Risco de transmissão de hepatites nos centros de estética
06 novembro 2011
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Quem procura os centros de estética confia na segurança dos profissionais e dos utensílios que usam. Mas isso pode não acontecer. Segundo um estudo norte-americano, os clientes destes centros, nomeadamente os que procuram serviços nas áreas de manicure e pedicure, podem estar em risco de contrair hepatites, devido à má desinfecção dos instrumentos utilizados.

 

Em Portugal, quem promove a segurança, higiene e saúde no trabalho é a entidade patronal, contudo, compete ao Estado fiscalizar. Embora os centros de tatuagens e piercings, e os centros de medicina dentária sejam alvos de fiscalização, os centros de estética, nomeadamente manicure e pedicure, assim como as barbearias, parecem um pouco à margem das fiscalizações.

 

Um relatório norte-americano, divulgado pelo American College of Gastroenterology, vem alertar para a necessidade de uma maior avaliação sobre o risco de transmissão de hepatite através de instrumentos partilhados, tais como lixas para as unhas, bacias, lâminas de barbear, alicates e tesouras, nos centros de estética e barbearias.

 

O relatório, liderado por David A. Johnson, alerta para a potencial transmissão de patogénios, por exemplo, os vírus da hepatite B e C, se os instrumentos partilhados não forem totalmente limpos e desinfectados.

 

O trabalho, coordenado pelo Instituto de Epidemiologia do Departamento de Saúde do Estado da Virgínia, reviu as normas de segurança na Virgínia, comparando-as com outros 13 estados e com o distrito de Columbia. Além disso, a análise incluiu uma pesquisa bibliográfica abrangente na Pubmed e no Google usando palavras-chave relevantes, tais como manicure, pedicure, barbeiro, navalha e hepatite.
Embora a análise tenha sido realizada nos EUA, o alerta pode ser extensível a vários países, onde apesar de existir regulamentação, as práticas não são fiscalizadas devidamente.

 

O regulamento do Departamento de Saúde da Virgínia afirma que um nível intermediário de desinfecção dos objectos partilhados nos centros de estética ou nas barbearias é eficaz na prevenção da transmissão de patogénios, se houver o cumprimento integral."O requisito de desinfecção suficiente é uma variável importante na segurança do centro de estética e das barbearias dentro de uma perspectiva de saúde pública. O risco de transmissão de doenças infecciosas, particularmente de hepatite, em ambientes de cuidados pessoais, ainda é muito pouco estudado nos EUA", advertiu o investigador.

 

Em comunicado de imprensa, Johnson explicou que foi um relatório de um caso de hepatite C aguda claramente relacionado com um tratamento de manicure/ pédicure, que conduziu à avaliação dos riscos actuais associados aos objectos partilhados nos centros de estética.

 

Os investigadores identificaram 18 trabalhos, incluindo nove estudos de caso-controlo, três séries de casos, e seis inquéritos de base populacional, que avaliaram o tratamento em manicures, pédicures e barbearias como factores de risco potencial para o vírus da hepatite B (HBV) e ou infecção pelo HCV.

 

Dos nove estudos de caso-controlo, cinco avaliaram HBV e ou HCV em ambientes de centros de estética, três dos cinco mostraram associação com HBV e um dos cinco mostrou associação com HCV. Oito dos nove estudos de caso-controlo avaliaram HBV e ou HCV em ambientes de barbearia, cinco mostraram associação com HBV e dois mostraram associação com HCV.

 

A agência federal de saúde Occupational Safety and Health Administration (OSHA) não tem directrizes específicas para a prevenção da infecção de hepatites nos centros de estética e barbearias, de acordo com o Departamento de Saúde da Virgínia, e nem mesmo o actual formulário do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) engloba casos de HBV ou HCV nos centros de estética e em barbearias como factores de risco para transmissão da infecção da hepatite.

 

Segundo os cientistas, “a ausência de directrizes de controlo de infecção a partir de agências federais de saúde para a prevenção de infecções por hepatite em centros de estética e barbearias implica que esses elementos não surgiram como factores de risco para HBV e HCV nos EUA”, comentou Johnson, acrescentando que "no entanto, a verdadeira magnitude desse risco ainda não foi definida e necessita claramente de mais estudos".

 

Enquanto não são realizados novos estudos, o líder do estudo aconselha os clientes a estarem cientes dos potenciais riscos da transmissão de hepatite, e a tomarem cuidados, incluindo perguntar se o estabelecimento está devidamente limpo e se as ferramentas de trabalho e equipamentos são desinfectados. Também sugere que os clientes, tanto homens como mulheres, levem os próprios instrumentos, como tesouras, lâminas de barbear e limas para unhas. "Ninguém deve confiar cegamente que uma empresa tome as medidas necessárias para prevenir a transmissão de infecções transmitidas pelo sangue, como hepatite. Os profissionais de saúde precisam estar conscientes desses riscos para um aconselhamento adequado dos pacientes", afirmou Johnson.

 

Com base no relatório do Departamento de Saúde da Virgínia existem várias recomendações propostas para eliminar o potencial de transmissão. Estas incluem formação para os funcionários dos centros de estética e de barbearia, educando-os sobre o perigo das infecções transmitidas pelo sangue e enfatizar os princípios de uma boa higiene, anti-sepsia e desinfecção, bem como o aconselhamento a um maior rigor em termos de higiene pessoal, armazenamento, desinfecção e em questões de inspecção.

 

Paula Pedro Martins

Jornalista

 

O artigo teve por base o comunicado de imprensa da American College of Gastroenterology

 


 

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