Resistir à tentação: pensar pode não ser sempre a melhor opção
28 novembro 2011
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Quem nunca caiu em tentação? Um bolo apetitoso na montra de uma pastelaria quando se está de dieta, aquela bebida alcoólica que não se deve beber porque está a tomar medicamentos, fumar um cigarro quando há anos se largou o vício ou, sendo casado/a, aquela pessoa atraente que se cruza no nosso caminho…

 

Pois…a verdade é que, todos nós já caímos em tentação…E se muitos de nós pensamos que parar para pensar, racionalizando e mantendo o foco nos objectivos, nos ajuda a afastar desejos proibidos, parece que, muitas vezes, essa atitude pode surtir… o efeito contrário.

 

Um estudo da Kellogg School of Management, da Universidade Northwestern, nos EUA, publicado recentemente na revista “Psychological Science”, vem dizer que parar para pensar só vai ajudar, dependendo do estado emocional em que nos encontramos.

 

A equipa co-liderada por Loran Nordgren e Eileen Chou quiseram testar duas "sabedorias populares" muito comuns na literatura científica. "A primeira mostra que a presença da tentação distorce a cognição de uma tal forma que acaba por dar origem ao comportamento impulsivo," explicou, em comunicado de imprensa, Nordgren.

 

A outra mostra que "a tentação acciona processos protectores do pensamento que promovem o autocontrolo.” E exemplifica o que acontece com esta última teoria: “ao mostrar um pedaço de bolo a alguém que está de dieta e ela responde 'Não, obrigado, estou de dieta'.

 

Os investigadores decidiram colocar estas duas teorias à prova. Só que, segundo explicou o investigador, as duas abordagens deixam de lado um factor crucial: a interacção entre a tentação e o que denominou "estado visceral" (fome, sede, desejo sexual e paixões), que determina se os processos cognitivos serão orientados em relação ao comportamento impulsivo ou ao autocontrolo.

 

Para o estudo, os investigadores analisaram diferentes mecanismos cognitivos, incluindo a atenção e "valorização motivada", o quanto nos preocupamos com algo dependente de recompensas, para ver como a tentação nos afecta.

 

Numa experiência, 49 estudantes do sexo masculino que tinham um relacionamento afectivo assistiram ou a um filme erótico, que os levou a um estado de excitação sexual, ou a um desfile de moda gravado, criando um estado de tranquilidade. Em seguida, os cientistas mostraram imagens de mulheres atraentes e registaram o tempo que os participantes passaram a olhar para as imagens.

 

Uma semana depois, foi realizado o mesmo teste, mas, desta vez, os investigadores informaram que as mulheres eram estudantes recém-chegadas à faculdade e disponíveis para relacionamentos. Desta vez, os homens “excitados” olharam durante mais tempo. Mais a tentação promoveu menos fidelidade. Os homens que se encontravam num estado de tranquilidade agiram de forma oposta.

 

Num segundo estudo, alguns dos 53 fumadores que participaram na experiência foram instruídos a fumar imediatamente antes de iniciarem o teste, enquanto o resto se absteve durante três horas. Em seguida, ambos os grupos avaliaram o prazer de fumar, mostrando o quanto valorizavam fumar um cigarro.

 

Em seguida, os investigadores realizaram a mesma experiência, nas mesmas condições, com as mesmas perguntas, mas com uma escolha: deixar de fumar durante 40 minutos e receber três euros de recompensa ou fumar imediatamente e não ganhar nada. Previsivelmente, aqueles que tinham fumado antes do início do estudo adiaram mais facilmente o fumo para receberem a gratificação. Mas também avaliaram o prazer de fumar como menor, ao contrário do que aconteceu na primeira vez, enquanto aqueles que não fumaram mostraram uma classificação mais elevada. O grupo "tranquilo" encontrou razões para esperar, o "excitado", para fumar.

 

E o que tudo isto quer dizer? "Se pensarmos no combate razão versus paixão, tendemos a pensar que a cognição serve a interesses de longo prazo e que a paixão serve a gratificações imediatas; um anjinho num ombro e um diabinho no outro”.

 

“Mas também, se uma pessoa está excitada sexualmente ou com fome, mesmo sabendo que aquilo não é o melhor (o que nos diz o anjinho), ela não consegue resistir ao diabinho", explica Nordgren.

 

"As necessidades ou o desejo são cúmplices da impulsividade, mas também corrompem os processos cognitivos que ajudam uma pessoa a interromper esse comportamento. Quando deseja e está a ser tentado, a racionalização cede e, portanto, num estado de excitação, é impossível não se deixar levar pela tentação (ou seja, temos um diabinho em cada ombro)".

 

O artigo teve por base o comunicado de imprensa da Association for Psychological Science.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

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