanto da vitamina quanto da hormona e, no pino do Verão, uma concentração mais alta. Contudo, mais estudos serão necessários para atestarem esta relação.

 

E porque a exposição solar é tão vital para o ser humano, um estudo britânico, publicado em Janeiro no “Journal of Investigative Dermatology”, também quis aferir que duração de exposição ao sol seria necessária para a produção das doses ideais de vitamina D.
Para o efeito, uma equipa do Salford Royal NHS Foundation Hospital, em Manchester, submeteu 109 homens e mulheres caucasianos, com idades inferiores a 65 anos, a uma luz equivalente a 13 minutos de sol do meio-dia de Verão, três vezes por semana e durante seis semanas. Para os banhos de sol, os participantes usaram calções e t-shirts.

 

Para tornar mais evidentes os efeitos dos banhos de sol, o estudo realizou-se no Inverno, quando recebemos muito pouca vitamina D através da luz solar. Todos os participantes consumiram pouca vitamina D através da alimentação, e nenhum deles tomou suplementos.

 

Pode parecer contraditório testar a exposição ao sol do meio-dia. Mas, segundo os especialistas, nas horas de menor incidência solar (antes das 10 e depois das 16), a radiação solar de raios ultravioleta B é pequena para uma produção eficaz de vitamina D. O estudo, liderado por Lesley E. Rhodes, verificou que, com a exposição solar, os níveis de vitamina D no sangue aumentaram, em média, de 18 para 28 nanogramas por mililitro. Estudos recentes já tinham sugerido que um nível desta vitamina a partir de 20 nanogramas por mililitro era suficiente para o organismo, mas que o nível óptimo se registava a partir dos 32 nanogramas por mililitro.

 

De acordo com os resultados obtidos, a equipa previu que com essa quantidade de exposição solar de poucos minutos (menos de 10), 90% dos participantes teriam níveis de vitamina D suficientes e 26% registariam níveis óptimos. Os resultados não são aplicáveis a pessoas de pele mais escura, que necessitam de períodos mais prolongados de exposição, dado que a pele actua como uma tela contra o sol. Também depende da latitude onde a pessoa se encontra, dado que, por exemplo, na América do Norte, a quantidade média necessária para obter os mesmos efeitos da exposição solar varia de acordo com a latitude do local, o que, em tempo de exposição, pode oscilar entre os 9 e os 16 minutos.

 

Para além de aconselharem todos os que se exponham no seu dia-a-dia, mesmo que por poucos minutos, ao sol do meio-dia a cumprirem os cuidados de segurança anteriormente descritos, os especialistas advertem que a exposição ao sol é totalmente proibida a pessoas que têm um risco elevado de desenvolverem cancro de pele. Para estas, em vez do sol, é aconselhável a toma de suplementos de vitamina D. Sublinhe-se, contudo, que deve seguir escrupulosamente as recomendações de saúde que advertem para evitar e/ou proteger-se da exposição solar nas horas de maior calor e não deve aplicar estes dados no seu dia-a-dia sem antes se aconselhar com o seu médico.

 

Paula Pedro Martins

jornalista

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