Terramoto poderá tirar haitianos da pobreza?
22 janeiro 2010
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Antes do terramoto, que terá causado mais de 100 mil mortos, pelo menos seis dos oito milhões de haitianos viviam abaixo do limiar da pobreza estabelecido pela ONU, ou seja, sobreviviam com menos de dois dólares por dia. E agora?

 

A tragédia humanitária a que temos assistido, em directo, através das cadeias televisivas mundiais não é, infelizmente, de agora.

 

Neste país, o mais pobre do continente americano, a esperança de vida ronda os 49 anos. Cerca de 30 mil crianças morrem anualmente. Este cenário já seria, em si, devastador, mas foi neste palco que o terramoto do dia 12 de Janeiro terá matado, segundo estimativas, entre 100 a 200 mil pessoas, causando ainda mais de 250 mil feridos e para cima de 100 mil desalojados.

 

Já antes do sismo de grau 7 na escala de Richter que o atingiu com uma violência devastadora, este pequeno país das Caraíbas via-se a braços com casos galopantes de sida, tuberculose, malária, aliados à falta de condições sanitárias e à subnutrição infantil. Não necessitariam, por isso, de uma catástrofe como esta para os colocar na lista dos países mais pobres do mundo. Infelizmente, já o eram.

 

Contudo, as consequências do sismo não auguram, por agora, tempos fáceis para os haitianos. Muitos especialistas chegam mesmo a profetizar que, em termos de saúde pública, o cenário próximo poderá ser um dos piores da história.

 

No panorama de destruição maciça que pôs por terra 50% dos edifícios da capital haitiana de Port-au-Prince e de outras localidades vizinhas, as equipas médicas que chegam ao país em unidades móveis e hospitais de campanha dizem-se estupefactas com a quantidade de desgraças, não tendo mãos a medir para prestar auxílio ao elevado número de feridos a precisar de tratamento urgente.

 

Os relatos televisivos por parte dos médicos chegados ao país de vários pontos do globo são unânimes: falam de situações humanas extremamente dolorosas, de pessoas com membros amputados ou esmagados, que têm esperado dias para serem operados. Sem tratamento rápido, as feridas correm sérios riscos de infectar e conduzir à morte.

 

"Está a ver aquele miúdo ali? Não tem nome, não tem família e não vai sobreviver". É deste modo que Norma Lopez, argentina que integra a equipa de médicos italianos no Haiti, descreveu ao jornalista do “Diário de Notícias” a situação de uma criança em coma, uma das muitas a que os médicos tentam prestar auxílio.

 

À BBC, um médico da ONU disse, visivelmente comovido, que há muitos casos de gangrena e que algumas amputações são realizadas em "condições horríveis".

 

Poucos dias após o terramoto, os sobreviventes alojados em acampamentos improvisados convivem, lado a lado, com os corpos em decomposição espalhados pelas ruas. Neste cenário dantesco existe ainda o temor dos ataques de bandidos que saqueiam o pouco que resta dos escombros dos edifícios e atacam os sobreviventes, equipas de salvamento e pessoal médico. Se, do ponto de vista da ordem pública, a ONU já ordenou o envio de 1.500 polícias e dois mil militares para se vão juntar aos nove mil membros da missão de paz, do ponto de vista da saúde pública, o pior pode ainda estar para vir.

 

A água potável escasseia, aumentando a probabilidade de variadas doenças, incluindo a diarreia, que, inevitavelmente, conduzirá à morte os mais frágeis: crianças, doentes e idosos. Os especialistas prevêem ainda que, nos próximos meses, aparecerão surtos de doenças como o sarampo, tétano, meningite e malária.

 

"Os campos de acolhimento estão sobrepovoados, não há condições sanitárias, os serviços médicos estão sobrecarregados e os sistemas de esgoto destruídos: todos estes factores apresentam condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças", destacou à imprensa internacional Fiona Place, do Instituto britânico de análise de riscos “Maplecroft”.

 

Conter a propagação da malária (e de outras doenças) dependerá parcialmente da rapidez de fornecimento, por parte dos organismos de ajuda humanitária, de mosquiteiros embebidos em insecticidas, além dos cuidados básicos, da distribuição de medicamentos e de mantimentos.

 

Contudo, a ajuda humanitária que chega continuamente de todo o mundo é insuficiente para minimizar as consequências da calamidade.

 

De facto, a situação vivida após o terramoto é extremamente preocupante, mas ela já era catastrófica antes de o Haiti ter sido devastado pelo sismo. Uma simples pesquisa na internet mostra que as taxas de mortalidade materna e infantil no país eram das mais elevadas do mundo. Referem os dados que uma em cada 12 crianças haitianas morriam antes de completar cinco anos e 523 mães morriam a cada 100 mil nascimentos.

 

Continuando a análise, podemos verificar que a vacinação de crianças com menos de dois anos era realizada em menos de metade da população infantil, que a sida era a principal causa de morte na faixa etária entre os 20 e os 49 anos e que 47% da população (cerca de 4 milhões de pessoas) não tinham acesso a cuidados básicos de saúde.

 

No meio de tanta tragédia que marca o passado deste país, o especialista em saúde pública Josh Ruxin, da Columbia University, em Nova Iorque, vê neste terramoto um sinal de esperança. "Embora esta seja uma tragédia terrível, há a oportunidade de fazer algo que décadas de assistência não fizeram e isso consiste na construção de uma infra-estrutura de saúde pública estável".

 

Ajudados pelo grupo de países mais ricos, que ponderam perdoar a dívida externa que o Haiti tem para com eles, entre outros programas de recuperação, será desta vez que um dos países mais pobres do mundo conseguirá transpor o limiar de pobreza?

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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