Solidão é contagiosa... e pode matar...
11 dezembro 2009
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Parece um paradoxo, mas a solidão pode propagar-se, tal como uma gripe, causando o que os especialistas chamam de “quadro infeccioso mental”.

 

Num estudo de larga escala, publicado na edição de Dezembro do “Journal of Personality and Social Psychology”, investigadores das universidades de Chicago e de Harvard, nos EUA, verificaram, a partir de uma análise de dados de mais de 5,2 mil pessoas, que as solitárias tendem a transmitir a sua solidão aos outros.

 

Gradualmente, ao longo do tempo, os solitários, empurram os poucos amigos que têm para a periferia das redes sociais, tornando-os tão sós quanto eles.

 

O psicólogo John Cacioppo que liderou o estudo disse, em comunicado de imprensa, ter detectado “um padrão extraordinário de contágio que leva as pessoas a moverem-se para a periferia da rede social quando se tornam solitárias”.

 

"Na periferia as pessoas têm menos amigos, mas, mesmo assim, a sua solidão fá-las perder os poucos laços que mantinham", explicou Cacioppo que é um reputado investigador na área.

 

Para o estudo, a equipa analisou dados do Framingham Heart Study, que tem estudado os riscos cardiovasculares da população de Framingham, Massachusetts, desde 1948. O grupo original incluiu mais de 5.209 pessoas. Mas o estudo foi alargado para incluir mais pessoas, como os filhos e os netos do grupo original bem como outros indivíduos, para diversificar a amostra da população. Foi esta segunda geração o foco da investigação sobre a solidão.

 

Os investigadores mantiveram contacto com todos os indivíduos, através de conversas realizadas a cada dois e quatro anos, recolhendo variadas informações, entre as quais os nomes dos amigos, os quais também foram questionados para o efeito. Estes registos tornaram-se uma excelente fonte de informação sobre as redes sociais.

 

Ao construir gráficos que mapearam as histórias de amizade e as informações sobre os respectivos relatórios de solidão, os investigadores verificaram que o padrão de solidão se propaga aos amigos próximos. Os dados mostraram que os solitários "infectam" as pessoas à sua volta com a sua solidão. Uma das explicações para o contágio reside no facto de os próprios indivíduos, ao afastarem-se, passarem a estar menos tempo com os amigos.

 

Curiosamente, segundo o especialista, "as pessoas tem uma maior probabilidade de sentirem solidão devido a cortes e alterações nas redes de amizade do que com as mudanças nas redes familiares”.

 

A pesquisa também mostrou que, quando as pessoas se afastam, confiam menos nas outras e dão início a um ciclo que torna ainda mais difícil iniciarem uma amizade.

 

Do ponto de vista social, este ciclo pode ser bastante danoso. Segundo Cacioppo, "a sociedade poderá beneficiar ao cuidar das pessoas que se afastaram dos círculos sociais, para ajudar a reparar as suas redes (sociais) e criar uma barreira protectora contra a solidão, que possa evitar que toda a rede seja prejudicada".

 

Dado que a solidão está associada a doenças mentais e físicas, Cacioppo apela a uma maior atenção de todos para que, ao reconhecerem as pessoas afectadas, as ajudem de modo a que não se afastem irreversivelmente.

 

A propósito da ligação entre solidão e doença, um estudo também publicado esta semana na “Proceedings of the National Academy of Sciences” vai mais longe ao relacionar estas duas variáveis.

 

Neste trabalho, liderado por Martha McClintock, psicóloga da Universidade de Chicago, foi verificado que os ratinhos que eram deixados sozinhos desenvolviam mais tumores – e mais agressivos - do que aqueles que vivam em grupo. No caso específico do cancro da mama, as probabilidades de os roedores isolados desenvolverem a doença foi até três vezes maior do que naqueles que não foram confinados ao isolamento.

 

Foi ainda verificado que as cobaias – as quais foram mantidas sozinhas e submetidas a perturbações da vida da colónia, bem como a eventos stressantes, como um forte odor de um predador – produziram mais corticosterona, a hormona desencadeada em situações de stress.

 

O estudo também sugere uma relação causal entre a interacção social e a doença, mostrando que os roedores que viviam sozinhos na adolescência apresentavam maiores níveis da hormona de stress, decorrente do medo e ansiedade, e eram mais propensos a terem tumores mamários malignos na meia-idade.

 

Um estudo anterior da mesma universidade, liderado por Jason Yee, já tinha verificado que os roedores que desenvolveram relações de apoio durante as fases de stress eram propensos a viver mais tempo. Embora realizados em cobaias, os cientistas sugerem que a mesma ligação – entre eventos stressantes e desenvolvimento de tumores – poderá acontecer no homem.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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