Ser mãe modifica o cérebro
29 outubro 2010
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“Ser mãe muda tudo”. Esta é uma frase que ouvimos com frequência quando alguém nos conta a experiência da maternidade recente. Além de mudar completamente o quotidiano, ter um filho muda, como muitas dizem, as prioridades e os comportamentos. O choro compulsivo do bebé, o não dormir durante a noite, passam a ser situações suportáveis perante o amor incondicional. Mas estas mudanças têm uma explicação científica, que está menos relacionada com uma resposta instintiva e é mais um resultado de mudanças que ocorrem no cérebro.

 

Ser mãe pode transformar o cérebro da mulher logo após o parto, isto porque ocorrem modificações dentro do cérebro da mulher: crescem as áreas ligadas à motivação e ao comportamento. Esta é a conclusão de um estudo recentemente publicado na revista “Behavioral Neuroscience”, publicação da American Psychological Association.

 

Para o estudo, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, uma equipa de investigadores, liderada pelo neurocientista Pilyoung Kim, avaliou de que modo as mudanças hormonais que ocorrem logo após o nascimento - incluindo o aumento dos níveis de ocitocina, estrogénio e prolactina - podem ajudar a tornar o cérebro das mulheres, logo após o parto, mais propenso à reformulação, como resposta ao facto de ter um bebé.

 

Nesta investigação, os cientistas avaliaram 19 recém mamãs, com uma média etária que rondava os 33 anos e uma escolaridade média de 18 anos. Todas estavam a amamentar, quase metade tinha outros filhos e nenhuma apresentava depressão pós-parto grave.
Para chegar às conclusões, a equipa de investigadores realizou exames de ressonância magnética aos cérebros das mulheres. A comparação das imagens retiradas do cérebro das mães, entre as duas e as quatro semanas após o parto e passados três a quatro meses depois do  nascimento do bebé mostraram que a massa cinzenta tinha crescido pouco, mas significativamente, em diversas regiões do cérebro.

 

Nos adultos, normalmente, este volume não muda em apenas alguns meses sem que existam outros factores: aprendizagem considerável, lesão cerebral, doença ou alterações ambientais realmente importantes. Os cientistas verificaram que, nos cérebros das mães, as áreas que apresentaram transformação foram: o hipotálamo (associado à motivação e ao sentimento materno), a substância negra e a amígdala (ligadas à recompensa e ao processamento da emoção), o lobo parietal (integração sensorial) e o córtex pré-frontal (raciocínio e julgamento).

 

Em geral, a equipa observou que as mulheres mais "entusiasmadas" com a nova experiência de ser mãe – as que classificavam o seu bebé como especial, bonito, ideal e perfeito - eram mais propensas a desenvolver mais a região central do cérebro do que as restantes mães “menos babadas”.

 

Segundo os cientistas, as mudanças hormonais após o nascimento e o estímulo sensorial do contacto com o bebé podem ser os factores responsáveis pelo desenvolvimento de algumas áreas do cérebro dos adultos, explicaram os cientistas, em comunicado enviado à imprensa, adiantando que provavelmente são estes os factores que permitem que as novas mães “orquestrem um novo e maior repertório de comportamentos interactivos complexos com os seus bebés”.

 

Num editorial que acompanha o estudo, o neurocientista Craig Kinsley, que há largos anos se dedica ao estudo do cérebro das recém mamãs, adiantou que “a motivação para cuidar de um bebé e os traços característicos da maternidade podem ser menos uma resposta instintiva e mais um resultado da construção activa do cérebro”.

 

Este trabalho tem particular interesse no estudo e desenvolvimento de estratégias contra a depressão pós-parto, dado que, referem os cientistas, esta condição pode implicar a redução das mesmas áreas do cérebro que crescem nas mulheres que vivem a maternidade de um modo estimulante.

 

Para o futuro, os cientistas planeiam analisar o cérebro de mães adoptivas de modo a analisarem a relação entre as modificações hormonais ocorridas no parto versus a interacção mãe-bebé, de modo a constatarem se é o cérebro que muda o comportamento ou se, por outro lado, são as mudanças comportamentais que mudam o cérebro, ou se acontece um misto dos dois factores.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista
 

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