Rejeição social e emocional causa tanta dor quanto a física
30 junho 2011
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O sentimento que a desilusão ou a perda nos provoca a nível emocional é de uma dor intensa. Mas será ela tão forte quanto a dor física? Para aferir se a dor provocada pelas duas situações é semelhante, cientistas norte-americanos foram à procura de respostas.

 

Num estudo publicado na revista “Proceedings of National Academy of Sciences” (PNAS), psiquiatras norte-americanos foram à procura das razões pelas quais as dores emocionais são tão fortes nalgumas pessoas quanto as dores físicas.

 

Para o estudo, os investigadores, liderados por Ethan Kross, da Universidade de Michigan, nos EUA, analisaram 40 homens e mulheres que tinham passado por uma desilusão amorosa nos últimos seis meses. Todos tinham terminado uma relação afectiva, sendo que gostariam de tê-la continuado, e afirmavam sentir-se intensamente rejeitados.

 

Os participantes realizaram duas tarefas no estudo: uma relacionada com os seus sentimentos de rejeição; e outra sobre as sensações de dor física. Todas as tarefas foram avaliadas através de exames de ressonância magnética aos seus cérebros.

 

Durante a tarefa para aferir a intensidade da rejeição emocional, foi mostrado aos voluntários uma foto do seu ex-namorado(a) e perguntado sobre o que sentiram durante a sua experiência de rejeição; foi-lhes também mostrada outra foto, esta de um amigo(a), e questionados sobre o que sentiram sobre uma experiência positiva que tivessem tido recentemente com essa pessoa.

 

Para a tarefa destinada a avaliar a dor física, foi colocado um aparelho de estimulação térmica no antebraço esquerdo dos participantes. Nalguns testes, a sonda provocava um estímulo doloroso, mas tolerável, semelhante ao de segurar uma chávena de café bem quente. Noutros testes, os voluntários eram expostos a uma estimulação dolorosa não térmica.

 

Para a análise das imagens de ressonância magnética, além da observação das realizadas pelos voluntários, os cientistas compararam os resultados do estudo com as de um banco de dados com mais de 500 estudos anteriores de ressonâncias magnéticas sobre respostas do cérebro à dor física, emoção, memória, mudança de atenção, memória de longo prazo e de resolução de interferências.

 

Da análise das ressonâncias magnéticas, os investigadores verificaram que as duas situações de dor - a perda do namorado e sentir o antebraço a queimar - provocaram uma reacção nas mesmas regiões cerebrais. E concluíram que o stress emocional causado, por exemplo, pela perda de uma pessoa querida afecta as pessoas da mesma maneira como se fosse um acto físico.

 

De facto, não deve ser por acaso que, em muitas culturas, a palavra dor é empregue tanto nas questões emocionais como nas físicas. "Descobrimos que induzir sentimentos de rejeição social activa regiões do cérebro que estão envolvidas na sensação de dor física, que raramente são activadas em estudos de neuroimagem da emoção", explicou o líder da investigação, em comunicado enviado à imprensa, acrescentando que "estes resultados são consistentes com a ideia de que a experiência da rejeição social, ou mais em geral, a perda social, pode representar uma experiência emocional diferente que é exclusivamente associada à dor física."

 

Em termos científicos, foi verificado que em ambas as situações existe uma sobreposição neuronal em duas regiões do cérebro - o córtex somatosensorial e a ínsula dorsal posterior - que se tornam activas quando as pessoas experimentam sensações dolorosas. Segundo reforça Ethan Kross, "estes resultados dão um novo significado à ideia de que a rejeição social 'dói' " e podem conduzir ao desenvolvimento de fármacos capazes de minimizar a dor da perda.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

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